Cinco anos após o IPO da Cury Construtora, a principal sócia da empresa de negócios imobiliários para a baixa renda vem reduzindo sua participação acionária.
A Cyrela, de Elie Horn, que detinha 48,25% antes da estreia da construtora de imóveis populares na Bolsa em setembro de 2020, já se desfez de mais da metade de suas ações.
Esse é um movimento que a Cyrela vem fazendo aos poucos. Em agosto de 2025, por exemplo, a Cyrela vendeu 4,6 milhões de papéis da Cury, baixando a participação de 18,53% para 16,95%, naquela oportunidade. No início de 2025, por exemplo, a Cyrela tinha 19,21%.
Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa da família Horn tinha 30,9% de participação acionária em janeiro de 2021, três meses após o IPO da Cury. No início deste ano, de acordo com as informações publicadas no canal de Relações com Investidores da construtora, essa fatia é de 15,08% das ações.
“É como se a empresa-mãe estivesse pronta para deixar a filha ganhar o mundo. Ela tem dado um grande retorno para a Cyrela. Então, esse é um movimento até natural. A questão agora é se ela vai zerar sua posição e quando”, diz uma fonte a par do assunto, ao NeoFeed.
Com valor de mercado de R$ 9,7 bilhões na B3, o desempenho da ação CURY3 justifica o movimento da Cyrela. Desde o IPO, a valorização é de 205%. E, no pregão de 28 de novembro do ano passado, o papel atingiu seu maior valor, R$ 38,24.
Fontes do mercado imobiliário ouvidas pelo NeoFeed dão algumas razões que explicam esse movimento da Cyrela de saída da Cury. Uma delas é estratégica.
A Cyrela estaria concentrando esforços na Lavvi. Dona de 62% da incorporadora de alto padrão, a empresa foi para a bolsa de valores no mesmo período da Cury, mas, até o início de 2025, as ações estavam patinando e acumulavam 12,5% de desvalorização. No ano passado, subiu perto de 130%.
Como a Cury tinha acumulado “musculatura”, a Cyrela pôde iniciar o processo de retorno dos recursos alocados na companhia.
Outro fator que está diretamente conectado a esse movimento é financeiro. Com a venda das ações nos últimos anos, a Cyrela conseguiu fazer caixa.
No balanço do terceiro trimestre de 2025, a Cyrela informou que a venda das ações da Cury no período contribuiu para alcançar R$ 609 milhões de lucro líquido, o que representou uma alta de 29% sobre o mesmo período do ano anterior.
“No terceiro trimestre de 2025, a companhia apresentou geração de caixa de R$ 423 milhões, comparável à geração de caixa de R$ 129 milhões no terceiro trimestre de 2024 e consumo de caixa de R$ 392 milhões no segundo trimestre de 2025. Destaca-se que no período tivemos R$ 251 milhões de efeitos não recorrentes referentes às alienações das ações da Cury”, diz o documento da Cyrela.
Relatório do Santander, assinado pelos analistas Fanny Oreng, Luis Wadt e Matheus Meloni e publicado em novembro de 2025, reafirma a posição estratégica dos recursos obtidos pela Cyrela a partir da venda de ações, que minimizou o impacto do aumento das despesas.
“O Ebitda ajustado [da Cyrela] totalizou R$ 762,3 milhões, principalmente em linha com nossas estimativas, já que as despesas de vendas maiores do que o esperado, associadas a um maior volume de lançamentos, foram parcialmente compensadas por ganhos na venda de ações CURY3”, diz o documento.
Fato é que, no mercado imobiliário brasileiro, a faixa popular, onde a Cury transita bem, tem contribuído muito para sustentar o momento no setor do país, em contraponto ao setor de média e alta renda, que tem caminhado de lado.
Além disso, o principal programa habitacional para baixa renda do país, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), já tem recursos garantidos do orçamento federal para 2026, sem qualquer risco de contingenciamento ou de impacto pela proximidade do período eleitoral.
Para este ano, o MCMV prevê um montante de R$ 144,5 bilhões em recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), incluindo R$ 12,5 bilhões específicos para subsídios, como descontos na entrada ou nas prestações.
Assento no conselho
A redução da participação da Cyrela na Cury levanta outra questão. O percentual de 15,08% está próximo do limite de 14% para que o acionista possa ter assento no conselho de administração da Cury.
Não há no Estatuto Social nenhum detalhe sobre a necessidade imediata de mudança de conselheiros caso o acionista alcance uma posição menor.
Atualmente, o colegiado da companhia é presidido por Ronaldo Cury de Capua, da família fundadora, que também é diretor de relações com investidores da empresa.
No conselho da Cury está Raphael Abba Horn, copresidente-executivo da Cyrela e filho de Elie Horn, fundador da construtora. Integra também o colegiado o atual CFO da Cyrela, Miguel Maia Mickelberg.
Dessa forma, o conselho de administração da Cury, com seis cadeiras, conta com dois nomes da família Cury - o CEO Fabio Cury é o outro membro da família fundadora -, dois representantes da Cyrela e dois membros independentes - Luiz Antonio Nogueira de França e Viviane Mansi.
Além da Cyrela, a composição acionária da Cury tem os membros da família Cury com 30,69%. A diretoria soma 1,97%. E as ações em livre circulação somam 52,26%.
Na quarta-feira, 14 de janeiro, a Cury divulgou a prévia operacional de 2025, com vendas líquidas recorde de R$ 7,8 bilhões, alta de 25,8% sobre o ano anterior.
No ano passado, foram lançados 37 empreendimentos, sendo 25 em São Paulo e 12 no Rio de Janeiro, totalizando um valor geral de vendas (VGV) de R$ 8,28 bilhões, 25,9% acima do registrado em 2024. O relatório completo sobre os números de 2025 será divulgado em 10 de março.
Procurada pelo NeoFeed para comentar o movimento de redução de participação na subsidiária, a Cyrela não respondeu à reportagem. A Cury também não comentou.