O Rioprevidência destinou R$ 431 milhões para um fundo de crédito privado que investiu em títulos sem liquidez, com vencimentos muito longos e ligados a empresas suspeitas de irregularidades.
Trata-se do Revolution FI RF LP CP RL, administrado pelo Grupo Master e gerido pela Acura Gestora de Recursos. Os aportes aconteceram entre maio e agosto de 2025.
Poucos dias após sua criação, o Revolution passou a concentrar bilhões de reais em debêntures de securitizadoras e, posteriormente, em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) lastreados em operações ligadas a empresas apontadas pelo Banco Central (BC) como suspeitas de terem recebido empréstimos com indícios de irregularidades do Master.
De acordo com dados do CadPrev obtidos pelo NeoFeed por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), somados às consultas às bases da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da B3, parte relevante desses CRIs apresenta baixíssima execução financeira, vencimentos longos (alguns papéis até 2045) e ausência de negociação no mercado secundário.
O NeoFeed identificou 16 dos 17 CRIs registrados na carteira. Em linhas gerais, os papéis estão atrelados a operações envolvendo quatro grupos empresariais: WAM Hotéis, Bloko Desenvolvimento, S&J Consultoria e Incorporação e Renogrid. Todos eles são citados em reportagens do Valor Econômico e da Folha de S.Paulo que reproduziram lista do Banco Central sobre empresas suspeitas de irregularidades em operações com o Master.
Os títulos foram emitidos entre 2023 e 2024, antes da criação do Revolution. Consultas realizadas a pedido do NeoFeed em sistemas da B3 não localizaram movimentações desses papéis no mercado secundário.
Além disso, o Revolution reporta rentabilidade acumulada equivalente a 180% do CDI, desde sua criação em 9 de maio de 2025. O regulamento prevê prazo de resgate de 180 dias. Sem um mercado secundário para comprar esses títulos e com um prazo longo de resgate, a tendência é esse retorno virar pó.
A estrutura de fluxo financeiro chama também atenção. O CRI WHR, destinado a empresas do grupo WAM, por exemplo, emitiu R$ 307,62 milhões em setembro de 2023 e tinha vencimento previsto para 2027.
Até junho de 2024, havia recebido apenas R$ 112 mil. Dados da CVM indicam que até dezembro de 2025 os créditos recebidos somavam R$ 161,5 mil.
A maior parte dos pagamentos previstos encontra-se alocada em períodos superiores a 361 dias. Essa estrutura permite que o título permaneça formalmente adimplente mesmo com execução financeira reduzida no curto prazo.
Há ainda CRIs com vencimentos previstos para 2040, 2045 e entre 2034 e 2038, com remuneração entre IPCA+7,5% e IPCA+8% - próximo a valores pagos por títulos públicos.
O caso levanta questionamentos sobre a qualidade e a liquidez dos ativos que lastreiam recursos do regime próprio de previdência (RPPS) do Estado do Rio de Janeiro. O ponto central não é a existência de fraude comprovada, mas o desafio fiduciário de reportar performance extraordinária em ativos de liquidez restrita e vencimento alongado.
O Revolution não é um fundo pequeno. Em 11 de junho de 2025, o fundo declarava patrimônio líquido de R$ 5,1 bilhões e apenas dois cotistas, sendo um deles o Rioprevidência.
O Rioprevidência fez os primeiros investimentos registrados na CVM - dois aportes de R$ 50 milhões - em 23 e 26 de maio do ano passado -, 48 horas depois, em 28 de maio, um novo cotista, não identificado nos sistemas públicos, realizou um aporte de R$ 3,12 bilhões.
No fim de outubro de 2025, o patrimônio do Revolution já se aproximava de R$ 5 bilhões. A exposição a CRIs alcançava R$ 2,82 bilhões.
O Revolution é um dos quatro fundos administrados pelo Master que recebeu aportes do Rioprevidência. Ao todo, a previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro investiu um total de R$ 2,9 bilhões em produtos do banco, sendo R$ 970 milhões diretamente nas letras financeiras do Master.
Essa crise provocada pelo aporte bilionário levou à exoneração de Pedro Leal da presidência e de outros nove servidores por autorizar e manter aplicações do Rioprevidência no Master, que é investigado por fraudes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.
Debêntures de securitizadoras
Antes de migrar majoritariamente a carteira para CRIs, a maior exposição do Revolution estava em debêntures de securitizadoras - no fim de maio o montante chegava a R$ 2,915 bilhões.
As maiores posições eram em dívidas da Confianza (R$ 903,7 milhões) e da Base (R$ 844,6 milhões). Também havia R$ 406,1 milhões em debêntures da Blum, R$ 335,5 milhões na Lever, R$ 313,9 milhões na Humaitá e R$ 112,1 milhões na Leads.
Entre elas, a Lever figura na lista de 36 empresas apontadas pelo Banco Central como suspeitas de terem recebido empréstimos considerados fraudulentos do Grupo Master, segundo reportagens do Valor Econômico e da Folha de S. Paulo.
Inicialmente, os CRIs tinham como agentes fiduciários Planner, Trustee e Reag Investimentos. Em junho de 2025, houve transferência em massa para a Qore Investimentos.
As securitizações dos CRIs investidos pelo Revolution foram realizadas pelas mesmas casas cujas debêntures estavam na carteira do fundo nos primeiros meses: Base, Fortesec, Confianza e Lever.
