Brasília - À medida em que encurta o prazo de seis meses combinado com o Banco Central para que o BRB execute seu plano de recuperação no meio da crise do Banco Master, a tensão aumenta no banco público de Brasília, que gostaria de contar com mais tempo para conseguir essa capitalização, disseram fontes da alta cúpula ouvidas pelo NeoFeed nos últimos dias.

O clima interno, na gestão do presidente Nelson de Souza, é de muita pressão para “salvar o banco”, três meses após a operação da Polícia Federal que afastou seu então presidente e diretor financeiro.

“O tempo é nosso inimigo. Precisamos de coisas rápidas e não sei se vamos conseguir [a curto prazo]”, diz uma fonte interna. “É uma bomba todo dia, uma atrás da outra, decorrente do Caso Master.”

Na prática, além de evitar a possibilidade de um aporte do Governo do Distrito Federal (GDF) - controlador do banco -, que pode chegar a até R$ 6 bilhões, o pior cenário para o BRB seria, esgotadas todas as alternativas sobre a mesa, sua liquidação pelo BC: mesmo fim de Master e fundos e bancos contaminados no caso, como Reag, will bank e Banco Pleno. Seria a medida mais “traumática”.

“Na minha óptica, o BC não tem interesse em liquidar o BRB por conta do risco sistêmico e de uma crise para o sistema financeiro. Quem aporta mais para FGC [Fundo Garantidor de Crédito] são os grandes bancos. A última ação seria liquidar o banco”, diz uma fonte a par das negociações.

No entanto, em tese, se o plano de capitalização não der certo, ele ainda pode sofrer intervenção do BC, numa alternativa que a autoridade monetária pode adotar antes de precisar liquidar o banco. Nessa hipótese, toda a direção do BRB seria afastada, incluindo a diretoria, membros do Conselho de Administração e o presidente.

A medida seria uma das mais drásticas, mas ainda haveria a opção da federalização do banco, em que o governo federal assumiria a instituição estatal, que passaria a ser gerida pela Caixa. Essa hipótese é tratada como tabu dentro do BRB e não vem sendo discutida pela alta direção, disseram duas fontes do banco ao NeoFeed .

A avaliação é que federalizar um banco regional seria um grande ônus dada a enorme quantidade de riscos envolvidos, o que seria ainda mais grave em um ano de eleição presidencial e um risco político muito grande para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no caso.

Todo o esforço atualmente está sendo para evitar todas as alternativas listadas acima. Mas antes disso, o banco ainda corre literalmente contra o tempo para vender ativos adquiridos do Master (como prédios, carteiras de crédito como consignado, etc); negociar um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC); levantar outro empréstimo, por meio de um consórcio de bancos privados que está sendo formado; e criar um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) formado por imóveis do GDF. E também passou-se a cogitar até venda de Dívida Ativa do GDF para capitalizar o banco. Tudo precisaria ser aprovado pela assembleia local.

Na sexta-feira, 20 de fevereiro, o governador Ibaneis Rocha (MDB), encaminhou para a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) um projeto de lei para autorizar esse plano, mas que já causa desconfiança e desgastes junto à base governista no Legislativo local. O projeto, se aprovado, autoriza o governo local a adotar medidas para recompor, reforçar ou ampliar o patrimônio líquido e o capital social do BRB.

O governo distrital possui ampla maioria entre os deputados distritais (17 governistas contra sete de oposição ou independentes). No entanto, o NeoFeed apurou que até mesmo entre os aliados de Ibaneis há desconforto em votar o PL. A principal resistência inicial seria a lista de 12 imóveis que o GDF apresenta como garantia para parte do plano de recompor capital do BRB.

Na lista, há prédios abandonados e até áreas de preservação ambiental. Além do mais, ainda há dúvida dentro do próprio banco público se a venda de todos esses imóveis renderia realmente algo em torno de R$ 2 bilhões, como estima a administração distrital.

Outra fonte do BRB consultada pelo NeoFeed também lembra que a venda de imóveis não traria efeitos de alívio financeiro relevantes segundo o índice de Basileia, conjunto de regras que instituições financeiras precisam seguir no mundo todo. Mas a liderança do governo Ibaneis na câmara distrital já tem declarado que se o projeto não for aprovado, há risco de federalização.

Em nota, o BRB disse que o pedido de autorização à Câmara Legislativa do Distrito Federal se soma a medidas que "já estão sendo implementadas pela nova diretoria do BRB para garantir liquidez e fortalecer o capital. O objetivo prioritário é assegurar robustez dos indicadores financeiros do Banco e garantir a continuidade dos serviços prestados à sociedade".

“O Banco segue operando normalmente, com solidez, transparência e governança reforçada, mantendo diálogo constante com o Banco Central e demais órgãos de controle. A comunicação com o mercado e com a sociedade seguirá sendo feita de forma transparente, acompanhando o andamento dos trâmites na CLDF e a implementação das demais iniciativas previstas no plano.”