No plano estratégico de fazer com que a divisão de higiene, beleza e cuidados pessoais seja mais representativa na receita do que a área de medicamentos, a farmacêutica Cimed anunciou, na segunda-feira, 2 de fevereiro, a aquisição da fabricante de higiene bucal IceFresh, empresa que fatura R$ 200 milhões ao ano.

A perspectiva é que, com a chegada da IceFresh, a companhia consiga capturar 10% de participação no mercado brasileiro de higiene bucal, hoje de cerca de R$ 20 bilhões. Para 2026, a Cimed deve faturar R$ 5 bilhões, e dobrar de tamanho até 2030. O valor da compra não foi revelado.

Mas a aquisição trouxe, imediatamente, uma decisão sobre o fornecimento de produtos. Hoje, a IceFresh detém contratos de produtos completos para o setor público - prefeituras e secretarias estaduais de saúde.

Em março de 2017, a IceFresh assinou um contrato anual com o Ministério da Saúde, para fornecer 2,6 milhões de pastas de dente, no valor de R$ 2,4 milhões. Desde então, não venceu mais licitações do governo federal.

A Cimed cumprirá os contratos com os órgãos públicos assinados pela IceFresh, mas não pensa em renová-los - hoje esse pilar no setor público representa metade da receita da companhia adquirida pela Cimed

“A empresa hoje está muito presente no cash and carry (atacadistas do varejo alimentar) e tem venda grande para órgãos públicos. Mas não vamos renovar esses contratos. Há um espaço muito grande para entrar no varejo. Nosso foco é segmentos privados. Vou deixar esse espaço para meus concorrentes”, diz João Adibe Marques , CEO da Cimed, em entrevista ao NeoFeed .

O objetivo da companhia é fazer com que o segmento de consumo chegue, no fim de 2026, a uma fatia de 55% do faturamento da farmacêutica, contra 45% do segmento original, o de remédios genéricos.

"A Cimed sai do DNA de uma indústria farmacêutica para se tornar uma empresa também de consumo. Nos últimos quatro anos, aceleramos este processo", diz Marques.

“Em 2022, 80% da receita era do setor farmacêutico. Hoje está perto de ser metade vinda do portfólio de higiene e cuidados pessoais”, complementa.

Desde o fim do ano passado, a Cimed já vinha terceirizando a produção de sua outra linha de higiene bucal, da marca Super, no parque fabril da IceFresh. Agora, passa a produzir tudo na fábrica da empresa, que fica em Bauru, no interior de São Paulo.

“Comecei justamente a procurar uma empresa que nos permite internalizar a produção do setor de higiene. E aí chegamos à IceFresh, uma fábrica com a quinta maior marca do Brasil e que tem toda a produção verticalizada. Se encaixou naquilo que a gente precisava”, explica Adibe.

A racionalidade é manter duas marcas nas prateleiras do varejo farmacêutico, atuando em linhas – e preços – diferentes. A nova empresa do grupo seguirá as linhas tradicionais e de valor mais baixo.

Os produtos da Super serão mais inovadores, com sabores inéditos, como melão e frutas vermelhas. Em maio, a empresa lança linhas específicas para uso somente durante o dia e outra para a noite.

A capacidade produtiva atual da fábrica de Bauru é de cinco milhões de unidades por mês, com possibilidade de triplicar esse volume, caso seja necessário criar faturamento na indústria. Com a operação, o presidente da IceFresh, José Eduardo Tobias, seguirá à frente de toda a parte produtiva do segmento de higiene bucal da companhia.

A meta é alcançar de 100 a 150 milhões de itens produzidos ao ano, incluindo pasta, escova, fio dental e enxaguante bucal. Esse volume, no entanto, cerca de 80% é de produção de creme dental.

Para atender parte desta demanda crescente do setor de consumo, a Cimed inaugura, em março, um centro de distribuição de 45 mil metros quadrados (m²) em Pouso Alegre (MG), que gerou investimentos de R$ 100 milhões.

“A IceFresh é totalmente verticalizada. São poucas as indústrias hoje no Brasil que conseguem montar todo o produto. Eles fazem a bisnaga, a tampa, o frasco, o copinho, a caixinha do fio dental. E o que a empresa não tinha, que era a parte de embalagem, a Cimed tem”, afirma ele.

Segundo Adibe, a entrada no segmento de higiene bucal infantil, em 2025, serviu como uma espécie de “test-drive” para sentir a temperatura do setor e entender os hábitos do consumidor. Hoje, a linha Carmed Oral Care tem 60% de participação de mercado.

O plano do presidente é que a IceFresh mais que dobre o faturamento, chegando a R$ 500 milhões, já que ela produzirá todos os produtos da linha de higiene bucal das duas marcas.

A ideia, agora, é avançar com a fabricação de shampoo e condicionador, ainda no primeiro semestre, e produzir futuramente desodorante aerossol, sabonete, entre outros produtos. E, um exemplo de caso de higiene bucal, a entrada no segmento pode ser feita com possíveis fornecedores.

“A Cimed sempre foi uma empresa onde as pessoas lembravam na hora que estava doente. Agora, nós estamos no dia a dia das pessoas. A área de consumo é muito diferente do segmento de medicamento, que tem um giro muito maior. Todo mundo precisa comprar macarrão de dente o tempo todo”, afirma Adibe.