Os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) deixaram de ser um produto de nicho e ganharam espaço no portfólio dos investidores brasileiros. Em abril, o varejo tradicional e a alta renda bateram, juntos, R$ 100,2 bilhões investidos na classe, mais que o triplo do volume registrado pela Anbima em 2021 e 29% acima de todo o investimento feito pela categoria em fundos de ações. São 710 mil contas com posições em COEs, mais que o dobro das cerca de 300 mil contas que, em 2021, tinham o ativo na carteira.

Apesar do avanço expressivo do produto nos últimos anos, os dados mais recentes mostram que esse mercado começa a desacelerar. Levantamento feito pelo NeoFeed, a partir de dados públicos da B3, mostra que o volume financeiro de COEs registrados entre janeiro e maio de 2026 caiu 21,4% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 14,2 bilhões.

Gestoras ouvidos pelo NeoFeed dizem que o menor volume de emissões tem relação com uma série de fatores, que vão de mudanças no suitability do produto a campanhas negativas nas redes sociais. Mas um dos pontos de virada foram as perdas inesperadas relacionadas a COEs de crédito. “Ano passado, a gente teve o evento Ambipar, que foi o mais dramático de COE no Brasil”, diz Rodrigo Franchini, da Monte Bravo.

Nesse tipo de estrutura, o investidor acessava, por meio do COE, o risco de crédito de dívidas da Ambipar no exterior, que ofereciam prêmio maior do que títulos da companhia no mercado local. Com o pedido de recuperação judicial da Ambipar, porém, parte dos investidores percebeu que a proteção de capital não se aplicava àquelas operações.

“Muita gente achava que tinha capital protegido, mas, no COE de crédito, o investidor está comprando risco de crédito. Isso gerou uma ruptura de confiança no produto”, diz Franchini.

O episódio envolvendo a Ambipar ocorreu em conjunto com as mudanças nas regras de suitability dos COEs de crédito. Em maio de 2025, meses antes de a crise da Ambipar se agravar, a Anbima publicou regras específicas para a classificação de risco desses produtos. Quanto maior o risco da estrutura, mais restrito tende a ser o público para o qual o produto pode ser recomendado.

Por conta disso, as próprias plataformas passaram a adotar travas mais rígidas para a distribuição do produto, considerando fatores como perfil de risco, idade, prazo da estrutura e percentual máximo de exposição na carteira.

“Se o cliente fala que pretende colocar 15% de uma vez, o sistema, literalmente, não deixa. Também há travas por idade, por ser um produto de longo prazo”, afirma uma fonte ouvida pelo NeoFeed. “Antes você podia ter um cliente com 50% de COE. Hoje isso jamais aconteceria. Precisa ter o cliente certo, com idade, perfil e percentual de alocação alinhados.”

As mudanças ajudaram a corrigir excessos do passado, após o produto ter sido vendido em escala “quase que industrial” e “com pouca aderência ao perfil de investidor”.

Alternativa à renda fixa

A tração dos COEs ganhou força a partir de 2018 e 2019, em um ambiente de juros mais baixos, quando investidores passaram a buscar alternativas à renda fixa tradicional.

Muitas das estruturas vendidas naquele período estavam atreladas ao desempenho de bolsas internacionais, commodities, moedas ou setores específicos e tinham prazos longos que podiam chegar a sete anos.

Parte delas oferecia proteção do capital nominal no vencimento, mas o ganho dependia de condições específicas de performance dos ativos de referência. Em alguns casos, mesmo quando o capital foi preservado, o resultado ficou aquém do que poderia ter sido capturado em produtos de renda fixa.

“Você tem uma renda fixa pagando caro, produtos rendendo 7% ou 8% ao ano mais IPCA e prefixado na casa de 14%. Tudo isso acaba redirecionando capital para fora desses produtos. Então, as pessoas começaram a entender que também tem um custo grande de carrego, por serem operações com prazos de maturação mais longos”, diz o sócio e conselheiro da KAT Investimentos, Ronaldo Guimarães.

Parte da frustração veio de operações atreladas a ativos que o cliente não compreendia bem ou que não performaram como esperado. Mas não só isso ajuda a explicar a queda.

A  maior adoção do modelo de remuneração por fee fixo em assessorias de investimento também mexeu no mercado de COEs. O produto costumava oferecer comissões relativamente altas aos distribuidores, o que aumentava o incentivo comercial para sua venda.

Com o avanço do fee fixo, essa lógica muda: a comissão deixa de ser o principal atrativo para o assessor e pode ser revertida em melhores condições para o cliente, seja por meio de prêmio maior na estrutura ou de cashback.

“Todo o prêmio que seria de distribuição, de custo do produto, vai para dentro do produto. Então, realmente tem que fazer muito sentido para o cliente”, afirma Franchini, da Monte Bravo.

Amadurecimento do mercado

Essa combinação de fatores tem se traduzido em uma oferta mais seletiva e mais aderente ao perfil do cliente. O movimento aparece nos próprios dados levantados pelo NeoFeed. Embora o volume financeiro de COEs registrados tenha caído 21,4% no acumulado de janeiro a maio, a quantidade de contratos cresceu 8,2% no mesmo período, de 80.280 para 86.837.

O resultado foi redução do tíquete médio das operações. Nos cinco primeiros meses de 2025, cada contrato registrado equivalia, em média, a cerca de R$ 225 mil. No mesmo intervalo deste ano, o valor caiu para aproximadamente R$ 164 mil.

“O mercado está sendo mais criterioso e com menores alocações. Hoje, eu vejo que é um produto mais maduro”, afirma Franchini. “Todo produto carece de uma evolução natural desde o seu início. Às vezes, essa evolução é traumática, mas acho que está nesse caminho.”

Os dados por segmento mostram que a perda de fôlego é mais forte justamente nas faixas em que os COEs ganharam escala nos últimos anos. Na alta renda, que concentra a maior parte do estoque do produto, o crescimento desacelerou de forma relevante. Entre dezembro e abril deste ano, o estoque nesse segmento avançou R$ 3,7 bilhões, contra R$ 8,6 bilhões no mesmo intervalo de 2025.

No varejo tradicional, o mercado segue praticamente estável desde o início de 2025. O estoque, que era de R$ 12,8 bilhões em dezembro de 2024, estava em R$ 13,7 bilhões em abril deste ano.

O private, por outro lado, manteve o mesmo ritmo nominal de crescimento, com avanço de R$ 1,2 bilhão no estoque de investimentos em COEs nos primeiros quadrimestres de 2025 e 2026. Em 2026, porém, o private passou a representar 22% do crescimento total dos estoques de COE contra 13% no mesmo período de 2025.