No plano de transformação que a Casas Bahia vem implementando desde 2024, pautado na filosofia back to basics, um ponto que faltava ser encaminhada era a parte financeira, com a correção da estrutura de capital. Não falta mais.

A varejista anunciou nesta quarta-feira, 11 de março, que reduziu em 75% sua dívida líquida no quarto trimestre, fazendo com que a alavancagem financeira caísse de 1,9 vez, apurada no terceiro trimestre, para 0,4 vez ao final do ano, abrindo caminho para a companhia começar a pensar na próxima fase de crescimento.

“O mercado sempre se mostrou preocupado com a alavancagem, reconhecendo os ganhos operacionais, mas dizendo que com os juros altos não sairíamos do outro lado”, diz Renato Franklin, CEO da Casas Bahia, ao NeoFeed. “A gente agora atravessou uma barreira importante, colocando outro patamar de balanço, muito mais forte, sinalizando uma nova fase para a companhia.”

A transformação da estrutura de capital começou a acontecer em agosto do ano passado, com a conversão de debêntures pela Mapa Capital, que reduziu a dívida em R$ 1,6 bilhão e passou a ser controladora da empresa. Quatro meses depois, em dezembro, veio a segunda parte, que cortou mais R$ 3 bilhões.

Franklin diz que estas operações resultarão numa grande redução de despesa financeira, de cerca de R$ 450 milhões por ano. “Olhando o fluxo de caixa projetado, as duas transações somadas, economizamos R$ 7,5 bilhões no fluxo de caixa dos próximos cinco anos”, afirma. “A despesa financeira do segundo semestre vai ser muito melhor do que a do segundo semestre de 2025.”

O encaminhamento da despesa financeira é fundamental para a Casas Bahia voltar a apresentar saldo positivo na última linha do balanço. No quarto trimestre, a companhia registrou um prejuízo de R$ 1,5 bilhão, aumento de 3,4 vezes. No ano, o prejuízo totalizou R$ 3 bilhões, aumento de 2,8 vezes.

O efeito negativo da despesa financeira foi potencializado pela decisão da diretoria de realizar uma provisão não recorrente de R$ 1,4 bilhão relativa a créditos tributários. Excluindo esse efeito, a Casas Bahia fechou o quarto trimestre com prejuízo de R$ 79 milhões, melhora de 82,5%. No ano, o saldo negativo aumentou 47,2%, para R$ 1,5 bilhão.

A despesa financeira era uma “pedra no sapato” do balanço da Casas Bahia, desviando o foco da parte operacional, que vem demonstrando evolução. No quarto trimestre, a Casas Bahia registrou um aumento de 6,1% da receita líquida, a R$ 8,5 bilhões, e subiu 7,3% ante 2024, para R$ 29,2 bilhões. O Ebitda avançou 29,1%, a R$ 826 milhões, com a margem crescendo 1,8 ponto percentual, enquanto no ano atingiu R$ 2,5 bilhões, alta de 29,7%.

No período, o GMV consolidado cresceu 8,7% em base anual, somando R$ 13,1 bilhões. Enquanto o GMV do e-commerce cresceu 21,7%, o indicador das lojas físicas ficou estável, com a métrica de “vendas mesmas lojas”, que considera o resultado de unidades em funcionamento há mais de 12 meses, subiu 2,6%, menos do que os 17,1% registrados no quarto trimestre de 2024.

Segundo Franklin, o resultado na frente de lojas físicas é resultado da forte base de comparação estabelecida em 2024 e a migração de consumidores para o digital. Além disso, os clientes que preferem ir às lojas, geralmente de baixa renda, acabaram reduzindo o consumo por conta do duro momento macroeconômico.

“O crescimento de share tem sido muito grande no online. A tendência é que, à medida que arrumamos a rentabilidade do online, ele chegue num share próximo do que a gente tem na loja física”, afirma.

Foco no crediário

Com os ajustes nas frentes operacional e financeira bem encaminhados, a Casas Bahia vai se concentrar em retomar uma frente que sempre foi sinônimo da empresa: o crediário.

No Investor Day, marcado para 23 de março, Franklin pretende apresentar um programa de mais de 100 iniciativas para os próximos dois anos focado em aumentar as vendas de crediário no mercado físico e online.

As iniciativas passam por investimentos em mídia especializada, priorização de oferta de produtos mais aderentes ao crediário e uso de tecnologia para conhecer melhor os clientes e liberar crédito mais rápido e de forma assertiva.

“A venda adicional de qualquer categoria traz margem de contribuição, a margem bruta é grande, mas quando eu faço uma venda de crediário, é muito mais forte”, diz Franklin.

No ano passado, a carteira de crediário somou R$ 6,6 bilhões, alta de 7% em base anual, mas a avaliação é de que é possível avançar mais, dada a escala da companhia e a expertise que ganhou ao longo dos anos. “Quando a gente olha para a carteira de crediário, ela cresceu menos do que a gente gostaria, a gente cresceu R$ 450 milhões”, diz Franklin.

Ele ressalta que a ideia não é sair acelerando as vendas, uma vez que o cenário macroeconômico ainda não é favorável para a concessão de crédito. O primeiro passo é estruturar a operação.

“O crescimento não deve vir no primeiro semestre, vamos esperar melhorar”, diz. “Vamos começar a sentir o mercado, mas a nossa grande expectativa é ter a redução de juros, melhora no endividamento da família para podermos acelerar.”

As ações da Casas Bahia fecharam o pregão com queda de 3,13%, a R$ 3,09. Em 12 meses, os papéis acumulam baixa de 40,6%, levando o valor de mercado a R$ 2,8 bilhões.