O mercado começou a apostar mais forte em uma eventual vitória da oposição nas eleições. E está fazendo isso principalmente através do mercado de opções.

Nos últimos dias, mesas de operações registraram uma sequência de operações incomuns pelo tamanho e pela direção: compra de calls em PETR4 e no índice Bovespa, todas com vencimento próximo ou logo após o pleito.

O padrão, batizado no mercado de "trade eleitoral", ganha força à medida que as pesquisas mostram um cenário mais apertado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e candidatos da oposição.

Ruy Hungria, analista da Empiricus, afirma que as apostas de curto prazo via mercado de opções se dão especialmente devido ao potencial de ganho possibilitado pelo uso de alavancagem.

“Estamos falando de uma valorização de 20%, 30%, 40% para algumas ações. Quando a gente pula para o mercado de opções, esse mesmo movimento representaria uma valorização de 200%, 300%, 400%”, diz ele.

No Ibovespa, a aposta apareceu por meio da compra de quase 6 milhões de opções de compra atreladas ao índice (BOVAJ215), com strike equivalente a 215 mil pontos — e vencimento em 16 de outubro.

O prêmio pago pela operação foi de aproximadamente R$ 1,5 milhão, o que equivale a cerca de R$ 0,25 por opção, ou 250 pontos adicionais no ponto de equilíbrio. Isso coloca o break-even da aposta em torno de 215.250 pontos. Com o Ibovespa cotado hoje a 187.451,80 pontos, o índice precisaria subir cerca de 14,8% até o vencimento para que a operação comece a dar lucro.

Em Petrobras (PETR4), a operação identificada foi a compra de 2 milhões de opções de compra, com vencimento em novembro, strike de R$ 50,41 e prêmio de R$ 2,58 por opção — um desembolso total de R$ 5,16 milhões.

Com a ação cotada a R$ 46,43 no momento do negócio, o break-even da posição fica em R$ 52,99, somando o strike ao prêmio pago. Ou seja, PETR4 precisaria subir cerca de 14% a partir do patamar em que a operação foi montada para que o investidor comece a ter lucro.

Hungria chama a atenção para o volume das operações, muito acima do padrão para esse tipo de estrutura. Segundo ele, os posicionamentos recentes foram montados por "gente grande, com alguma convicção" — o que, segundo ele, é bastante representativo do apetite do mercado no momento.

Outro destaque é a quase ausência de contraponto pessimista. Atualmente, o put/call ratio do Ibovespa está no menor nível desde o final de 2021 — evidência técnica de que a demanda por apostas de alta supera em muito a de queda.

"A percepção é de que há pouco espaço para cair, se não houver alternância de poder, e muito para subir, caso isso ocorra", afirma Hungria.

Essas operações ganharam força na esteira de uma leva de pesquisas eleitorais divulgadas na semana passada, todas apontando para uma corrida cada vez mais apertada.

O Datafolha mostrou Lula e o senador Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em um eventual segundo turno, por 46% a 44%. A Quaest capturou o mesmo movimento de aproximação: de 43% a 40% para Lula, na rodada de agosto, para 42% a 41% na pesquisa mais recente.

Já o PoderData foi além: pela primeira vez desde maio, Flávio apareceu numericamente à frente do presidente no segundo turno, com 45% contra 44% — ainda dentro da margem de erro, mas um sinal de que o mercado não deixou passar batido.

A maior expectativa de uma alternância de poder também tem mexido com o mercado à vista. Desde 21 de agosto, o Ibovespa acumulou 9,8% de alta — saindo de 171.032 para os atuais 187.861 pontos. Somente em 2 de setembro, data da divulgação da pesquisa Quaest, o índice teve um salto de 3,05%.

O movimento ocorre na contramão da maior cautela com altas de juros no exterior. No mesmo período, o S&P 500 ficou praticamente de lado, enquanto, em direção oposta, o Ibovespa tem alta de mais de 1% nesta terça.

O otimismo com uma eventual alternância de poder não fica restrito à Bolsa — aparece também no câmbio e nos juros futuros. O dólar recuou da casa dos R$ 5,20 para os atuais R$ 5,08/R$ 5,09.

Os contratos de juros futuros mais longos caíram entre 60 e 70 pontos-base no mesmo período, enquanto os títulos públicos atrelados à inflação (as NTN-Bs) recuaram de 20 a 25 pontos-base.

"Certamente a possibilidade da alternância de poder tem feito preço e ajudado os ativos de risco aqui no Brasil a performar melhor", afirma Ronaldo Guimarães, conselheiro da KAT Investimentos.

Para ele, o fator determinante por trás dessa reprecificação é a expectativa de uma sinalização fiscal mais dura por parte de um eventual governo de oposição — o que abriria espaço para uma queda mais forte da Selic, hoje precificada pelo mercado em apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual.