A Hypera Pharma anunciou um aumento de capital, por meio de subscrição privada, de um volume que pode alcançar R$ 1,5 bilhão. O movimento, no entanto, não foi bem assimilado pelo mercado. Nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, as ações da farmacêutica caíam. Por volta de 16h, os papeis da companhia na B3 acumulavam desvalorização de 10%, sendo negociado a R$ 23,09.
No fato relevante, a Hypera informa a subscrição de até 70.588.236 de ações ordinárias, a um preço de emissão de R$ 21,25. O valor representa um desconto de 17% sobre o fechamento do pregão de terça-feira, 3 de fevereiro, e um abatimento de 11% em relação ao resultado das ações nos últimos 30 pregões.
“O aumento de capital tem o objetivo de fortalecer a estrutura de capital da companhia, por meio da redução do seu endividamento líquido, contribuindo para a melhora de sua eficiência operacional e financeira”, diz a empresa, no comunicado.
O bloco de controle da companhia, hoje com 53% de participação e formada pelo fundador João Alves de Queiroz Filho, o Júnior (27,3%), a holding mexicana Maiorem (14,7%), a Votorantim (11%) e outros acionistas menores, comprometeu-se a exercer integralmente seu direito de preferência pela compra das ações.
A Votorantim assumiu o compromisso de subscrever ações no valor de até R$ 1 bilhão, o que representaria dois terços do volume total previsto. Na prática, a iniciativa da Hypera pode implicar em uma diluição de cerca de 10% no número de ações.
“Com esse movimento, há uma tendência de queda mesmo das ações. Reduzindo pouco a dívida e diluindo os acionistas, a avaliação é que as iniciativas da empresa até aqui não vinham dando resultado, sem conseguir fazer uma desalavancagem sozinha”, diz uma fonte do setor farmacêutico, consultada pelo NeoFeed.
Para os analistas do BTG Pactual, o movimento não deve gerar o resultado esperado e ainda vai causar uma diluição relevante para os acionistas minoritários da farmacêutica.
“Embora a administração apresente o aumento de capital como uma iniciativa para fortalecer o balanço e acelerar a desalavancagem, entendemos o anúncio como decepcionante. Em nossa visão, a transação sugere que a empresa está enfrentando dificuldades para se desalavancar de forma orgânica”, diz o relatório.
Segundo os analistas Samuel Alves e Maria Resende, um aumento de capital no teto previsto, de R$ 1,5 bilhão, vai implicar em uma desalavancagem de apenas 0,5 vez, contra uma atual relação dívida líquida, que está em R$ 7,26 bilhões, versus Ebitda de 2,4 vezes.
“Reiteramos nossa recomendação neutra, uma vez que a companhia continua enfrentando desafios em seu processo de desalavancagem e apresenta um yield de FCF (rendimento de fluxo de caixa livre) relativamente modesto de 6% em 2026”, explica o BTG.
Para o Itaú, é justamente a destinação dos recursos, a partir deste movimento de aumento de capital, a maior preocupação do mercado financeiro sobre a saúde financeira da empresa.
“Embora acreditemos que o mercado veria com bons olhos uma maior desalavancagem, criando espaço para a otimização da estrutura de capital e o refinanciamento de dívidas mais caras, muitos analistas do lado comprador com quem conversamos interpretam o momento de forma diferente”, diz o relatório, assinado por Vinicius Figueiredo, Lucca Generali Marquezini e Felipe Amancio.
“Na visão deles, o anúncio está alinhado às discussões em curso no mercado sobre a Hypera como potencial compradora na aquisição de uma grande empresa no segmento de genéricos. Continuaremos a monitorar quaisquer desenvolvimentos nesse sentido”, completa o banco.
Impacto no processo de compra da Medley
Ainda que a farmacêutica tenha dito no comunicado que a ação “ampliará a capacidade de investimento em oportunidades de crescimento orgânico e inorgânico”, especialistas entendem que o movimento não é suficiente para colocar a Hypera como uma das favoritas no processo de compra da Medley, unidade de genéricos da francesa Sanofi.
Como o NeoFeed revelou com exclusividade na terça-feira, 3 de fevereiro, as finalistas da disputa – a Hypera é uma delas, ao lado de Aché, Biolab, EMS, Sun Pharma e um fundo da Vinci Compass –, farão as propostas finais no dia 13 de março. E o valor não deverá ser abaixo de US$ 500 milhões.
O mercado enxerga a EMS, da família Sanchez, como a favorita para ser a vencedora. A Aché também é vista como uma empresa com um bom potencial para comprar a Medley, com a Sun Pharma correndo por fora. O grau de endividamento da Hypera sempre foi visto, neste processo, como um complicador para uma possível efetivação da compra.
“O entendimento é que o montante captado agora seria insuficiente para garantir uma aquisição deste porte, e que seria necessário alavancar ainda mais a empresa para que a operação pudesse ficar de pé”, afirma um executivo do setor farmacêutico ao NeoFeed.
No acumulado de 12 meses, as ações da farmacêutica registram alta de 21,6%. A Hypera está avaliada em R$ 14,6 bilhões.
Procurada pelo NeoFeed, a Hypera não comentou sobre o aumento de capital.