Os poucos torcedores que acompanharam a vitória por 2 a 0 da Ferroviária sobre o Real Brasília, na noite de segunda-feira, 12 de janeiro, pela Copa São Paulo de Futebol Júnior, certamente não faziam ideia de que a Revee, empresa gestora do estádio Fonte Luminosa, em Araraquara (SP), tem à frente João Carlos Mansur, fundador da Reag e alvo da Polícia Federal no âmbito do escândalo do caso Banco Master.

Um dia antes de o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Investimentos, Mansur anunciou o seu desligamento da cadeira de presidente do conselho de administração da Revee.

No documento assinado por Gabriel Galípolo em 15 de janeiro, o BC também informa que “ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição [Reag]”. Com isso, a Revee entra no rol de ativos liderados por Mansur que não podem ser vendidos.

No contrato de concessão assinado pela Revee com a Prefeitura de Araraquara, em agosto de 2023, que tem um valor total de R$ 367,8 milhões, que corresponde ao volume de investimentos, despesas, além da outorga, há uma cláusula que diz que nenhum representante da concessionária, incluindo diretores e conselheiros, pode estar sob investigação em virtude de denúncias de suborno ou corrupção, nem ser suspeito de prática de lavagem de dinheiro.

No documento firmado entre a Prefeitura e a concessionária, de 537 páginas, também há um dispositivo que diz que o contrato pode ser rescindido em caso de dissolução, decretação de falência, pedido de recuperação judicial ou início de liquidação, por parte da empresa.

No contrato de concessão da Nova Fonte Luminosa, a Revee criou uma sociedade de propósito específico (SPE) para administrar, por 35 anos, o estádio Olivério Bazzani Filho (nome oficial da Fonte Luminosa), o ginásio poliesportivo Gigantão, um centro de convenções, um pavilhão de exposições e uma esplanada de eventos.

Ao todo, são mais de 300 mil metros quadrados (m²) sob concessão, incluindo 50 mil m² de área para shows e exposições, e o estádio de futebol, com cerca de 20 mil lugares, que, apesar de ser público, é usado como casa da Associação Ferroviária de Esportes, um tradicional time grená e branco do interior paulista que disputa a Série A2 do Campeonato Paulista e a Série C do Campeonato Brasileiro.

Segundo dados da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), faziam parte do quadro societário da concessionária as empresas Reag e Integritate - as duas também estiveram à frente do projeto de reestruturação do estádio do Palmeiras, transformado no Allianz Parque.

Mansur, que havia atuado na WTorre, se associou ao executivo Luis Davantel, que já havia sido CFO da WTorre e fundou a Integritate. Davantel passou a ser o CEO da Nova Fonte Luminosa.

Em dezembro de 2024, a administração municipal assinou um aditamento - que o NeoFeed teve acesso - em que autoriza a mudança do comando da gestão da Nova Fonte Luminosa para a Revee, também controlada pela Reag.

Tanto o contrato como o aditamento foram assinados pelo então prefeito de Araraquara, Edinho Silva, atual presidente nacional do PT. O município hoje é comandado por Luis Cláudio Lapena (PL).

Em maio de 2025, a Revee passou a ser listada na B3, com o ticker RVEE3, após a tradicional cerimônia do toque da campainha, que consolidou a entrada da empresa no Novo Mercado - onde estão as ações com o maior nível de governança corporativa.

Focada na revitalização de ativos imobiliários e na criação de arenas multiuso, a Revee se tornou a terceira subsidiária da Reag na bolsa de valores.

Desde o período em que está na B3, a maior alta das ações ocorreu em 15 de agosto, quando o papel fechou o pregão sendo negociado a R$ 30, o que representou, naquele momento, uma alta de 76% sobre o dia anterior.

João Carlos Mansur (ao centro), na listagem da Revee na B3, em maio de 2025

A partir da deflagração da operação Carbono Oculto, que começou a investigar as supostas fraudes envolvendo o Banco Master, e a descoberta de que a Reag teria atuado na administração de fundos considerados suspeitos, as ações da Revee entraram em um ciclo de queda.

No fim de setembro do ano passado, a ação passou a derreter no pregão e, na terça-feira, 20 de janeiro, fechou a R$ 1,82. Desde a primeira vez em que passou a ser negociada na B3, a companhia registrou uma desvalorização de 70%. O valor de mercado atual é de R$ 18,5 milhões.

A partir do escândalo envolvendo o banco fundado por Daniel Vorcaro, e da descoberta da ligação direta com Mansur, a Revee viveu uma fila de renúncias de executivos.

Em setembro, Gabriel Pupo Nogueira comunicou que estava deixando a função de membro do conselho de administração. No mesmo mês, Francisco Gelpi Mattos também avisou de sua renúncia do colegiado e do comitê de auditoria.

No dia 8 de outubro, Luis Davantel informou sua renúncia do cargo de vice-presidente do conselho e de CEO da Revee.

A última saída foi justamente de Mansur. No dia 14 de janeiro, a companhia divulgou fato relevante em que anunciou a renúncia do empresário da cadeira de presidente do conselho da Revee, sem qualquer explicação da decisão.

No mesmo documento, também consta a saída de Wisam Kamel Ayache, que ocupava o cargo de membro independente do conselho.

Com isso, a função de presidente passou a ser ocupada por Leonardo Falbo Donato, que assinou o contrato, em nome da concessionária Nova Fonte Luminosa, com a Prefeitura de Araraquara.

No fato relevante, a companhia avisou que “tendo em vista a vacância da maioria dos cargos do conselho de administração da companhia”, irá convocar, em até 30 dias (o prazo vence em 13 de fevereiro), assembleia geral de acionistas para definir a recomposição do colegiado.

Modernização do estádio

Ainda que o complexo esportivo esteja há dois anos e meio sob gestão privada da Revee, que, pelo contrato, é responsável pela modernização dos equipamentos, a Prefeitura de Araraquara tem colocado dinheiro público para reformar o entorno da arena esportiva.

Em documento enviado à Câmara de Vereadores, a administração municipal afirmou que pretende investir R$ 3,7 milhões para iluminação em LED no estádio e no ginásio. Também disse que já foram aportados R$ 4,2 milhões na manutenção do complexo.

Somente no campo da Ferroviária, o governo municipal disse que colocaria R$ 2,5 milhões, para a substituição integral da iluminação interna, auxiliar e das arquibancadas, “de acordo com padrões estabelecidos pela Fifa”, segundo a Prefeitura.

Ao NeoFeed, a Revee informou que “vem cumprindo regularmente todas as obrigações relacionadas ao contrato de concessão”.

“Desde a assinatura do contrato, a companhia já realizou investimentos de R$ 21,8 milhões, entre capex, opex e eventos próprios, valores devidamente auditados”, diz a nota.

A empresa afirmou ter efetuado pagamento de R$ 11,5 milhões como outorga fixa e variável, sendo R$ 10 milhões no momento da assinatura do contrato.

A Revee também disse que vem detalhando à comissão de fiscalização da Prefeitura todas as ações da concessão, e que não enxerga risco de rompimento do contrato.

“A companhia reitera seu compromisso com a continuidade dos investimentos e com o cumprimento integral do contrato de concessão”, completou.

A Prefeitura de Araraquara foi procurada pelo NeoFeed para comentar se pretende cobrar explicações da Revee e se há chance de rompimento do contrato, mas não houve resposta até a publicação da reportagem.