Conexões societárias
Embora o ponto central do Revolution sejam os ativos que lastreiam os recursos do RPPS, que não tem histórico de negociação no mercado secundário, além de estarem concentrados em emissores sob investigação, a rede de relações societárias chama a atenção.
Documentos obtidos pelo NeoFeed mostram que o Revolution também detinha cotas do Brazil Realty FII, que investe na MG I Desenvolvimento Imobiliário SPE.
Segundo registros da Receita Federal, a empresa é presidida por Natalia Bueno Vorcaro Zettel, irmã de Daniel Vorcaro, controlador do Grupo Master, e esposa de Fabiano Zettel, ligado à Moriah Asset.
O fundo também possuía participação no FIDC Moriah que, posteriormente, foi renomeado Sinai Multi em assembleia realizada no mesmo dia em que Zettel foi preso pela Polícia Federal.
Desde o afastamento de diretores do Rioprevidência por investimentos relacionados ao Master, parte das estruturas foi desfeita. O Revolution, contudo, permanece ativo.
Procurados pelo NeoFeed, Rioprevidência, Grupo WAM, Lever, Confianza, Reag e Master não se posicionaram. E a Acura, Bloko, Base, Qore e Fortesec mandaram os seguintes posicionamentos:
"A Acura Gestora de Recursos Ltda. informa que atua em estrita observância à legislação e à regulamentação aplicáveis, às normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e aos deveres fiduciários inerentes à gestão profissional de recursos de terceiros, observando integralmente as melhores práticas do mercado. "As decisões de investimento são fundamentadas em critérios técnicos, jurídicos e financeiros, em conformidade com a política de investimento e com o regulamento de cada fundo, no âmbito de estrutura formal de governança, controles internos e gestão de riscos.
"Em respeito aos deveres de confidencialidade e à proteção dos interesses dos cotistas, a gestora não se manifesta sobre operações específicas, ativos individualizados ou análises internas.
"A Acura reafirma seu compromisso com a independência técnica, a adequada gestão de conflitos de interesse e com os mais elevados padrões do mercado de capitais brasileiro".
Já a Bloko informou que "não atuou na estruturação das operações financeiras mencionadas nem participou da gestão do fundo Revolution FI RF LP CP RL ou de decisões de investimento de seus cotistas. Nossa participação nas operações citadas restringe-se à condição de parte contratual vinculada aos projetos correspondentes, nos termos dos instrumentos regularmente firmados. Os recursos captados seguiram a destinação prevista na documentação das respectivas operações. A Bloko não possui participação societária em securitizadoras responsáveis pelas emissões dos CRIs mencionados. Também não integra grupo econômico com as empresas citadas, inexistindo vínculo societário ou estrutural que caracterize essa condição".
A Base disse que nem ela e nem e seus diretores "nunca foram condenados em procedimentos criminais ou sancionadores da CVM" e "que todas as operações da companhia, assim como suas relações contratuais e societárias, são realizadas em estrito cumprimento das leis aplicáveis e resoluções da CVM, órgão que regula nossa atividade comercial". "A Base Securitizadora não comenta as posições de seus investidores em atendimento ao sigilo bancário protegido constitucionalmente. Todas as informações serão fornecidas às autoridades, quando e se solicitado judicialmente, no foro competente. Qualquer presunção de irregularidade é prematura, ilegal e despropositada."
Já a Qore afirmou que "atua exclusivamente como agente fiduciário de determinadas emissões de CRIs, nos termos da regulamentação aplicável" e que "sua função limita-se à representação dos titulares e à fiscalização do cumprimento das obrigações previstas nas respectivas escrituras".
A Qore ainda afirmou que "não exerce qualquer papel na gestão ou administração do fundo Revolution, que não participa de decisões de investimento e não mantém vínculo societário ou operacional com sua gestora, administradora ou com as empresas mencionadas". "Eventuais transferências da função fiduciária são procedimentos usuais de mercado e não caracterizam relação com investidores ou com a estratégia de alocação de fundos que detenham os títulos vendidos no secundário."
A Fortesec, em nota enviada à reportagem, afirmou que "não exerce atividade de distribuição de valores mobiliários, e portanto, a distribuição dos CRIs de sua emissão para investidores é realizada exclusivamente por instituições financeiras contratadas pelos devedores das emissões". "Os CRIs são ainda livremente negociados no mercado secundário entre investidores, sem qualquer ingerência da Securitizadora. Sendo assim, a Fortesec não tem vínculo ou relação com o fundo Revolution FI RF LP CP RL, seus cotistas ou quaisquer outros investidores de seus CRIs ou ainda, participação ou influência nas decisões autônomas de investimento dos investidores e seus gestores."
A Fortesec ainda disse que "todas as suas emissões contam com due diligence e legal opinion de escritórios de advocacia de primeira linha, atestando a legalidade e validade dos CRIs e dos créditos que os lastreiam, e os documentos e informações de suas emissões são disponibilizados publicamente, na forma da legislação em vigor."
"A Fortesec confirma que não tem qualquer relação societária, sócios ou administradores em comum ou vínculo de qualquer natureza com as empresas citadas ou quaisquer das cedentes, devedores e garantidores de operações de sua emissão. Por fim, a Fortesec ressalta que acompanhará com rigor a divulgação de quaisquer informações a seu respeito, adotando as medidas cabíveis judiciais em caso de divulgação de informações falsas, inverídicas ou que possam configurar tentativa de macular sua reputação ou causar prejuízos à companhia."