A identidade do criador do Bitcoin, conhecido pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto, é um dos maiores mistérios da era digital. Por trás do conceito de criptomoedas — hoje avaliadas em US$ 2,5 trilhões —, ele deu origem a uma tecnologia que redesenhou as bases do sistema financeiro. Sua criação, o Bitcoin, responde por cerca de 60% desse mercado.
Segundo estimativas da comunidade, Satoshi teria acumulado cerca de 1,1 milhão de bitcoins nos primeiros anos da rede. A fortuna, aos preços recentes, chegaria a US$ 118 bilhões, colocando o criador da moeda entre as maiores riquezas do mundo.
Desde a publicação do artigo “White Paper”, que deu origem ao Bitcoin, em 2008, foram inúmeros os palpites sobre a identidade de Satoshi Nakamoto. Agora, uma longa investigação do The New York Times reuniu pistas e evidências que apontam para o criptógrafo britânico Adam Back.
A investigação foi liderada pelos repórteres Dylan Freedman e John Carreyrou - este último já venceu o Prêmio Pulitzer pelo trabalho que revelou a fraude da empresa de diagnósticos Theranos.
Em busca de padrões de linguagem, referências técnicas e conexões históricas, os repórteres vasculharam, por quase um ano, milhares de registros antigos da internet, incluindo fóruns técnicos, arquivos da comunidade cypherpunk e e-mails atribuídos a Satoshi. O trabalho combinou análise textual detalhada com reconstrução de contexto, cruzando ideias discutidas nos anos 1990 com os fundamentos do Bitcoin.
A partir desse material, a investigação identificou uma série de paralelos entre os escritos de Satoshi e os do criptógrafo britânico Adam Back, desde expressões e conceitos técnicos até propostas de um sistema de dinheiro digital descentralizado formuladas anos antes do lançamento do Bitcoin.
Entre os nomes que surgiram ao longo dos anos, Adam Back reúne um histórico que o coloca no centro das discussões. Criptógrafo britânico e figura ativa da comunidade cypherpunk nos anos 1990, ele foi o criador do Hashcash, um sistema que utilizava provas computacionais para limitar o envio de spam e que mais tarde serviria de base para o mecanismo de mineração do Bitcoin.
A tese do NYT
Uma das pistas analisadas pela reportagem está no próprio código do Bitcoin. No primeiro bloco de transações da rede, Satoshi inseriu a frase: “The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks” — uma manchete do jornal britânico do The Times.
Para os autores, a escolha da referência reforça a hipótese de que o criador do Bitcoin tinha ligação com o Reino Unido. A própria formação de Adam Back reforça essa proximidade.
Em entrevista ao The New York Times, ele contou que seu doutorado teve como foco sistemas distribuídos — redes de computadores independentes, ou “nós”, que operam de forma coordenada, exatamente como a arquitetura do Bitcoin.
Além disso, seu projeto acadêmico foi desenvolvido em C++, a mesma linguagem usada por Satoshi na primeira versão do software da criptomoeda.
Parte da investigação mergulha na origem do movimento cypherpunk, uma comunidade descentralizada de criptógrafos e entusiastas da privacidade que, ainda nos anos 1990, discutia formas de criar dinheiro digital fora do alcance de governos.
Diferentemente das redes sociais atuais, essas interações aconteciam por meio de listas de e-mail, onde ideias consideradas subversivas circulavam livremente.
Foi nesse ambiente que Adam Back passou a ganhar relevância. Ele ingressou na lista em 1995, ainda durante o doutorado, e rapidamente se tornou um participante ativo, debatendo temas como criptografia, privacidade e sistemas monetários digitais.
Em uma de suas primeiras interações, resolveu um desafio criptográfico proposto por Hal Finney, um dos pioneiros do Bitcoin e primeiro destinatário de uma transação da moeda. O episódio marcou o início de uma relação entre dois nomes que, anos depois, estariam no centro da criação da criptomoeda.
A conexão entre esses personagens também aparece nos primeiros anos do Bitcoin. Em dezembro de 2010, Hal Finney publicou uma mensagem elogiando o código da rede em um fórum técnico. Duas horas depois, Satoshi respondeu: “Isso significa muito vindo de você, Hal”.
Outra frente da investigação se concentrou na forma de escrita. Os repórteres compararam detalhadamente os textos atribuídos a Satoshi com os de Adam Back e encontraram uma série de padrões incomuns em comum. Entre eles, o uso inconsistente de hífens, a alternância entre grafias britânicas e americanas e certos vícios de linguagem — como confundir “its” e “it’s” ou variar entre termos como “e-mail” e “email”.
Segundo especialistas em linguística forense ouvidos pela reportagem, esses traços funcionam como uma espécie de “impressão digital” do autor, ajudando a identificar sua origem e formação. No caso analisado, a repetição desses padrões em ambos os conjuntos de textos reforça a hipótese de que possam ter sido escritos pela mesma pessoa — ainda que a análise, isoladamente, não seja conclusiva.
Adam Back hoje
Apesar de todas as pistas, Back não teve participação visível nos primeiros momentos do Bitcoin. Só anos depois do lançamento da rede, e já após o desaparecimento de Satoshi, passou a se envolver mais diretamente com o ecossistema — tornando-se um dos principais nomes da comunidade e fundador da Blockstream, empresa focada no desenvolvimento da infraestrutura do Bitcoin.
Hoje, Adam Back é uma das figuras mais influentes do ecossistema do Bitcoin. Ele é CEO da Blockstream, empresa que desenvolve infraestrutura e soluções para a rede, incluindo tecnologias voltadas à escalabilidade e privacidade.
Ao longo da última década, Back ganhou protagonismo no debate técnico sobre os rumos do Bitcoin, participando ativamente de discussões sobre atualizações do protocolo e defendendo uma visão mais conservadora para a evolução da rede.
Apesar de frequentemente apontado como um dos principais candidatos a Satoshi, ele nega ser o criador do Bitcoin e afirma que as coincidências levantadas são naturais dentro de uma comunidade que compartilha referências e histórico técnico semelhantes.