A crise geopolítica global causada pela guerra no Irã e a volatilidade que costuma marcar o ano de eleição presidencial no Brasil já estão afetando, antes do previsto, um dos produtos mais procurados do mercado financeiro – as debêntures incentivadas, essenciais para estruturar financiamentos de grandes projetos de infraestrutura.

Segundo dados da Anbima, o mercado de debêntures incentivadas movimentou R$ 177,97 bilhões em 2025, o maior volume anual da série histórica, superando os R$ 135,11 bilhões de 2024.

Apesar do calendário extenso de leilões de infraestrutura para este ano, o volume de emissões de debêntures incentivadas em 2026 deve ser menor do que o registrado em 2025. É o que prevê a JGP Financial Advisory, área de investment banking da gestora, em estudo que o NeoFeed obteve em primeira mão.

De acordo com a JGP, já era prevista uma volatilidade maior do mercado de debêntures incentivadas no segundo semestre, por causa da eleição presidencial. A instabilidade no cenário internacional, incluindo os efeitos da guerra no Irã, porém, gerou incerteza na precificação desses papéis já no início do ano.

“Em ano eleitoral, as empresas que podem antecipam suas captações para o primeiro semestre ou adiam para o fim do ano, evitando o período de maior instabilidade, mas a crise no Irã afetou o mercado, provocando oscilações relevantes nos spreads dos papéis”, afirma Diego Maurell, sócio responsável pela vertical de Infraestrutura e Energia da JGP Financial Advisory. O spread é o “prêmio” que a empresa precisa pagar acima da taxa considerada livre de risco, normalmente os juros dos títulos públicos.

Os efeitos são visíveis. As emissões de debêntures  somaram cerca de R$ 14,8 bilhões nos dois primeiros meses de 2026, abaixo dos R$ 25,4 bilhões registrados no mesmo período de 2025. “Os spreads fecharam em janeiro, mas abriram significativamente em fevereiro e março, deixando o mercado sem referência clara”, afirma Maurell.

O movimento de abertura e fechamento de spreads nas debêntures funciona como um indicador direto da confiança dos investidores. Quando esse prêmio cai, significa que o mercado está mais confortável em financiar as companhias; quando sobe, indica maior percepção de risco e menor disposição para emprestar.

Maurell diz que o mercado de dívida está desorganizado. “Episódios como os ocorridos com a Raízen e outros grupos, a guerra no Irã e a incerteza sobre as taxas de juros, tanto no Brasil quanto no exterior, abalaram as precificações”, diz o gestor.

Segundo ele, os bancos – que haviam ficado com papéis encalhados no fim do ano passado, quando houve uma grande corrida para emitir debêntures incentivadas por causa de ameaça do governo de tributar esse produto, que por fim seguiu isento – estão com dificuldade em oferecer leituras de preço precisas, levando empresas a suspenderem ou adiarem captações.

Pipeline de leilões

Apesar da expectativa de redução nas captações, o ritmo de leilões de infraestrutura segue intenso. Para 2026, por meio do calendário de certames, estão previstos mais de R$ 127 bilhões em concessões de rodovias federais e estaduais, cerca de R$ 65 bilhões em projetos de saneamento e um pipeline relevante de leilões portuários.

Só o setor elétrico deve aprovar quase R$ 140 bilhões em projetos, incluindo leilões de reserva de capacidade, novas linhas de transmissão e o primeiro leilão de sistemas de armazenamento de energia (BESS), que pode movimentar mais de R$ 5 bilhões.

A JGP avalia, porém, que o novo ciclo de concessões ainda não deve se refletir de imediato no mercado de debêntures incentivadas porque os projetos costumam seguir uma dinâmica financeira em etapas. “Em geral, um projeto de infraestrutura é financiado com 70–80% de dívida e 20–30% de capital próprio ou equity”, afirma o gestor.

Nos primeiros meses após vencer um leilão, as empresas geralmente recorrem a empréstimos-ponte atrelados ao CDI, que servem para cobrir os gastos iniciais de mobilização e início das obras. Só mais adiante, quando os ativos já estão em fase de implantação ou operação e o risco do projeto diminui, é que fazem sentido as emissões de dívida de longo prazo, como as debêntures incentivadas.

“Por essa razão, o impacto mais robusto desse pipeline de investimentos deve aparecer apenas entre 2027 e 2028, quando os projetos estiverem maduros o suficiente para acessar o mercado com condições mais adequadas”, ressalta Maurell.

Outro movimento relevante no setor citado pelo estudo da JGP é a entrada crescente de investidores financeiros nas disputas por ativos de infraestrutura. Gestoras e fundos têm participado diretamente de leilões ou formado parcerias com operadores estratégicos para ampliar sua presença no setor.

“Fundos de investimento, como Kinea e Opportunity, estão entrando cada vez mais como sócios em projetos de infraestrutura, coinvestindo com players estratégicos”, afirma Maurell. Mas essa entrada, segundo ele, não reduz a necessidade de emissão de debêntures, pois esses fundos aportam o capital social e a empresa ainda precisa captar a dívida para financiar o restante do projeto.

Para empresas que atingiram seu limite de alavancagem por dívida, existem estruturas de capital híbrido. Uma delas é a emissão de ações preferenciais em um ativo já maduro. Isso permite levantar capital para investir em novos projetos sem aumentar o endividamento da holding. A gigante de saneamento Aegea e a Orizon, de gestão de resíduos, são exemplos de empresas que utilizaram essa estratégia para gerar liquidez.

“Estratégias como capital híbrido ganham espaço, mas a dinâmica de captação de dívida continua central para viabilizar os projetos”, afirma Maurell.

O início do ciclo de queda da Selic pelo Banco Central, por sua vez, é visto como um bom sinal para a viabilidade de projetos de infraestrutura - juros elevados tornam a dívida mais cara, podendo inviabilizar a participação de alguns players em leilões, especialmente em setores com margens apertadas.

Mas Maurell prevê uma demora para a Selic afetar de forma relevante o mercado de debêntures incentivadas. “Uma futura queda nos juros deve acelerar o mercado de dívida, mas o movimento não será rápido o suficiente para gerar grande impacto neste ano.”