Quem corre sabe: forçar o ritmo cedo demais costuma cobrar o esforço lá na frente. No comando da Track&Field, Fernando Tracanella aplica essa lógica das pistas nos negócios ao conduzir a companhia a um crescimento contínuo e controlado, sem deixar de ter avanços nos resultados trimestre após trimestre.
CEO da companhia desde 2023, Tracanella trouxe para a marca de moda esportiva o que aplicou no varejo alimentar - ele trabalhou por 17 anos no Grupo Pão de Açúcar.
“Tenho uma bagagem financeira, essa parte de planejamento, de indicadores, de gestão do dia a dia. E trago muito do varejo alimentício que, diferentemente do nosso, é um segmento de margens muito apertadas. Isso me ajudou bastante na Track&Field”, diz Tracanella, em entrevista ao Call de Negócios.
O conservadorismo nas decisões aparece de forma clara no ritmo de expansão da rede - hoje com mais de 400 lojas. A Track&Field vem abrindo, em média, cerca de 40 lojas por ano, número que Tracanella diz que pretende manter.
“Preferimos dosar mais nossa velocidade de crescimento e acertar o máximo possível na escolha do ponto e do franqueado”, afirma ele, ao programa do NeoFeed.
Além da abertura de novas unidades, a companhia tem apostado fortemente na reforma desses espaços, o que favorece tanto o aumento de fluxo de clientes como um tíquete médio maior, impulsionado pela exposição mais eficiente dos produtos.
Algumas, inclusive, têm ganhado unidades do TFC, que funciona como café e minimercado de alimentação saudável, a fim de ampliar o tempo de permanência e a relação do cliente com a marca. “As lojas reformadas crescem ao dobro da velocidade das vendas das mesmas lojas”, disse o CEO.
No terceiro trimestre de 2025, o sell out chegou a R$ 442 milhões, alta de 28,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida consolidada somou R$ 268,5 milhões, avanço de 31,4%, enquanto o lucro líquido ajustado cresceu 30%, para R$ 35 milhões. A companhia encerrou o período com 417 lojas em operação e sem endividamento.
O mercado aguarda resultados consistentes no balanço que será divulgado na segunda-feira, 9 de março. A leitura predominante dos analistas é de continuidade do "pace": crescimento orgânico, expansão controlada da rede e manutenção das margens, em linha com o padrão entregue nos últimos trimestres.
Para Danniela Eiger, analista da XP, essa característica faz da Track&Field uma típica “empresa de dono”. Cerca de 95% das ações estão nas mãos dos controladores, o que, na visão da analista, tem dois lados. “É positivo porque são empresários que acreditam no próprio negócio e pensam no longo prazo”, diz ela.
Por outro lado, essa concentração reduz a liquidez do papel, afastando parte dos investidores institucionais e limitando o interesse de fundos que exigem maior volume de negociação.
No digital, o crescimento segue a mesma lógica de evolução progressiva. Antes da pandemia, o e-commerce representava apenas 3% das vendas da Track&Field. Hoje, responde por cerca de 11%, em um negócio que praticamente quadruplicou de tamanho. Além disso, a companhia vem ampliando seu ecossistema com o TF Mall, marketplace de artigos esportivos com curadoria da marca, como relógios GPS para corredores, tênis técnicos, raquetes e óculos esportivos
Com valorização de quase 90% da ação TFCO4 desde o IPO, em outubro de 2020, a Track&Field parece disputar uma prova de resistência, apostando em um ritmo constante para não fadigar antes da linha de chegada.