O ambiente para empresas na América Latina, especialmente no Brasil, enfrenta uma combinação de riscos geopolíticos, falha na governança corporativa, juros elevados e inflação persistente.
E esse combo é decisivo para o downgrade até de empresas que têm fundamentos operacionais relativamente estáveis de liquidez e de fluxo de caixa, como é o caso da Brasken – que viu seu rating da Fitch, agência de classificação de risco, ser rebaixado de CCC+ para CC em dezembro, devido ao risco elevado de reestruturação de sua dívida, entre outros fatores.
“Toda empresa depende muito do refinanciamento. Se o mercado está fechado, o custo de capital é mais alto, principalmente em países com juros elevados”, afirma o americano Saverio Minervini, responsável por ratings corporativos da América Latina na Fitch, nesta entrevista ao NeoFeed.
A agência de classificação de risco monitora 800 empresas em toda a América Latina, sendo 450 delas brasileiras. Em outro monitoramento, dos países, a Fitch manteve em fevereiro a nota de crédito do Brasil em ‘BB’, com perspectiva estável (ou seja, a dois passos do grau de investimento).
Segundo ele, a Fitch vislumbrou no fim do ano passado uma avaliação negativa da região para 2026 devido a alguns fatores. “Este ano teremos três eleições muito importantes no Brasil, Colômbia e Peru, e a partir de 1º de julho, uma nova negociação do acordo de livre comércio entre Estados Unidos, Canadá e México, além da questão das tarifas”, ressalta, lembrando que na época da avaliação a invasão da Venezuela e o atual conflito no Oriente Médio sequer estavam no radar.
Minervini não quis arriscar se a atual alta do preço do barril do petróleo vai atrapalhar a trajetória de queda da Selic, mas afirma que certamente não deve ajudar. “Temos agora uma guerra e o mundo não espera que os juros baixem tão rápido.”
O maior risco hoje para empresas brasileiras, de acordo com o executivo da Fitch, é a governança. “Isso não é um problema apenas corporativo, é algo estrutural no País”, diz. Isso porque os investidores estão ficando mais seletivos, o que afeta especialmente empresas com estruturas frágeis.
“Nessas companhias, qualquer choque — câmbio, juros ou inflação — pode gerar impacto relevante. É a combinação de fatores que cria uma espécie de ‘tempestade perfeita’, porque os fundamentos já não são fortes”, afirma.
Para Minervini, as empresas brasileiras já estão adotando a postura adequada para atravessar um ano tão incerto. A estratégia tem sido alongar dívidas por mais de dois anos — essencialmente “comprar tempo” — diante dos juros altos e da incerteza tanto no Brasil quanto no exterior.
“Em um ambiente tão volátil, o recado é manter disciplina financeira e proteger o balanço até que o cenário se torne mais previsível”, diz.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Minervini:
O governo Trump tem como marca a imprevisibilidade. É possível afirmar que os riscos geopolíticos se tornaram o principal fator de preocupação das empresas, acima das variáveis macroeconômicas dos países?
Sim, no fim do ano passado, detectamos uma perspectiva de deterioração das empresas da América Latina próxima da negativa, em cima desses riscos geopolíticos. Quando você analisa a empresa de baixo para cima — isto é, olhando primeiro para fundamentos como os números do fluxo de caixa — tudo está estável. Mas partindo para análise macro, centrada no ambiente econômico, os riscos estão muito elevados. E isso foi feito depois das tarifas, mas antes da invasão da Venezuela e do atual conflito no Oriente Médio.
O que mais impactou nessa avaliação negativa para a região?
Este ano teremos três eleições muito importantes no Brasil, Colômbia e Peru, que refletem mais ou menos 80% do nosso portfólio na América Latina. Além disso, a partir de 1º de julho, terá início a nova negociação do USMCA, o acordo de livre comércio entre Estados Unidos, Canadá e México. E ainda temos a questão das tarifas.
Como esse combo impacta para as empresas?
Ele eleva o risco de governança em todas as empresas da América Latina. É com isso que os investidores de fora estão preocupados. Muitas empresas, como a Brasken, entraram na faixa CCC da Fitch, que é quase default, não porque tenham problemas de liquidez ou fluxo de caixa, mas por fatores macroeconômicos dos governos, como os juros elevados, ou tensão geopolítica que causa incerteza.
