Brasília - Após a reunião que ultrapassou 11 horas entre o presidente do BRB, Nelson de Souza, e deputados distritais, ficou evidente que o banco público de Brasília, envolvido na crise do Banco Master, não tem “plano B” para se capitalizar a não ser contar com a boa vontade do Legislativo local para aprovar o polêmico projeto de lei do Governo do Distrito Federal (GDF) para tentar recuperar a instituição financeira.
“Sem aprovação do PL, não temos um norte concreto”, diz uma fonte graduada do BRB. “Pode até ter mudanças no projeto. O que não é possível é não aprová-lo. A maior preocupação do BRB, hoje, é a sua existência.”
Federalizar ou privatizar o banco não está sob cogitação, segundo Souza sinalizou ontem aos parlamentares a portas fechadas, apurou o NeoFeed.
Caso o PL não seja de fato aprovado diante de resistências, restaria os outros itens do cardápio de soluções entregue ao Banco Central, mas que são consideradas insuficientes: vender ativos adquiridos do Master (como prédios, carteiras de crédito como consignado, etc); negociar um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC); levantar outro empréstimo, por meio de um consórcio de bancos privados que está sendo formado; e criar um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) formado por imóveis do GDF.
Ainda assim, lembra a fonte, mesmo essas outras medidas também precisariam ser aprovadas pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Ou seja, o BRB está refém dos parlamentares distritais. “Parte das medidas, se o PL não for aprovado, dependeria de outro PL, nem que fosse para autorizar um empréstimo.”
Na tarde desta terça-feira, 3 de março, acontece uma reunião do colégio de líderes da Câmara Legislativa do Distrito Federal para decidir se a proposta encaminhada pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), será ou não votada.
Por um lado, a base aliada do GDF tenta agora colocar em votação o projeto, depois de até deputados governistas manifestarem preocupação nos últimos dias e desconfiarem que o texto não seria suficiente para recuperar as finanças do BRB. “Nosso objetivo principal é salvar o banco”, disse ontem o presidente da CLDF, Welligton Luiz (MDB).
Em outra frente, porém, a oposição pede transparência do governo local e do próprio BRB, alegando que os nove imóveis oferecidos como garantia para o banco tomar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões não cobrem o rombo estimado em mais de R$ 8 bilhões, conforme os dados mais atualizados e divulgados ontem por Souza. Na primeira versão do projeto, no entanto – foram encaminhadas duas até agora -, o governo previa 12 imóveis, que incluíam prédio abandonado e parque ambiental.
“Ele mesmo [o presidente do BRB] chegou a dizer ontem pra gente: os R$ 6 bilhões não salvam o BRB. Eles ajudam o BRB a permanecer de pé”, diz o deputado distrital Gabriel Magno (PT) ao NeoFeed.
“E o BRB ainda tem R$ 21,9 bilhões em carteira do banco Master, que o banco não consegue vender, ninguém quer comprar. Então esse rombo, esse prejuízo, pode ficar ainda maior, num tamanho estratosférico”, complementa.
Magno e os demais integrantes da oposição chamam a atenção que é preciso cautela para que os distritais não cometam novo erro: no ano passado, a própria Câmara Distrital chegou a aprovar a compra de parte do Master pelo BRB. Depois, porém, o BC barrou a transação e meses depois a Polícia Federal deflagrou a operação Compliance Zero.
As investigações policiais culminaram na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e no afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro à época, Dario Oswaldo Garcia.
“Temos um estudo aqui que mostra que esses imóveis avaliados em R$ 6 bilhões podem chegar a R$ 21 bilhões. Se o projeto ficar como ele está colocado, o Distrito Federal perde quase três vezes em patrimônio público”, afirmou a deputada distrital, Paula Belmonte (PSDB). “Então nós hoje temos um compromisso responsável de salvar o BRB, mas não dilapidar novamente o patrimônio do Distrito Federal.”
A conta do rombo
Além do projeto de lei do GDF que pede autorização para a Câmara Distrital aprovar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões, dando imóveis públicos do governo local como garantia, o BRB também já convocou seus acionistas para votarem em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), em 18 de março, um aumento de capital social de R$ 8,8 bilhões para a instituição financeira.
Para o pretendido aumento de capital, o BRB faria uma oferta de suas ações mediante subscrição privada mínima de R$ 529 milhões. Para isso será emitido um valor de até 1,675 bilhão de ações ordinárias a um preço fixo em R$ 5,29 para cada ação, conforme informou o banco ao mercado.
Além disso, o BRB vem tentando vender carteiras de crédito a bancos privados e até carteiras de crédito imobiliário para a Caixa, apurou o NeoFeed.
A crise de reputação e imagem por que passam o banco público de Brasília, no entanto, vem dificultando o movimento, que inclusive vem sendo conduzido pessoalmente pelo presidente Nelson de Souza.