A Vulcabras vem batendo recordes há cinco anos e meio. Com 22 trimestres consecutivos de crescimento, a sequência parece ir além do esperado para uma fabricante de roupas e calçados esportivos.

"Nosso setor está mais em evidência. O cuidado com a saúde e as corridas têm aumentado. Mas a Vulcabras continua rentabilizando todos os investimentos que fez", diz Pedro Bartelle, CEO da Vulcabras, ao NeoFeed.

No acumulado do ano, a companhia registrou faturamento bruto de R$ 4,2 bilhões, crescimento de 16,7% em relação a 2024. O Ebitda recorrente totalizou R$ 763,1 milhões, uma alta de 13% na comparação anual, com margem de 21,4%. E o lucro líquido recorrente foi de R$ 572,9 milhões, com margem de 16,1%.

Mesmo com números em expansão, os analistas de mercado chegaram a pressionar a Vulcabras em razão da queda de margens. Esse questionamento, que teve início no fim de 2024 e durou até o segundo trimestre do ano passado, tinha uma explicação.

O alto índice de absenteísmo - índice de ausência de funcionários no trabalho - nas fábricas obrigou a companhia a acelerar contratações em ritmo acima do planejado para suprir a demanda crescente. Mais gente na linha de produção, em fase de treinamento, significou mais custo e menos eficiência por unidade produzida.

A Vulcabras manteve o discurso que o custo era consciente e temporário. "Explicamos que a queda de margem foi ocasionada por uma contratação acelerada de pessoal para suprir uma demanda grande que tínhamos. Era algo consciente que a gente reportava como temporário", diz Bartelle.

No quatro trimestre de 2025, a empresa entregou margem bruta de 41,4% e Ebitda de 21,9%, praticamente de volta ao patamar histórico.

Trajetória de 2026

Se 2025 consolidou a trajetória de crescimento, este ano começou com um dado que surpreendeu a Vulcabras, em termos de volume. A carteira de pedidos para o primeiro semestre foi montada ainda no ano anterior.

"É algo que não é normal para nós ver uma quantidade grande de pedidos montada no ano anterior, de produtos que ainda não tínhamos nem lançado", diz o CEO.

O CEO atribui esse movimento à confiança do varejo nas marcas da Vulcabras (especialmente na Olympikus). A linha Corre foi a sexta palavra mais buscada no Google Brasil em 2025 e pelo terceiro ano consecutivo o modelo é o tênis mais utilizado por corredores brasileiros, segundo pesquisa do aplicativo Strava.

"A confiança está muito grande. Se a gente falar 'olha o Corre 5, entregamos daqui a um mês', e não mostrar nada, eles fazem o pedido igual", diz Bartelle.

A estrutura para sustentar o próximo ciclo de crescimento, em 2026 e 2027, está montada. A Vulcabras encerrou um ciclo de investimento de R$ 600 milhões em tecnologia e inovação, que teve início a cinco anos.

Fazem parte desse processo de modernização o centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em Parobé, no Rio Grande do Sul, que é considerado o maior da América Latina no segmento, e a expansão das fábricas no Ceará e na Bahia.

Além desse montante, a companhia mantém um investimento recorrente anual de cerca de R$ 150 milhões em manutenção e modernização do parque fabril, seja em novas ferramentas e manutenção de equipamentos seja para aquisição de máquinas.

O resultado desse ciclo é uma operação que hoje não tem ociosidade. A capacidade de internalização é de 100% para a Olympikus e acima de 80% para Mizuno e Under Armour, as outras duas marcas que compõem o portfólio da Vulcabras - com produção total de 110 mil itens por dia.

"Nos estruturamos para crescer nos próximos dois anos, pelo menos. E em ritmo muito parecido com o que viemos crescendo, que são 22 trimestres consecutivos", afirma Bartelle.

E os dividendos?

A reforma tributária sobre dividendos teve impacto na estratégia de alocação de capital da companhia. Em 2025, antecipando a taxação sobre dividendos, a Vulcabras acelerou sua agenda de distribuições.

O total distribuído superou R$ 1,5 bilhão, dos quais R$ 563,3 milhões retornaram ao caixa via subscrição privada concluída em dezembro de 2025.

O resultado desse processo foi que a companhia encerrou o ano com dívida líquida de 0,9 vez o Ebitda. Nos últimos três anos, a Vulcabras vinha operando com caixa líquido.

"Vivendo no Brasil, onde a taxa de juros já faz dois anos que está para cair e não cai, e com um 2026 no mínimo volátil. Devemos focar muito mais na liquidação do endividamento do que na sustentação de uma agenda de distribuição ao longo do ano", diz Wagner Dantas, CFO da Vulcabras.

A meta é encerrar 2026 com dívida líquida próxima de zero. Para isso, a companhia utilizará a geração de caixa do ano para quitar dívidas de curto prazo, mantendo apenas uma debênture captada em julho de 2025 - com prazo de 5 anos, com 2 anos de carência e custo de CDI+0,6%.

"Já para 2027, a gente volta a trabalhar próximo de caixa líquido, com geração de caixa que vai trazer excedentes, e devemos retomar uma agenda mais ativa na distribuição de dividendos", afirma o CFO.

Bartelle reforça que toda a movimentação (distribuição, aumento de capital e alavancagem momentânea) foi planejada de forma a não comprometer as necessidades de crescimento orgânico da companhia.

A ação VULC3 acumula queda de 9,9% neste ano. Em 12 meses, a alta é de 18,3%. O valor de mercado da companhia é de R$ 5,7 bilhões.