Quando Warren Buffett decidiu deixar o cargo de CEO da Berkshire Hathaway, passando o bastão a Greg Abel, muitos ficaram – e permanecem – preocupados de que a holding “perca a mão” sem o "Oráculo de Omaha" à frente das decisões de investimento.

Esses receios se refletiram no desempenho das ações da Berkshire Hathaway nesta sexta-feira, 2 de janeiro, segundo dia de Abel no comando – por volta das 15h39, as ações classe A recuavam 1,79%.

Diante destas preocupações, o lendário investidor veio novamente a público para apaziguar os ânimos. Em entrevista à CNBC, Buffett, 95 anos, afirmou que a Berkshire Hathaway está melhor posicionada que outras companhias para o longo prazo.

"Acho que ela [Berkshire Hathaway] tem mais chances de estar aqui daqui a 100 anos do que qualquer outra empresa que eu consiga imaginar", disse.

Ele também reforçou seu apoio a Abel, que assumiu o comando da companhia na quinta-feira, 1º de janeiro. O executivo, então vice-presidente das empresas não seguradoras da Berkshire desde 2018, foi formalizado como sucessor em maio do ano passado, decisão já acertada desde 2021.

“Greg será quem tomará as decisões”, disse Buffett. “Prefiro que o Greg administre meu dinheiro do que qualquer um dos melhores consultores de investimento ou CEOs dos Estados Unidos.”

Buffett, que permanece como presidente do conselho de administração da Berkshire Hathaway, destacou que Abel possui perfil semelhante ao seu na vida pessoal.

“Se os vizinhos não soubessem quem ele era, não teriam ideia de que, em 1º de janeiro, ele seria responsável pelas decisões de uma empresa que emprega quase 400 mil pessoas e que planeja existir daqui a 50 ou 100 anos”, afirmou.

Não é a primeira vez que Buffett sinaliza apoio a Abel. Em declaração recente ao The Wall Street Journal (WSJ), disse que o executivo “superou minhas expectativas em todos os aspectos”. “E espero que ele permaneça no cargo por 20 anos ou mais”, completou.

Mesmo assim, investidores têm dúvidas se Abel conseguirá dar continuidade ao trabalho de Buffett. Junto com Charlie Munger (1924-2023), Buffett construiu fama com sua filosofia de investimentos, que levou a empresa a registrar ganho anual composto de quase 20% entre 1964 e 2024.

Abel assume uma Berkshire Hathaway com US$ 358 bilhões em caixa, cifra recorde nos mais de 60 anos em que Buffett esteve à frente da companhia, antes uma empresa têxtil pouco relevante. Nos últimos 12 trimestres consecutivos, a Berkshire vendeu mais ações do que comprou.

Nos nove primeiros meses de 2025, a gestora se desfez de US$ 10 bilhões a mais em ações do que adquiriu. No ano passado, Buffett fez seu último negócio multibilionário: a compra da OxyChem, operação concluída nesta sexta-feira, por US$ 9,7 bilhões.

Com tanto recurso em caixa, a grande questão é como Abel abordará o mercado. A alta de 16% do índice S&P 500 em 2025 fez muitos setores parecerem caros para um investidor em busca de pechinchas, como a Berkshire.

Na última assembleia anual de acionistas, em maio do ano passado, Abel afirmou que a reserva de caixa é um “ativo enorme” que oferece à Berkshire proteção em caso de recessão.

"Continuaremos sendo a Berkshire", disse Abel. "A forma como Warren e a equipe alocaram capital nos últimos 60 anos não mudará."

A mensagem foi reforçada por Buffett na entrevista à CNBC, destacando que ainda estará presente na companhia, mas com postura mais discreta, inclusive nas reuniões de acionistas, evento que atraía milhares de admiradores à pequena Omaha, em Nebraska, para ouvir Buffett.

“Tudo permanecerá igual”, disse. “Não estarei lá discursando na assembleia anual, mas estarei na área reservada aos diretores.”