A Mak Capital decidiu subir o tom em sua ofensiva sobre a Oncoclínicas. Em uma nova carta enviada à gestão e ao conselho de administração da companhia, o hedge fund descreve uma situação “crítica” e condiciona qualquer solução financeira a mudanças profundas na governança corporativa.
Fontes próximas à gestora americana disseram ao NeoFeed que o documento marca uma escalada em relação às comunicações anteriores. Mais do que reiterar as preocupações com o futuro da Oncoclínicas, a Mak, agora, combina a pressão financeira, institucional e jurídica. E deixa claro que vê risco iminente de liquidez - e de falência - caso a empresa não mude de rumo.
Na primeira carta enviada ao maior grupo especializado em tratamento de câncer na América Latina, em 24 de março, a Mak havia oferecido até R$ 500 milhões em capital, além do pedido de destituição do conselho e da convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE) - uma requisição obrigatória e não cumprida pela companhia, que desobedece uma norma da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para quem detém mais de 5% do capital de uma empresa.
A Mak, que possui 6,3% do capital, afirma que a situação da Oncoclínicas exige “ação imediata e organizada”. Entre os pontos destacados, a gestora cita a não obtenção de waivers relacionados às dívidas - a companhia tentava estender o prazo de cinco emissões de debêntures para evitar o vencimento antecipado de suas dívidas já em abril de 2026.
Além disso, há o atraso na divulgação das demonstrações financeiras. Na sexta-feira, 27 de março, a companhia informou ao mercado o adiamento da divulgação de seus resultados de 2025, que estava inicialmente prevista para segunda-feira, 30 de março, havia sido postergada para 9 de abril.
Em geral, esse tipo de movimento é interpretado como um sinal de dificuldades internas, especialmente quando ocorre em meio a questionamentos sobre covenants e estrutura de capital.
Segundo a carta, esse conjunto de fatores ocorre em um contexto que pode envolver quebra de covenants, defaults e até cross-defaults. Para pessoas próximas à gestora, a Oncoclínicas está em um momento de crescentes sinais de disrupção operacional.
A crise de caixa já estaria afetando a operação, com remarcação de tratamentos e renegociações com fornecedores, evidenciando que o problema financeiro pode estar transbordando para a ponta assistencial, mostrou a Bloomberg Línea.
Na prática, o diagnóstico apresentado pela Mak é de que a companhia atravessa um momento de forte estresse de liquidez, com risco de agravamento no curto prazo.
Dinheiro na mesa
Em paralelo ao tom mais duro e direto, o hedge fund se posiciona novamente como parte da solução e teria apresentado duas propostas ao board da Oncoclínicas.
A primeira seria uma estrutura de curto prazo, com potencial de levantar entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões, via monetização de recebíveis.
A segunda, que reforça o valor apresentado na primeira carta à empresa, uma reestruturação mais abrangente, de até R$ 500 milhões.
As propostas buscariam evitar alternativas consideradas mais destrutivas de valor. Para a fonte que conversou com o NeoFeed, o M&A com Porto e Fleury é uma operação que implica em transferência de ativos relevantes em um cenário de estresse.
Mas a Mak reforça que é preciso mexer na governança corporativa e com uma gestão “alinhada” e que transmita confiança ao mercado e aos minoritários.
A reconfiguração do conselho de administração é ponto-chave e inegociável, para a Mak, que teria pedido a substituição de dois nomes do board e indicado quatro nomes.
Os nomes são Mateus Bandeira, ex-CEO da Oi; Fabio Jung, do Boston Consulting Group (BCG); Ademar Vidal Neto; e Marcos Grodetzky, ex-CFO da Cielo, que faz parte do atual conselho, mas é visto alinhado à agenda da Mak.
A inclusão de perfis com experiência em turnaround reforça a leitura de que a Mak enxerga a Oncoclínicas em um cenário que vai além de um ajuste pontual. Para o hedge fund, o conselho demora a tomar decisões e não enxerga a urgência necessária de se fazer uma ampla reestruturação.
Questionamentos à transparência
Em paralelo aos problemas financeiros e de tomada de decisão, a Mak cobra, também, transparência nas informações prestadas pela Oncoclínicas.
O hedge fund continua incomodado com o fato de os administradores não terem registrado formalmente a oposição às decisões que possam contrariar o interesse da companhia - no caso as posições contrárias à aprovação do acordo de M&A.
Entre os pontos dessas falhas na divulgação de informações ao mercado estão a não publicação de dissidências de conselheiros independentes, a ausência de divulgação das propostas de financiamento e omissões em fatos relevantes recentes.
Nessa escalada de pressão sobre a Oncoclínicas, a Mak pede o acesso às informações completas e que qualquer decisão relevante precisa acontecer com a sua participação, desde reestruturação, passando pela transação de ativos e eventual processo de recuperação extrajudicial.
Após a alta de 57,05% no pregão de 23 de março, a ação ONCO3 recuou 38,4%, fechando em R$ 1,51 na terça-feira, 31 de março. O valor de mercado da companhia é de R$ 1,74 bilhão.