Em que sentido isso afeta o rating dessas companhias?
Toda empresa depende muito do refinanciamento. Se o mercado está fechado, o custo de capital é mais alto. O Brasil e a Colômbia têm, além de uma inflação acima da meta, taxas de juros muito altas – de 15% no Brasil e acima de 10% na Colômbia. Se o presidente Trump eleva amanhã as tarifas, sabemos que vai impactar a cotação do real e as empresas ficam ainda mais expostas ao câmbio e à taxa de juros.
Em outubro, ainda sob efeito das tarifas, a Fitch informou que empresas brasileiras com necessidades iminentes de refinanciamento e acesso limitado aos mercados internacionais seriam as mais vulneráveis. Esse quadro piorou?
O que escrevemos no ano passado é que cerca de 10% das empresas do nosso portfólio tinham dívidas de curto prazo que representavam mais de 20% do total da dívida, enquanto a liquidez disponível era menor do que isso. Até agora, os números não pioraram, mas também não melhoraram. As companhias ainda estão divulgando os resultados do quarto trimestre, vamos analisar, mas a situação continua insustentável. É como estar numa esteira em velocidade máxima: em algum momento, essas empresas simplesmente não conseguem correr mais.
“Ter dívida de curto prazo e baixa liquidez é como estar numa esteira em velocidade máxima: as empresas não conseguem correr mais”
A atual alta do petróleo ameaça a queda da Selic?
Não sei dizer se vai impactar no início da queda de ciclo de juros, essa é uma questão do Banco Central, mas certamente não ajuda. As empresas no Brasil com alavancagem de duas vezes o Ebitda, por exemplo, já estavam usando, em média, 50% desse Ebitda apenas para pagar despesas de juros. Veja o exemplo da Raízen, que tinha ótima avaliação e agora é CCC, não por causa da gestão em si, mas porque há mais incerteza e nessa situação o mercado fica defensivo. Temos agora uma guerra e o mundo não espera que os juros baixem tão rápido.
O que explica a alta da bolsa aqui este ano?
O crescimento do mercado local aconteceu porque a demanda veio principalmente de investidores estrangeiros. Eles estavam fazendo arbitragem: com juros de 15% no Brasil, a remuneração parecia muito atraente. Assim, empresas de altíssima qualidade de crédito — como utilities (empresas de serviços públicos essenciais, geralmente reguladas) com rating AAA no Brasil — conseguiam emitir bônus que eram bem recebidos lá fora. Mas esse movimento não é sustentável.
O presidente Trump avisou no final de semana que pretende atacar cartéis do narcotráfico na América Latina, como México e Colômbia. Que tipo de efeito essa militarização americana causaria na economia da região como um todo?
É difícil prever o impacto, precisaria analisar caso a caso, mas é mais um problema para a América Latina, que a jogaria num período de escuridão. O ideal seria usar essa aproximação dos Estados Unidos com a região para trabalharmos todos juntos no longo prazo, integrando o comércio regional e fortalecendo o near-shoring. Mais de 30% do petróleo global fica aqui nas Américas, há grandes oportunidades com o lítio no Chile, Bolívia e na Argentina. São várias oportunidades. Infelizmente o tema principal agora é o da segurança.
No caso das empresas brasileiras, que agora enfrentam, além dessa tensão geopolítica internacional, os efeitos do escândalo financeiro do Banco Master, quais riscos tendem a impactar mais: a variação do câmbio, possível redução menor de juros ou aumento de inflação?
O maior risco hoje para empresas brasileiras é a governança. Isso não é um problema apenas corporativo — é algo estrutural no País. Os investidores estão ficando mais seletivos, e isso afeta especialmente empresas com estruturas frágeis, dependentes de refinanciamento ou expostas a riscos adicionais, como o IFEX, indicador da Fitch que mede quão exposta uma empresa está a riscos externos. Nessas companhias, qualquer choque — câmbio, juros ou inflação — pode gerar impacto relevante. É a combinação de fatores que cria uma espécie de ‘tempestade perfeita’, porque os fundamentos já não são fortes.
A governança da empresa pesa muito na análise da Fitch?
