Fabricantes de automóveis já contabilizam as perdas causadas pelo estouro da bolha do mercado de carros elétricos nos Estados Unidos. As principais montadoras já registram prejuízos que ultrapassam US$ 50 bilhões, provocados pela queda acentuada na demanda por automóveis movidos a bateria.
Após anos de investimentos para desenvolver a tecnologia de veículos elétricos e apostar em lançamentos de produtos, as três principais companhias com fábricas em Detroit, nos Estados Unidos – General Motors, Ford e Stellantis -, anunciaram recentemente baixas contábeis por causa da mudança de estratégia a partir da expectativa frustrada do mercado.
No ranking dos prejuízos acumulados pelas principais montadoras, a Stellantis, dona da Jeep, Fiat e Peugeot, lidera, com baixa contábil de US$ 26 bilhões. A Ford contabilizou US$ 19,5 bilhões, e a GM, mais de US$ 6 bilhões
No quarto trimestre de 2025, as vendas de veículos elétricos registram queda de 30%, provocada também pelo término de uma isenção fiscal de US$ 7,5 mil por veículo, por parte do governo dos Estados Unidos, o que havia ajudado a impulsionar as vendas inicialmente.
A demanda de veículos como o da Tesla, do bilionário Elon Musk, despencou no mercado americano. A Ford, por exemplo, já anunciou a decisão de descontinuar a produção da versão elétrica da picape F-150. Interrompida em outubro, a fabricação não será retomada.
“Em vez de investir bilhões no futuro sabendo que esses grandes veículos elétricos nunca darão lucro, estamos mudando de rumo”, afirmou Jim Farley, CEO da Ford, ao Wall Street Journal. A montadora agora afirma que produzirá uma picape elétrica de baixo custo até 2027.
Com o menor impacto, ainda que representativo, do ponto de vista financeiro, a GM tenta, de alguma forma, prosseguir com pelo menos parte da estratégia de vendas de veículos elétricos, ainda que em menor escala do que projetado antes pela companhia. Ainda está nos planos a fabricação de alguns modelos.
A retração das montadoras e as enormes baixas contábeis ocorreram justamente após os legisladores republicanos abolirem o crédito fiscal federal para veículos elétricos no ano passado, além de eliminarem as exigências federais de eficiência de combustível. Mesmo com o apoio federal, a demanda por veículos elétricos ficou abaixo das expectativas.
Com isso, o impacto alcança uma parcela maior da cadeia automotiva nos Estados Unidos. As fabricantes de baterias anunciaram que passarão a reduzir suas operações. Depois de investir centenas de bilhões de dólares na indústria americana, as empresas estão cancelando projetos e redirecionando suas fábricas para a produção de veículos a gasolina mais tradicionais.
O efeito prático de todos estes cancelamentos é que, segundo a consultoria Atlas Public Policy, que monitora investimentos em economia limpa, mais de US$ 20 bilhões em investimentos que haviam sido anunciados em instalações de carros elétricos e baterias foram abortados.
Em outubro de 2025, a GM anunciou a demissão de mais de 3,3 mil trabalhadores nas fábricas de Michigan, Ohio e Tennessee, justamente pelo cancelamento do plano de construir uma unidade para produção de caminhões e motores elétricos. Em vez disso, a empresa vai focar na fabricação de caminhões a gasolina.
A Ford dissolveu, em dezembro do ano passado, uma joint-venture com o conglomerado sul-coreano SK On para fabricar baterias para veículos elétricos nos Estados Unidos. A JV havia sido estabelecida em setembro de 2021, como parte de um pacote de investimentos de US$ 11,4 bilhões que seria feito pelas duas empresas.
No mesmo mês, a montadora também rescindiu um contrato de fornecimento de baterias, no valor de US$ 6,5 bilhões, com a LG Energy Solutions. A Stellantis está se desfazendo de sua participação em uma empresa de fabricação de baterias.
Quando a Stellantis registrou a maior baixa contábil já assumida por uma montadora relacionada a apostas em veículos elétricos, no início de fevereiro, o CEO Antonio Filosa afirmou que o ritmo da transição energética havia sido superestimado e “nos distanciou das necessidades, recursos e desejos reais de muitos compradores de carros”.
Fora dos Estados Unidos, os mercados de veículos elétricos ainda estão em crescimento. Recentemente, a chinesa BYD ultrapassou a Tesla e se tornou líder global em vendas de veículos elétricos, mesmo com a imposição de tarifas sobre estes modelos asiáticos em alguns países.
A companhia entregou mais de um milhão de veículos fora da China em 2025, o dobro do volume registrado em 2024. Mas, no mercado interno, o crescimento desacelerou, por causa do aumento da concorrência e da redução de subsídios do governo para veículos populares.