Reflexo da crise provocada por aportes bilionários no Banco Master, a previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro completou mais de um mês sem um responsável formal pela diretoria de investimentos. O vácuo na gestão se instalou após a exoneração de Pedro Leal do cargo e de outros nove servidores por autorizar e manter aplicações do Rioprevidência na instituição financeira, que está em liquidação extrajudicial desde novembro.

Foram R$ 970 milhões aplicados em letras financeiras do banco, além de R$ 1,5 bilhão investidos em fundos administrados pelo conglomerado do Master. O NeoFeed teve acesso, através da Lei de Acesso à Informação, a atas de reuniões internas, relatórios de investimentos e documentos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) que montam o roteiro de como a RioPrevidência resolveu investir nos ativos do Banco Master.

As primeiras compras de letras financeiras do Master ocorreram pouco após Euchério Lerner Rodrigues ser nomeado pelo governador Cláudio Castro para a diretoria de investimentos do Rioprevidência, em outubro de 2023. Todos os aportes em títulos do banco foram feitos sob sua gestão, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Ex-chefe de gabinete da presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ex-superintendente de Finanças da Dataprev, Euchério Rodrigues foi exonerado do cargo em março do ano passado, já sob investigação do TCE-RJ. Documentos obtidos pelo NeoFeed mostram que o nome Euchério Rodrigues foi visto com desconfiança ainda antes de assumir o cargo. Os primeiros questionamentos surgiram do conselheiro da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Felipe Derbli.

Presente na reunião extraordinária do Conselho de Administração do Rioprevidência que analisou a indicação de Euchério Lerner Rodrigues, Derbli levantou, logo após a apresentação do candidato, “possíveis incompatibilidades que poderiam obstaculizar a atuação do candidato junto ao Rioprevidência”, segundo a ata da reunião obtida pelo NeoFeed.

Em seguida, o conselheiro do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Moreira Alves, pontuou que a experiência do indicado, que nunca havia atuado como gestor de investimentos, poderia ser “demasiadamente administrativa e acadêmica” para o cargo, conforme registrado na ata da reunião. Não houve, no entanto, objeções à sua indicação.

Uma das primeiras mudanças conduzidas por Euchério Lerner Rodrigues logo após assumir foi a ampliação do limite permitido para a alocação em letras financeiras. Menos de um mês depois, em 1 e 10 de novembro de 2023, o Rioprevidência fez os primeiros aportes em letras financeiras do Master, somando R$ 80 milhões.

Embora o aumento do limite de alocação em letras financeiras tenha sido debatido no Comitê de Investimentos daquele mês, não houve qualquer registro em ata de discussão sobre o investimento específico nos títulos do banco. Até então, o Rioprevidência não possuía exposição direta a letras financeiras reportada nos informes mensais de investimentos.

Os aportes continuaram nos meses seguintes, com mais R$ 200 milhões investidos em dezembro de 2023 e R$ 230 milhões em fevereiro de 2024. Entre abril e julho daquele ano, o fundo realizou cinco novos aportes em letras financeiras do Master que somaram R$ 340 milhões.

Ao todo, a exposição direta do Rioprevidência a letras financeiras emitidas pelo Banco Master chegou a R$ 970 milhões, considerando os aportes realizados entre novembro de 2023 e julho de 2024. No Fundo de Proteção Social dos Militares, esses papéis chegaram a representar cerca de 50% das alocações, segundo registros apresentados nas reuniões do Comitê de Investimentos.

Aportes vêm à tona

A interrupção dos aportes coincidiu com a publicação das primeiras reportagens sobre as compras de letras financeiras do Banco Master pelo Rioprevidência. Ainda em outubro daquele ano, o jornal O Globo noticiou aplicações realizadas pelo fundo, trazendo o tema à tona.

Euchério Rodrigues teve que passar mais de duas horas com o Comitê de Investimentos naquele mês para explicar o racional por trás do investimento no Master. Na reunião, Euchério Lerner Rodrigues admitiu que vinha “recebendo questionamentos de diversos órgãos em razão das letras financeiras no Banco Master”. Ainda assim, defendeu que “o investimento é bom e está dando um ótimo retorno”, conforme registrado em ata.

Pela primeira vez, Rodrigues e seu suplente, Pedro Pinheiro Guerra Leal, afirmaram que, antes da aplicação, foi realizada due diligence e análise de balanço da instituição, destacando que a única etapa não feita internamente pelo Rioprevidência foi a avaliação de rating.