Boas práticas não geram upgrade, mas deficiências geram penalidades claras. Empresas com acionistas muito dominantes ou estruturas pouco transparentes podem perder um ou dois níveis de rating. E, em vários casos recentes, parte da deterioração veio justamente de falhas de governança.
“Empresas com acionistas muito dominantes ou estruturas pouco transparentes podem perder um ou dois níveis de rating”
Dessas grandes empresas que a Fitch monitora, como Braskem e Ambipar, o que mais preocupa do ponto de vista de desempenho?
No caso da Braskem e da Ambipar, os problemas foram muito mais ligados a fatores globais do que a questões específicas do Brasil. No setor petroquímico, por exemplo, os spreads internacionais caíram de forma generalizada — empresas nos Estados Unidos, Oriente Médio e América Latina foram afetadas da mesma forma. No caso da Braskem, isso se somou a questões locais, como o problema de Alagoas, o que agravou a situação. Mas, no geral, foi uma dinâmica global.
Em fevereiro, a Fitch manteve a nota de crédito do Brasil em ‘BB’, com perspectiva estável, indicando que uma melhora depende de um plano fiscal crível – o que só deve ocorrer em 2027. A tensão externa e interna, com o caso Master, pode, de alguma forma, impactar a economia brasileira a ponto de levar a Fitch a reavaliar o rating do País?
A avaliação de um país e a avaliação das empresas seguem lógicas diferentes. A nota do Brasil (‘BB’) não altera de forma significativa os ratings na escala nacional, mas ela influencia diretamente os ratings das empresas na escala internacional. Isso ocorre porque muitas companhias, mesmo tendo um perfil de crédito melhor que o do país, ficam limitadas pelo chamado country ceiling — o teto soberano do país. No caso do Brasil, esse teto é ‘BB+’, o que impede que empresas com fundamentos mais fortes avancem além desse nível. Quase todas as companhias de grande porte que avaliamos acabam tendo sua nota internacional restringida pela nota do país, que chamamos de rating soberano.
Além de um plano fiscal rígido, quais seriam os movimentos necessários do próximo do governo para uma elevação do rating do Brasil?
O que mais impacta não depende do governo, e sim do Banco Central: juros mais baixos.
A China anunciou na semana passada uma redução na meta de crescimento econômico para 4,5%, a menor em três décadas. Qual o impacto dessa decisão para para empresas aqui no Brasil?
Do ponto de vista corporativo, não vemos um impacto relevante da desaceleração da China sobre as grandes empresas brasileiras que avaliamos. Mesmo com o PIB chinês crescendo menos, a demanda por produtos como celulose, petróleo e energia continua praticamente estável.
Isso era esperado?
Sim, porque a China segue comprando volumes semelhantes aos de anos anteriores. Além disso, as empresas brasileiras desses setores são, em geral, produtoras de baixo custo no cenário global. Isso significa que, mesmo em um ambiente de crescimento mais fraco na China, elas tendem a manter competitividade e não devem sofrer um impacto material.
E a disparada do preço do petróleo, tende a prejudicar as empresas brasileiras?
Sim, em alguns setores. Mas se o preço do petróleo permanecer elevado, isso tende a favorecer a Petrobras e toda a cadeia de energia. O mesmo vale para muitas empresas de commodities em geral, que podem se beneficiar desse cenário. Por outro lado, setores mais sensíveis aos juros — como varejo e consumo — continuam vulneráveis.
Diante de juros altos, incerteza eleitoral e do escândalo envolvendo o Banco Master, que aumentam os riscos, qual é o recado da Fitch para as empresas brasileiras sobre como administrar seus negócios em um ano tão turbulento?
As empresas brasileiras já estão adotando a postura adequada para atravessar um ano tão incerto. Há um recuo evidente nos investimentos e uma prioridade em fortalecer o perfil financeiro. A estratégia tem sido alongar dívidas por mais de dois anos — essencialmente “comprar tempo” — diante dos juros altos e da incerteza tanto no Brasil quanto no exterior. Nos últimos dois anos, as companhias vêm operando de forma defensiva: adiando investimentos, reduzindo alavancagem, reforçando liquidez, cortando custos e preservando margens de Ebitda e de caixa. Em um ambiente tão volátil, o recado é manter disciplina financeira e proteger o balanço até que o cenário se torne mais previsível.