O quadro de acionistas da Braskem vem passando por grandes mudanças. Na noite de quarta-feira, 21 de janeiro, a companhia petroquímica informou que Victor Adler, um dos principais acionistas individuais do Brasil, conhecido por suas posições em Eternit, Unipar e Oi, adquiriu pouco mais de 5% dos papéis preferenciais classe B da companhia.
Antes do início de 2026, a novela sobre quem iria controlar a Braskem deu sinal de que, enfim, chegava ao fim com a notícia de que a IG4 Capital deve assumir a posição de 50,1% do capital votante da petroquímica até então detida pela Novonor após os principais bancos credores da ex-Odebrecht – Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES – venderem cerca de R$ 20 bilhões em dívidas garantidas por ações da petroquímica para um fundo ligado à gestora.
A transferência, que ainda precisa receber autorização das autoridades regulatórias, encerra uma discussão que se arrasta há quase uma década. Mas ela nem de longe resolve os problemas da Braskem.
Analistas e gestores ouvidos pelo NeoFeed destacam que a gestora de Paulo Mattos vai encontrar uma companhia altamente alavancada em um momento em que a indústria petroquímica passa por um dos mais extensos ciclos de baixa já vistos, tendo perdido quase R$ 39,1 bilhões em valor de mercado nos últimos cinco anos, segundo levantamento feito pela consultoria Elos Ayta.
Combinados com os problemas enfrentados no México e o passivo ambiental de Alagoas, o resultado é que a retomada da Braskem dependerá de uma série de medidas, algumas fora de seu controle, com a retomada demorando para acontecer.
“A Braskem tem sofrido em diversas frentes por muito tempo, então não há um remédio capaz de curar os problemas que ela tem no curto e médio prazo”, diz João Daronco, analista da Suno Research.
Endividamento pesado
A dura situação financeira da Braskem vem se arrastando ano após ano. Já é conhecido que a companhia registra uma alavancagem extremamente elevada – a relação entre a dívida líquida e o Ebitda recorrente, em dólar, fechou o terceiro trimestre de 2025 em 14,7 vezes, acima dos 10,6 vezes apurados no trimestre anterior.
Mas a delicadeza da estrutura de capital ficou evidente no fim do ano passado, quando a Fitch rebaixou o rating de longo prazo em moedas local e estrangeira de “CCC+” para “CC”. A nota indica um “nível muito elevado de risco de crédito”, com algum tipo de calote “se mostrando provável”.
A agência de classificação de riscos diz que tomou a decisão por conta da incerteza em relação “à propensão de a Braskem honrar suas obrigações de dívida próximas ao vencimento”, e a possibilidade de uma reestruturação da dívida a curto prazo. Ela afirma que a companhia enfrenta obrigações de cupons concentradas de aproximadamente US$ 130 milhões em janeiro de 2026.
Embora tenha reportado US$ 1,3 bilhão em caixa no terceiro trimestre e tenha utilizado integralmente sua linha de crédito standby, no montante de US$ 1 bilhão, a Fitch afirma que a dependência em relação à liquidez do balanço e às linhas de crédito bancárias como evidenciam “a redução da flexibilidade financeira em meio a elevados riscos de eventos e à incerteza referente à recuperação do fluxo de caixa operacional”.
Alguns observadores destacam que a Braskem aproveitou o momento de alta dos preços no setor petroquímico, entre 2020 e 2021, para pagar mais dividendos e gastar mais, quando a alavancagem não era um problema – a companhia encerrou 2021 com uma relação dívida líquida e Ebitda de 1 vez.
“Foram tomadas uma série de decisões que não levaram em conta os ciclos do setor, algo comum em commodities, que tem momentos de baixa e alta”, diz um gestor que pediu para não ser identificado. “Na alta, as companhias precisam se preparar para períodos turbulentos, e a Braskem passou mais alavancada do que deveria.”
A alavancagem ganhou um peso significativo em função do momento atual do setor petroquímico. Segundo Gabriel Barra, analista do Citi, houve um forte aumento da capacidade instalada, principalmente após a pandemia, um movimento puxado pela China, que gerou pressão sobre os spreads dos produtos.
