Em meio ao processo de venda da Medley, unidade brasileira de medicamentos genéricos, a farmacêutica francesa Sanofi projeta um ganho de capital de cerca de € 500 milhões em 2026 em iniciativas de desinvestimento no mundo.

Neste pacote, está justamente a venda da companhia brasileira, adquirida em 2009 da família Negrão, e que custou R$ 1,5 bilhão à empresa francesa. Dezessete anos depois, a Sanofi entendeu que não faz mais sentido seguir com a operação, pois o foco passou a ser em medicamentos inovadores, que são mais rentáveis, e na produção de vacinas.

A iniciativa integra uma ampla ação da empresa de venda de suas unidades de genéricos no mundo. Em 2018, por exemplo, a Sanofi concluiu a venda da Zentiva, divisão do segmento na Europa, para a Advent International, por € 1,9 bilhão.

Em 2023, a Eurofarma pagou à Sanofi € 299 milhões para ficar com a Genfar, braço de genéricos da francesa na Colômbia, Equador e Peru. A marca passou a ser usada pela companhia brasileira na América Latina, com exceção do mercado brasileiro.

O volume previsto para entrada no caixa, a partir da venda de ativos da companhia neste ano, integra o balanço financeiro de 2025 divulgado na quinta-feira, 29 de janeiro, pela Sanofi. Em 2025, o ganho de capital com desinvestimentos alcançou € 419 milhões, o que significa que a empresa pretende lucrar 19% a mais com as vendas de ativos em 2026.

No balanço de 2025, a Sanofi reportou receita líquida de € 43,6 bilhões, alta de 6,2% sobre o ano anterior. O lucro operacional foi de € 12,14 bilhões, crescimento de 7,1%. A empresa informou, também, um plano de recompra de ações, com aportes de € 1 bilhão.

No acumulado de 12 meses, as ações da Sanofi na Bolsa de Paris acumulam desvalorização de 24,3%. A farmacêutica francesa está avaliada em € 94,5 bilhões.

Agenda de vendas

Ainda que gere caixa, as vendas das operações refletem na receita da companhia. Segundo a farmacêutica francesa, o impacto na receita de medicamentos que integram as unidades vendidas alcançou € 200 milhões em 2025, dos quais 30% somente no quarto trimestre de 2025.

No volume de vendas, os desinvestimentos de medicamentos e a racionalização de portfólio tiveram um impacto negativo, segundo a empresa, de 0,7 ponto percentual no crescimento das vendas entre outubro e dezembro de 2025. No ano todo, foi de 0,5 ponto percentual.

No Brasil, a receita da Medley em 2025 chegou a R$ 1,4 bilhão, com um Ebitda de R$ 200 milhões. E é esse faturamento que a francesa abrirá mão a partir deste ano, quando concluir a venda da farmacêutica local, uma das principais do setor de genéricos no mercado brasileiro.

Como o NeoFeed revelou com exclusividade em dezembro, a EMS e a Aché avançaram à segunda fase da seletiva pela compra da Medley como favoritas, com ofertas que chegaram a cerca de US$ 450 milhões, as maiores desde o início do deal.

Além de EMS e Aché, estão na fase final a Hypera, a Biolab, a indiana Sun Pharma, que opera com a marca de genéricos Ranbaxy, e um fundo da Vinci Compass.

Na primeira fase, oito farmacêuticas participaram da disputa, mas algumas demais não tiveram suas propostas aprovadas, como a Cimed e a União Química.

Enquanto os dirigentes das empresas interessadas pela Medley estão conversando com os executivos da Sanofi, as candidatas iniciaram processo de due diligence, para ter acesso a todos os números da companhia, incluindo dados financeiros e operacionais. Esta fase teve início no dia 12 de fevereiro.

Nesta nova etapa, os ainda donos da empresa brasileira fazem uma nova rodada de negociações, dando oportunidade para que as candidatas possam melhorar suas propostas, em uma espécie de leilão, sem, no entanto, que uma saiba, pelo menos oficialmente, da proposta da outra.

Caso a EMS vença, a tendência é de manutenção das duas marcas no mercado farmacêutico, já que há baixa sobreposição de medicamentos. Outro ponto a favor é que a fábrica da Medley, em Campinas (SP), fica a apenas 20 quilômetros do principal parque fabril da EMS, em Hortolândia (SP).

Em caso de vitória da Aché, a tendência é que também haja a manutenção das duas operações nas prateleiras das farmácias. Nos nove primeiros meses de 2025, a farmacêutica registrou receita de R$ 4,2 bilhões, alta de 9,5% sobre o mesmo período do ano anterior.