Após embarcar em uma onda de consolidação do ensino superior e passar os últimos quatro anos reestruturando sua operação, o popular "back to bascis" que marcou recentemente várias empresas, o Grupo Cogna abriu um novo capítulo e, agora, investe para crescer em outras frentes de negócios.
Apoiada em uma Kroton mais leve e rentável, a empresa de educação quer elevar sua participação nos mercados de educação básica e ofertas para governos, além de cursos online, um mercado endereçável que calcula ser da ordem de R$ 100 bilhões.
“Falamos muito sobre ter essa ambidestria dentro da companhia”, diz Roberto Valério, CEO da Cogna, ao NeoFeed. “Em um primeiro momento, buscamos fazer o core de maneira eficiente para voltar a crescer. Feito isso, estamos olhando para as competências internas para construir produtos novos, porque não somos mais só um consolidador de ensino superior.”
Ao mesmo tempo em que tocava a reestruturação, enxugando a base de campi de universidades de 170 para 113, fechando cursos pouco rentáveis e deixando de operar escolas, a Cogna foi criando novos negócios, especialmente nas áreas de educação básica e governo, como parte de um esforço de diversificar suas fontes de receita.
Na educação básica, tocada pela Vasta, a companhia passou a focar no desenvolvimento e oferta de sistemas de ensino. Com marcas reconhecidas no portfólio, como Anglo e pH, a Cogna passou a ofertar soluções complementares para escolas em temas como habilidades socioemocional e robótica.
A companhia também criou uma franquia de escola bilíngue, a Start Anglo, de olho na demanda dos pais por escolas que tenham o inglês como segunda marca. Neste formato, a Cogna provê o sistema de ensino, marca e know-how para donos de escolas.
Lançada em 2023, a rede de franquias conta atualmente com mais de 50 contratos assinados com donos de escolas que querem contar com conteúdo bilíngue. A empresa conta com seis escolas já em operação e espera chegar a 30 até 2027.
Valério destaca a iniciativa como exemplo da estratégia da Cogna de capturar valor utilizando recursos vindos da estrutura que produziu nos últimos anos.
“Já tínhamos o Anglo, que é um tremendo aprovador de vestibulares, e o conteúdo da MacMillan [editora de livros didáticos em inglês] com quem temos parceria, e unimos ambos para criar essas franquias. Não fizemos M&A para fazer isso, as competências já estavam dentro de casa”, diz o CEO.
Outra frente que a Cogna planeja crescer é na parte B2G, business to government, com a venda de material didático ao governo, na vertical Saber. Um dos objetivos é ganhar market share no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), programa de distribuição de livros didáticos do governo federal.
A Cogna tinha entre 15% e 20% de participação, mesmo sendo dona de algumas das principais editoras de livros didáticos, como Saraiva, Scipione e Ática. A partir de um esforço para ampliar o leque de produtos, essa fatia passou para 33%.
A companhia vê também espaço para desenvolver outros produtos para secretarias de educação municipais e estaduais. Uma oferta que já está na rua é a de materiais para reforçar ensino de matérias como português e matemática nas escolas, utilizada pelo governo do Pará.
Os primeiros resultados geram bastante expectativa. A companhia conseguiu elevar o faturamento médio em soluções com governo de cerca de R$ 40 milhões em 2021 para R$ 300 milhões em 2024, e a expectativa é de ir crescendo, dado o tamanho do mercado.
“Somente os governos estaduais e municipais têm um orçamento de mais de R$ 50 bilhões para despesas discricionárias em educação”, diz Valério.
Outra frente de negócio na qual a companhia aposta é a parte de infoprodutores, parte da vertical Cogna, que também toca soluções B2B. A Cogna desenvolveu uma plataforma chamada Voomp, voltada para pessoas que produzem conteúdos como cursos e e-books e que possam oferecer cursos livres, de olho num mercado que cresce 50% ao ano.
Crescimento e rentabilidade
Valério destaca que a nova oferta de produtos vem acompanhada de uma preocupação de não perder o ganho de rentabilidade obtido com a reestruturação da companhia. Segundo ele, novas iniciativas precisam apresentar uma TIR de ao menos 25%.
Em termos de faturamento, a expectativa da Cogna é de que, com estas novas frentes de negócios, as outras áreas respondam cada vez mais pela receita, que no acumulado do terceiro trimestre atingiu R$ 4,8 bilhões, alta de 13%.
Desde 2018, quando adquiriu a Somos Educação, por R$ 4,6 bilhões, e expandiu sua atuação em educação básica, a Cogna reduziu o peso do ensino superior na receita, de quase 99% para um patamar superior a 60%. Com os novos produtos, a expectativa é de que, no longo prazo, as outras áreas de negócios possam responder por metade da receita.
“Mas é meio difícil dizer quando isso vai acontecer, porque o ensino superior está crescendo bastante”, diz Valério, destacando que a receita da Kroton atingiu R$ 3,4 bilhões no acumulado de 2025, apresentando crescimento de 17,4%. “Os outros negócios crescem bastante, mas como o ensino superior também está expandindo, o aumento da participação não será tão rápido, mas a tendência é que ganhem participação ao longo do tempo.”
Ele afirma que a Cogna não pretende realizar grandes ou vários M&As para consolidar ou acelerar a expansão dessas novas áreas, ainda que alguma aquisição possa ser realizada. “Estamos mais focados em crescer organicamente”, diz Valério.
Essa abordagem em relação a fusões e aquisições é parte da nova filosofia sobre o uso de capital. No caso de M&As, a intenção é voltar ao mercado de forma pontual, com operações menores e mais estratégicas, complementando a oferta atual.
A mais recente operação foi em agosto, com a aquisição da Faculdade de Medicina de Dourados (FMD), em Mato Grosso do Sul, por R$ 54,4 milhões.
Dentro desta estratégia de alocação de capital, a Cogna quer voltar a retornar recursos aos acionistas, após ficar cinco anos sem dar lucro, e reduzir o endividamento líquido para pagar menos juros. A intenção é manter a alavancagem financeira no longo prazo entre 1 vez e 1,5 vez – no terceiro trimestre de 2025, essa relação chegou a 1,1 vez, a menor em 28 trimestres.
Essas duas frentes apresentam boas perspectivas diante dos resultados que a companhia conquistou com os ajustes feitos, mais os efeitos da melhora da economia. O Ebitda da Cogna cresce há 19 trimestres consecutivos, tendo fechado o terceiro trimestre em R$ 431,7 milhões, alta de 14,4% em base anual.
A geração de caixa operacional saiu dos R$ 640 milhões de 2021 para R$ 1,05 bilhão em 2024 e a expectativa é seguir avançando. Em relatório divulgado no começo deste ano, o J.P. Morgan elevou a recomendação para as ações da Cogna de neutro para compra, com preço-alvo de R$ 6,50, diante das boas perspectivas de crescimento da companhia.
Os analistas revisaram para cima as projeções de crescimento da receita em 2026, de 5% para 12%, com base no ritmo de crescimento da Kroton e também da parte de educação básica. Eles também destacaram que as ações da Cogna estão bastante descontadas, negociadas a um múltiplo P/E de 5,4 vezes para este ano e de 4,2 vezes para o próximo.
Para Valério, a mudança de recomendação é mais um sinal da mudança da visão do mercado em relação à companhia, algo que se materializou no ano passado, quando as ações da Cogna fecharam com alta acumulada de mais de 250%, com a companhia registrando um valor de mercado de R$ 7,4 bilhões.