Uma análise da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), entre 2019 e 2024, aponta que a China adicionou mais capacidade de produção de etileno e propileno – os dois principais componentes petroquímicos – do que as existentes na Europa, Japão e Coreia do Sul combinados.
O resultado foi um impacto nas referências de preços no mercado internacional. No balanço do terceiro trimestre, a Braskem informou que, em relação aos três meses anteriores, os spreads no mercado internacional foram menores em 4%, 14% e 13% em polietileno (PE), polipropileno (PP) e policloreto de vinila (PVC), respectivamente.
“Quando a gente olha para o nível de alavancagem da Braskem hoje, e coloca essa conjuntura de pano de fundo, pressionando o Ebitda, a companhia fica bastante alavancada”, diz Barra.
Dura reestruturação
Para um gestor que já esteve posicionado no papel, mas que atualmente está em compasso de espera, dificilmente a Braskem vai conseguir se organizar dependendo apenas dos resultados de suas operações.
“Não é razoável imaginar que a IG4 vai conseguir elevar tanto o Ebitda da Braskem, não espero nenhuma mudança transformacional na operação”, diz ele, que pediu para não ser identificado.
“A IG4 vai ter que reorganizar a parte de dívida, que passa por converter dívida em equity e/ou executar um aumento de capital que resultará numa diluição relevante dos atuais acionistas minoritários”, completa.
E isso não será fácil, exigindo um acerto delicado entre diversos stakeholders, que incluem a Petrobras, que conta com uma participação de 47% no capital votante e que deve ter mais participação no dia a dia da empresa do que tinha à época da Novonor, além dos diversos credores.
Numa “conta de padaria”, o gestor pegou a projeção do mercado para o Ebitda da Braskem em 2027, de R$ 9,2 bilhões, e o múltiplo histórico de 6 vezes do EV/Ebitda. O EV (dívida mais equity) da empresa deveria ser próximo a R$ 55 bilhões.
Mesmo considerando uma conversão de R$ 20 bilhões da dívida em equity para atingir uma estrutura 33,3% equity e 66,7% dívida, a companhia ainda estará numa situação delicada.
“No cenário consolidado, o equity atual deveria valer R$ 355 milhões, versus os R$ 6,5 bilhões de agora. Isso significa que a nova estrutura de capital ainda registrará uma alavancagem financeira de 4 vezes”, diz ele. “E todo o processo de reestruturação tem que ser combinado ‘com os russos’, os debenturistas, que terão de tomar um haircut razoável.”
A esperança de acelerar a melhora da estrutura de capital da Braskem seria uma retomada do mercado de petroquímicos, algo que não deve ocorrer tão cedo. “Quando se olha para 2026, 2027 e 2028, não vemos sinais de melhora dos spreads”, diz Barra. “Talvez a retomada das margens venha apenas no fim da década.”
Enquanto isso, a expectativa é de que a IG4 vá administrando a situação, apoiada nos trabalhos de turnaround que já promoveu, como aconteceu na Iguá Saneamento, da qual saiu em 2024. Junto com a reestruturação financeira, a gestora deve ir tentando capturar eficiências na operação. A atual administração já vem em processo de corte de custos de produção.
Para Daronco, a Braskem precisa de um controlador mais presente diante dos desafios, que incluem ainda a reestruturação de mais de US$ 2 bilhões em dívida da subsidiária mexicana Braskem Idesa, com um impasse entre empresas e credores, e um encaminhamento definitivo para o caso de Alagoas, para o qual a companhia provisionou R$ 3,8 bilhões.
“Não tendo um controlador próximo, a agilidade para tomada de decisão é menor, e muitas vezes decisões não são aquelas que deveriam ser tomadas, na velocidade que deveriam ser tomadas”, diz. “Vimos a Braskem falando de reavaliação de estrutura de capital. Se o controlador estivesse mais presente, esses movimentos poderiam ter sido feitos antes.”
Procurada pelo NeoFeed, a Braskem informou que não comentaria. A IG4 declarou que não faria comentários por estar em período de silêncio.