Desde a deflagração da Operação Carbono Oculto em agosto de 2025, o império que a Reag construiu nos últimos cinco anos de forma tão acelerada ruiu. De 2020 até meados do ano passado, a empresa criada por João Carlos Mansur cresceu de cerca de R$ 25 bilhões sob gestão para R$ 340 bilhões sob gestão e administração, mas em poucos meses esse castelo desmoronou.
Na manhã desta quinta-feira, 15 de janeiro, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da sua distribuidora de títulos e valores mobiliários CBSF (antiga Reag Investimentos), investigada no Caso Master. Em paralelo a esse movimento, assets e gestoras de patrimônio adquiridas pela empresa de Mansur tentam seguir suas vidas e apagar essa passagem da sua história.
E não são poucas empresas. A Reag adquiriu mais de 15 ativos nos últimos anos. Ela tinha, por exemplo, planos de se tornar uma grande casa de wealth management. Em 2023, comprou parte da Hapier Investimentos e da Quadrante Investimentos. No ano seguinte, adquiriu a Berkana Investimentos e a Hieron Patrimônio Familiar.
Como as aquisições foram feitas a prazos, com pagamentos em até quatro anos, após a operação da Polícia Federal ficou claro que a empresa de Mansur não iria concluir os pagamentos. Por isso, foi acordada a recompra dos negócios.
Após a recompra, outro movimento começou a se desenhar: os grupos de gestão de patrimônio estão encaminhando mudanças em suas governanças e, para virar a página, alguns planejam um rebranding ou seguir com outra empresa.
A Reag Investimentos, por exemplo, passou a ser chamada de Arandu Investimentos, tendo como controladores os ex-sócios fundadores da Hapier, Dario Graziato Tanure (que não tem ligação com Nelson Tanure), Felipe Oppenheimer Pitanga Borges e Cedro Participações.
A empresa estava ligada societariamente às outras adquiridas. Na quarta-feira, 14 de janeiro, a empresa por meio de um fato relevante anunciou a alienação da Hieron Investimentos, de Robert van Dijk, e da Quadrante Investimentos, de Álvaro Marangoni, retirando as últimas amarras. Há um mês, a CVPAR assinou um memorando de entendimento para a compra da Quadrante e da Hieron.
No mesmo dia, a Reag Investimentos anunciou que celebrou um acordo para a venda da Berkana ao seu ex-controlador, Luiz Lima. Segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed, a empresa pretende voltar a operar sozinha sob a sua marca de origem.
Pessoas ouvidas pela reportagem ligadas ao mercado de wealth afirmam que a operação de gestão de fortunas da Reag sofreu nos últimos meses com a saída de algumas famílias após a deflagração da operação da PF. E que os seus desmembramentos irão sofrer com uma crise de confiança.
Na visão do mercado, eram casas e pessoas extremamente respeitadas no mercado financeiro que, pelo acirramento do mercado de wealth, viram uma oportunidade de entrar em um grande conglomerado e ganhar escala.
Todos achavam a Reag suspeita, mas ela conseguiu atrair pessoas competentes, que podem ter dado uma segurança para esses executivos entrarem. O fato de os negócios serem desconhecidos é normal para a indústria de wealth, em que famílias gostam de ficar no anonimato com seus negócios.
“O problema é que gestão de patrimônio é basicamente confiança dos clientes. Agora vai depender da relação que eles têm com a casa e com as pessoas que lá estão para ficarem, mas houve uma mancha importante com essa associação”, afirma um gestor de patrimônio, que não quis se identificar.
Um ponto a favor delas é que os fundos exclusivos dos clientes nunca passaram a ter administração da Reag, continuaram com os grandes bancos que as famílias já tinham relacionamento. Mostrando que havia independência na operação, como era antes. Inclusive, não há relatos de clientes com CDBs do banco Master.
Pessoas próximas aos executivos afirmam que o sentimento deles é de ser vítima, tendo acreditado no projeto, emprestado a sua reputação e agora têm de lidar com essa mancha na sua trajetória, correndo para virar a página logo.
A Reag adquiriu também as gestoras de recursos Empírica e Quasar Asset Management em 2024. A primeira foi vendida poucos dias após a Operação Carbono Oculto para a Smart Hub Participações, holding da SRM Asset, que passará a ter R$ 7 bilhões sob gestão.
A Quasar Asset Management, por sua vez, continua dentro da Reag. Assim como a plataforma BizHub Ventures, da Alvarez & Marsal, adquirida para marcar entrada em venture capital, em linha com o lançamento da Reag Growth & Ventures.
Segundo pessoas do mercado, as duas assets estavam com problemas de marcações a mercado e descasamento de ativos com passivos. A Reag apareceu como uma solução em um momento ruim para M&As.
Mas ao que parece elas não conseguiram captar muito desde que entraram no sistema e, depois das investigações envolvendo a firma de Mansur, estavam sofrendo resgastes.
Mas as suas chances de seguirem com outro nome e em outro lugar é grande. “São bons gestores. Um rebranding e se unindo a outra casa já tira o rastro. As decisões de alocação são de gestores profissionais”, explica um alocador do mercado.
Uma venda já transacionada é a da Ciabrasf – Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (ligada à administração fiduciária, custódia e estruturação) para B100 Controle e Participações, holding do Grupo Planner, concluída em 6 de janeiro.
A empresa havia sido listada na B3 por meio de um IPO reverso da própria Reag, contendo mais de 700 fundos e patrimônio líquido próximo de R$ 240 bilhões sob administração.
Outros IPOs reversos seguem na holding. A Revee, empresa de real estate cujo modelo de negócios é baseado na revitalização de ativos imobiliários, listada em abril, e a Belora RDVC City, empresa de serviços imobiliários que chegou à bolsa em junho do ano passado.
Enquanto o primeiro IPO reverso, que transformou a GetNinjas na Reag Investimentos, teve uma parte liquidada nesta quinta-feira já rebatizada de CBSF Distribuidora de Títulos e Valores.
Procurada, a Reag afirmou que não iria comentar ou dar entrevista.