Não tem sido nada fácil o percurso da Nike desde o fim da pandemia. De lá para cá, a empresa viu suas ações acumularem tombos em série na Bolsa de Nova York diante de obstáculos como a desaceleração nas vendas e a perda de fôlego em uma das frentes que fizeram a fama da marca, a inovação.

As constantes trocas no alto escalão dessa área são um dos sinais dessa crise. E na sexta-feira, 10 de abril, uma nova passagem de bastão só reforçou que a companhia americana não anda, de fato, bem das pernas.

Em um memorando interno, obtido pelo The Wall Street Journal, a Nike informou que Tony Bignell não é mais o chief innovation officer da empresa. Segundo a companhia, o executivo está deixando o cargo para seguir seus próprios interesses criativos e filantrópicos.

Ele será substituído por Andy Caine, vice-presidente e diretor de roupas esportivas da companhia. O executivo se reportará a Phil McCartney, que foi o nome escolhido para assumir o cargo de chief innovation, design and product officer, criado no ano passado.

Foi também em 2025, no mês de junho, que Bignell foi nomeado como chief innovation officer da Nike. A escolha foi feita pelo CEO Elliott Hill, um veterano da Nike que havia se aposentado em 2020 e que retornou ao grupo em outubro de 2024 com a missão de reestruturar a operação.

Agora, com a saída de Bignell, apenas dez meses depois de assumir a posição, Caine será o terceiro executivo a exercer essa função em menos de três anos. Antes da dupla, John Hoke III ocupou o cargo por pouco mais de um ano.

“Sua influência está presente em ideias e produtos que impulsionaram o esporte e ampliaram o que os atletas podem esperar da Nike”, disse McCartney, sobre Bignell, no memorando enviado ao time da companhia.

Assim como Hill, Bignell tinha uma extensa ficha de serviços prestados para a Nike. Ele estava na companhia há 30 anos e liderou o desenvolvimento de alguns dos tênis de corrida mais inovadores da marca.

Um dos exemplos mais recentes, já como chief innovation officer, foi o Vomero Premium. O tênis foi lançado em outubro de 2025, após um esforço de oito meses – a metade do tempo usualmente investido num projeto desse porte.

Apesar desse ritmo acima da média, o fato é que a Nike segue com o desafio de acelerar os ciclos de desenvolvimento de produtos. Imprimir mais velocidade à inovação tem sido justamente um dos focos de Hill na tentativa de recolocar as vendas da companhia nos trilhos.

Mesmo com a renovação do seu portfólio, a empresa vem perdendo terreno para marcas rivais emergentes como On e Hoka nos últimos anos, à medida que seguia com uma dependência extrema da franquia Air Jordan e de outros clássicos.

Essa desaceleração tem se mostrado mais acentuada em países como a China, o segundo maior mercado da Nike, onde as vendas da marca já acumulam quedas há sete trimestres consecutivos e os concorrentes locais costumam lançar produtos na metade do tempo dispendido pela companhia.

Na semana passada, ao divulgar o balanço do seu terceiro trimestre fiscal, encerrado em 28 de fevereiro, a Nike trouxe o retrato mais recente dessa corrida. Apesar de um lucro por ação acima do esperado, o lucro líquido teve queda de 35% sobre igual período um ano antes, para US$ 520 milhões.

Já a receita do trimestre veio no mesmo patamar do exercício fiscal anterior, em US$ 11,2 bilhões. O que chamou a atenção do mercado, porém, foi a previsão de uma receita menor para o ano, além do alerta de que as vendas na China poderiam cair até 20% no quarto trimestre fiscal.

Como resultado, as ações da Nike despencaram mais de 15% após a divulgação do balanço, chegando ao seu menor nível em mais de uma década. Hoje, os papéis fecharam o pregão em Nova York com queda de 3,14%, avaliando a companhia em US$ 63,1 bilhões. No ano, a desvalorização acumulada é de 33%.