Uma proposta da Nasdaq para convencer Elon Musk a fazer o IPO da SpaceX está gerando receio de que possa provocar uma enorme distorção no mercado, com efeitos negativos para investidores de ETFs.
De olho em atrair o que promete ser uma das maiores aberturas de capital da história, com a empresa buscando um valuation de US$ 1,75 trilhão, a operadora de Bolsa está propondo mudar as regras que tratam da inclusão de companhias no índice Nasdaq 100, que é seguido por uma série de fundos de índices.
Em vez de terem que passar por um “período de amadurecimento” de três a 12 meses após o IPO, a Nasdaq avalia permitir a inclusão de grandes empresas em menos de um mês. Esses nomes ficariam isentos dos requisitos de maturação e liquidez.
A inclusão dessas companhias não exigirá a remoção de outro nome do índice imediatamente – o número de integrantes ficaria acima do que determina as regras até o próximo rebalanceamento.
A proposta visa a atender uma demanda de Musk, que entende que a entrada da SpaceX no Nasdaq 100 como uma maneira de aumentar a demanda pelas ações da empresa.
Mas as novas regras também são vistas como uma maneira da Nasdaq ser atrativa para nomes como OpenAI e Anthropic, cujos IPOs também devem atingir patamares históricos, quando acontecerem.
Essas mudanças, no entanto, abrem caminho para gerar um peso desmedido de companhias com market cap muito alto nos índices, segundo análise do jornal The Wall Street Journal (WSJ).
Pelas regras propostas pela Nasdaq, uma empresa poderia ter sua inclusão acelerada no índice se o seu valor de mercado figurar entre as 40 maiores do Nasdaq 100.
Por esta regra, de acordo com o WSJ, se essa empresa realizar um IPO com menos de 10% de suas ações em circulação, a companhia entraria no índice com uma ponderação de cinco vezes o valor de mercado de suas ações livremente negociáveis.
Se uma empresa com uma capitalização de mercado total de US$ 1 trilhão lançasse apenas 5% de suas ações em uma oferta inicial, isso representaria US$ 50 bilhões em ações livremente negociáveis. De acordo com a proposta da Nasdaq, a base para a ponderação da empresa no índice Nasdaq 100 seria cinco vezes maior, ou US$ 250 bilhões.
O resultado, segundo o jornal, seria forçar os fundos de índices e gestores a comprarem mais ações, fazendo o papel ter um impulso artificial, criando uma demanda não necessariamente orgânica, estimulando a volatilidade.
"A proposta agrava a concentração do índice e pode ser um gatilho para cortes forçados nas 'Big Six'. Além disso, o multiplicador de cinco vezes aplicado a um float baixo gera dúvidas quanto à replicabilidade do Nasdaq 100", disse Daniel Popovich, portfolio manager da Franklin Templeton no Brasil, ao NeoFeed.
A Nasdaq não é a única que está considerando mudanças para atrair grandes empresas. A FTSE Russell, provedora de índices pertencente ao London Stock Exchange Group (LSEG), está propondo incluir os principais IPOs após cinco dias úteis, mas num formato que não multiplicará seu peso nos índices.
O incentivo para estas mudanças é milionário. Criar e gerir índice virou um grande negócio – em 2025, a Nasdaq arrecadou US$ 827 milhões em receita com seus índices, um aumento em relação aos US$ 706 milhões do ano anterior.
Ao garantir os próximos grandes IPOs, a Nasdaq visa impulsionar a popularidade de seus índices e fundos que os replicam.