A “ressaca” provocada pela queda no consumo de cerveja no balanço da Heineken, com o Brasil sendo um dos mercados em que a demanda mais desacelerou, levou a cervejaria holandesa a anunciar uma profunda reestruturação de suas atividades, que resultará na demissão de 6 mil funcionários pelo mundo.
O corte, equivalente a 7% de seu quadro de funcionários, faz parte de um amplo plano de ajuste anunciado na quarta-feira, 11 de fevereiro. Outras medidas incluem o fechamento de fábricas, a consolidação das operações em mercados menores e a centralização de atividades de back office.
“[A reestruturação] realmente alcança todos os níveis da organização”, afirmou Harold van den Broek, CFO da Heineken, na teleconferência dos resultados de 2025, segundo o jornal Financial Times.
A situação levou a Heineken a apresentar um guidance para 2026 mais modesto. A empresa agora espera um crescimento do lucro de 2% a 6% em 2026, abaixo da faixa de 4% a 8% prevista para o ano passado.
Para o analista Ed Mundy, da Jefferies, a projeção poderia ser considerada “ligeiramente decepcionante”, mas, diante da transição de liderança, com a saída do CEO Dolf van den Brink, “não havia incentivo para estabelecer uma meta muito ambiciosa”.
A reestruturação apresentada pela Heineken significa alterar significativamente a estrutura atual, composta por operações relativamente autônomas pelo mundo. É uma mudança que visa se adaptar ao novo momento do mercado, em que as pessoas consomem cada vez menos bebidas alcoólicas.
A queda na demanda ficou evidente nos resultados de 2025. A Heineken reportou uma redução de 1,2% no volume de cerveja vendida em relação a 2024, ainda que a receita líquida tenha aumentado 1,6%, para € 28,9 bilhões.
As vendas foram afetadas negativamente pela queda na Europa e nas Américas, onde o volume de cerveja vendido caiu 3,4% e 2,8%, respectivamente.
O Brasil foi um dos destaques negativos do balanço da Heineken. Segundo a companhia, o volume de cerveja diminuiu “um dígito médio” e a receita recuou “um dígito baixo”, refletindo um mercado fraco e uma redução pontual de estoque nos revendedores para reequilibrar o portfólio e a composição de clientes no início do ano.
“O dinamismo da categoria foi impactado por fatores predominantemente cíclicos no Brasil, onde a demanda do consumidor enfraqueceu com a queda da renda disponível real e a retirada de subsídios governamentais para famílias de baixa renda”, diz trecho do balanço.
A Heineken vem sofrendo com a estagnação do mercado premium de cerveja no Brasil. Levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) mostra que, nos primeiros nove meses de 2025, o mercado cervejeiro encolheu cerca de 6% no país.
Isso significa um volume de 14,7 bilhões de litros de cerveja projetados para 2025. Essa quantidade representa uma receita de R$ 205 bilhões. O setor premium, onde atua a marca principal da companhia, representa 14% do setor.
A situação levou os analistas do Citi a questionarem, no começo do ano, se a Heineken não poderia rever seus investimentos no Brasil. No fim de 2025, uma nova fábrica na cidade mineira de Passos deve garantir um acréscimo de até 500 milhões de litros da bebida por ano, com possibilidade de expansão.
Somente a construção da fábrica em Minas Gerais representou um pacote de investimentos de cerca de R$ 2,5 bilhões, em dois anos e meio de obras, no modelo greenfield. O valor se insere em um pacote de R$ 6 bilhões, desde 2019, aportados em ações de expansão e modernização.
Diante do momento ruim do mercado nacional e da reestruturação anunciada, a nova gestão global pode reduzir o ritmo de novos investimentos.