O diretor de Investimentos também afirmou que os instrumentos oferecidos por outras instituições não apresentavam retorno tão atrativo e que, a partir do momento em que o Banco Master passou a integrar a lista de opções avaliadas, “não havia mais o que pensar”.

Segundo ata daquela reunião, foi a “concorrência que alimentou a imprensa com esses dados” dos aportes. O documento, no entanto, não explicita de quem partiram as acusações ou o tipo de “concorrência” que se referia.

Naquele momento, mesmo diante do aumento das desconfianças no mercado em relação à solvência do Banco Master, Rodrigues afirmou que havia propostas de compra pelas letras financeiras e que seria possível vendê-las com lucro, mas que essa alternativa “não era recomendada no momento”.

Um dos argumentos apresentados por Rodrigues para manter o investimento foi a existência de um colateral atrelado aos contratos de crédito consignado firmados entre o Rioprevidência e o Banco Master. Segundo ele, em caso de inadimplência das letras financeiras, os valores poderiam ser compensados com recursos dos consignados, o que, na avaliação do então diretor, mitigaria o risco da operação.

Diferentemente dos CDBs para pessoas físicas, esses títulos não possuem garantia do Fundo Garantidor de Crédito, e, com o Master em liquidação, passam à fila de credores. O valor a recuperar depende de quanto o banco consegue arrecadar com a venda de ativos, a ordem de prioridade dos credores e ao colateral atrelado aos contratos de crédito consignado.

Diretores saem, fica a crise

No início de dezembro, já após a exoneração de Pedro Leal, o Rioprevidência obteve uma decisão favorável no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) que autorizou a retenção dos repasses vinculados aos contratos de crédito consignado firmados com o Banco Master, até o limite de R$ 970 milhões, acrescidos de juros e correção monetária. Com a decisão, os valores passaram a ser depositados em conta exclusiva, onde permanecerão retidos até o julgamento final do caso.

O colapso do Banco Master não produziu impactos apenas nas contas do Rioprevidência. O episódio também desencadeou uma crise de transparência sem precedentes na gestão do regime próprio de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro.

Nenhuma ata das reuniões do Conselho de Administração do Rioprevidência foi publicada ao longo de 2025 no site oficial da instituição. O RPPS também deixou de divulgar as atas do Comitê de Investimentos após a reunião de agosto, e o último relatório mensal de investimentos disponível é referente a outubro do ano passado, ampliando o apagão de informações justamente no momento de maior escrutínio sobre a gestão dos recursos previdenciários.

Mesmo com recomendações do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para recuperar eventuais perdas decorrentes da liquidação do Master, pelo menos até o início de dezembro, o RioPrevidência ainda tinha na carteira R$ 890 milhões em letras financeiras do Master, segundo os dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Em outubro de 2025, Euchério Lerner Rodrigues e Pedro Leal foram notificados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), que também determinou a proibição de novos investimentos do Rioprevidência em instrumentos emitidos, administrados ou geridos pelo conglomerado do Banco Master.

Além dos indícios de irregularidades envolvendo a exposição direta do Rioprevidência ao Banco Master, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro apontou que o RPPS realizou outros aportes que somaram R$ 1,5 bilhão em três fundos administrados pelo conglomerado do banco: Revolution, Arena e Texas.

Nos fundos Revolution e Arena, ambos de renda fixa, os aportes totalizaram R$ 1,4 bilhão. Os outros R$ 100 milhões foram investidos no Texas, um fundo de ações que chegou a ter 96% de exposição em papéis da Ambipar, uma das empresas investidas pelo Banco Master. Desde setembro, as ações da companhia caíram mais de 97%.

Além do Rioprevidência, outros 18 regimes de previdência de estados e municípios ainda detinham letras financeiras do Master até o início de dezembro, de acordo com os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.

O RPPS do Estado do Rio de Janeiro era o que detinha a maior exposição nominal, seguido do RPPS do Amapá, com R$ 400 milhões e de São Roque, com R$ 93,15 milhões. Ao todo, os 19 RPPS ainda tinham R$ 1,618 bilhão em títulos do Master, todos adquiridos entre 2023 e 2024.

O NeoFeed questionou o Rioprevidência sobre as movimentações apresentadas nesta reportagem, mas não obteve resposta. A reportagem tentou contato por vários canais com Euchério Rodrigues, mas também não obteve resposta.