Reportagem atualizada às 18h20
Brasília e São Paulo - Nos últimos tempos, o presidente Lula tem se esforçado em jogar gasolina no Congresso e no mercado financeiro. Uma declaração aqui, outra ali, já fazia parte do dia a dia. Mas hoje Lula se superou e jogou muitos galões de combustível nas fogueiras da política e da economia.
Inesperadamente, o presidente anunciou a deputada e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, para a Secretaria de Relações Institucionais, ou seja, a responsável pela articulação política. A mesma Gleisi que tem “queimado” Fernando Haddad a todo momento será a ministra que conduzirá as negociações do governo na Câmara dos Deputados e no Senado.
A notícia gerou tensão em Brasília e causou calafrios na Faria Lima. Assim que o nome de Gleisi foi anunciado, o Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores brasileira, acelerou sua queda no pregou e chegou a bater em -1,7% às 15h30. No fim do dia, o índice da B3 fechou com recuo de 1,36%, aos 123.096 pontos.
"Pior impossível. Acho que a relação com o Congresso vai piorar e vamos ter problemas", diz um dos mais respeitados gestores da Faria Lima.
O NeoFeed procurou uma dezena de profissionais de mercado que demonstram o ceticismo do mercado financeiro com a escolha do Presidente da República.
"Ela não é uma pessoa querida em nenhum outro partido. Não tem o jogo de cintura que deveria ter para o cargo. É meio chocante", diz um gestor de ações.
"É bizarro! Sinceramente, cada vez mais eles vão tentar fazer o possível e o impossível para a popularidade. A Gleisi chama mais pressão no dólar, nos juros e piora o ciclo de inflação", afirma o CIO de uma das maiores gestoras do País.
Um banqueiro complementou: "Não é a melhor pessoa para negociar politicamente. Me parece um sinal que ele vai focar na bolha dele e nas ações populistas. Vai entregar o futuro do Brasil para aumentar sua popularidade".
Outro banqueiro foi além: “Todo partido tem sua dinâmica interna. Gleisi é um nome muito relevante dentro do PT e tem bastante proximidade com o presidente, portanto não foi uma nomeação surpreendente. Mas não é algo que ajude numa aproximação com o setor privado, o qual ela sempre combate. Acho que só fortalece o lado ideológico do governo em detrimento do pragmatismo que deveria estar sendo perseguido. Por isso o mercado reagiu mal”.
No mercado financeiro, a leitura é que o governo já não tinha tanta facilidade para negociar com a Câmara e com o Senado. E com Gleisi a situação pode ser ainda pior. Volta à pauta, por exemplo, a aprovação da isenção do Imposto de Renda para pessoas físicas com salários de até R$ 5 mil, o que era uma promessa de campanha do presidente Lula.
“O presidente continua se cercando do núcleo duro do PT, enquanto a sua popularidade vem caindo não só na Faria Lima, mas também na Bahia e em Pernambuco. Me parece que a Gleisi não tem preparo para negociar com o Congresso. Para dar certo, ela teria que tirar chapéu do partido e ser mais institucional”, afirma um gestor
Em Brasília, parlamentares se diziam atônitos. O anúncio inesperado de Lula levou políticos a não desgrudar dos telefones celulares. A avaliação mais comum era que a deputada não tem o perfil de articulação política e criou um arco de crises da Fazenda aos ministérios comandados pelo Centrão, incluindo na cesta partidos de esquerda, como o PSB.
Segundo o NeoFeed apurou, a própria Gleisi chegou a dizer que não teria perfil para a vaga quando o nome dela foi cogitado para substituir Alexandre Padilha, que deixou a SRI para assumir o Ministério da Saúde.
“Lula confirmou o que já se sabia, ele não quer mais ser contrariado. Gleisi estava como presidente do PT para fazer o que Lula queria, vai fazer o mesmo no governo, e, pior, gera tensão com os aliados”, disse um congressista do Centrão.
“Lula está cumprindo o roteiro de uma queda às vésperas de partidos, como o PP, anunciarem desembarques”, disse um parlamentar petista. “Podia ter colocado Silvinho (Silvio Costa Filho, atual ministro de Portos e Aeroportos), chamado alguém do próprio Progressistas, do PSD, mas não escolheu uma carbonária”, continuou.
Gleisi foi ministra da Casa Civil do governo Dilma Rousseff de junho de 2011 a fevereiro de 2014, quando se candidatou ao governo do Paraná, ficando em terceiro lugar. Na sequência voltou ao Senado - ela havia sido eleita em 2010. No Congresso assistiu ao impeachment de Dilma, que não teve capacidade de negociação política com os partidos no Congresso.
Na Faria Lima, o chamado “trade eleições”, que já tinha entrado na dinâmica de negociação do mercado, ganhou ainda mais força.
“É ótima a notícia a médio prazo porque cada vez mais o Lula vai ficar isolado. A casa está caindo. Pode fazer uma besteira de curto prazo, mas aí é pá de cal. A decisão foi muito ruim."
“Pensando em 2026, esse tiro no pé pode ser bom para o mercado que espera a ascensão de alguém de direita. Agora, é dólar para cima e bolsa para baixo”, diz o CIO de um fundo de pensão fechado.
Mas, como disse o gestor de um grande banco: “Cautela. Ainda é cedo, as coisas podem piorar muito antes de melhorar”.
Com a colaboração de Carlos Sambrana, Ralphe Manzoni Jr., Márcio Kroehn, Guilherme Guilherme e Letycia Cardoso