O mercado de consultorias de investimento está crescendo em ritmo acelerado. Caso esse ritmo se acelere com a entrada de bancos nas plataformas de wealth services, a perspectiva é que o número de consultores pode ultrapassar o de assessores até 2030.
Essa é a conclusão de um levantamento da consultoria AAWZ, que o NeoFeed teve acesso em primeira mão. O número de novas empresas de consultoria aumentou 66%, contra 10% de crescimento das assessorias entre 2023 e 2025, mostra o estudo, que utilizou dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que registra oficialmente os consultores, e da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord), que registra oficialmente os assessores de investimento.
O contraste fica ainda mais evidente quando se olha para a dinâmica de abertura e encerramento de empresas. Segundo o relatório, o registro mensal de novas consultorias dobrou de 2023 a 2025, com a média chegando a 14 por mês em 2025, enquanto o nível de cancelamento se manteve estável em 30% ao longo do tempo.
Já do lado das assessorias, 2025 aparece como o ponto de maior contração: o percentual de casas encerradas em relação às fundadas chegou a 89%, levando o saldo líquido ao menor nível histórico.
Os dados apontam também que a consultoria não está só crescendo mais do que as assessorias, mas que as assessorias estão criando suas próprias consultorias. AAWZ identificou que cerca de 25% do crescimento das consultorias teria sido puxado por grupos originários do ecossistema de assessoria. Em 2025, das 162 consultorias (PJ) fundadas, 37 teriam sido abertas por ex-assessores — média de três por mês.
Para além do crescimento de CNPJs, o número de profissionais consultores tem de fato explodido acima dos registros oficiais. Para averiguar isso, a AAWZ investigou diretamente as consultorias para capturar um universo que não aparece por completo na CVM.
Isso porque, por norma, os consultores podem atuar sem estarem registrados na CVM, desde que possuam algumas certificações e estejam amparados pelo modelo de atuação adotado pelas casas. O que, na prática, cria uma subcontagem quando o mercado olha apenas para os dados oficiais.
“Analisamos sites, redes sociais e dados abertos de todas as consultorias do Brasil para entender como estava a atuação e o seu número de profissionais e o resultado foi surpreendente. Estimamos que o número atual real de consultores em atividade é cerca de 68% maior do que o total de profissionais registrados na CVM”, afirma Filipe Medeiros, CEO e fundador da AAWZ, ao NeoFeed.
O levantamento mostra que o número de consultores registrados na CVM sobe pouco mais de 200% entre 2021 e 2025, de 701 para 2.135. No mesmo período, os consultores certificados analisados pela consultoria cresceu de 1.179 para 3.592. Para a AAWZ, a diferença absoluta sustenta a tese de que olhar apenas a CVM subestima o tamanho do mercado.
A consultoria afirma ainda que em média 60% dos novos consultores atuam sem estarem registrados na CVM. O número de novos consultores certificados e atuando no setor está em 93 por mês, dos quais aproximadamente 20 são ex-assessores de investimentos.
Na leitura da casa, essa diferença muda a narrativa sobre a transição do mercado: quando se observa a migração de profissionais do ecossistema de assessoria para consultoria, o volume teria mais do que dobrado em 2025 em relação ao que aparece apenas pelos registros formais.
Em nota assinada por Guilherme Sant'Anna, diretor de canais, a XP pondera que os dados de assessoria da Ancord também não mostram a realidade.
"Após mudanças regulatórias que permitiram a entrada de sócios capitalistas nos escritórios, muitos profissionais que não atuam diretamente no atendimento passaram a se declarar não atuantes ou tiveram seus vínculos cancelados, o que reduz o número total divulgado, mas não o volume de assessores comerciais em atividade. Além disso, há um movimento de profissionalização do setor, com escritórios estruturando operações digitais e contratando profissionais em regime CLT, dinâmica que também não aparece nesses recortes", escreve o diretor de canais da XP.
Ele complementa: "A XP adota um modelo agnóstico, no qual o cliente tem liberdade para escolher tanto o formato de atendimento quanto o modelo de remuneração que melhor se adequa ao seu perfil. A convivência entre assessoria, consultoria e outras formas de atendimento reflete a maturidade do mercado e amplia as opções e a qualidade da orientação oferecida ao investidor".
Procurado, o BTG não quis comentar.
O que está por trás da migração
A migração de assessores para o modelo de consultoria tem um impulso do novo cenário do mercado e econômico. Os clientes têm buscado e aderido mais à cobrança pelo modelo de fee fixo desde 2024, segundo o relatório da AAWZ.
Além disso, as maiores plataformas do mercado, XP e BTG, anunciaram um novo conjunto de regras para os assessores que quiserem atuar na cobrança direto aos clientes (fee fixo), com uma cobrança por usar a plataforma. Enquanto no modelo de consultoria há maior liberdade para fixar os valores com o cliente e a relação com a plataforma como fornecedor é outra.
“Estamos vendo uma virada no mercado de investimento. O cliente sabe que não existe assessoria de graça e o modelo de fee fixo está mais inaceitável, e os assessores também estão querendo também atuar neste modelo. Mas as plataformas têm apertado a cobrança como assessoria, tornando a consultoria uma opção mais fluida para assessores que querem se tornar majoritariamente fee based”, diz Medeiros.
E, olhando à frente, a AAWZ projeta que o desequilíbrio entre os dois mundos tende a diminuir. Mantendo-se os padrões de crescimento de ambos os mercados, a relação assessores/consultores cairia de 6 para 1 em 2024 para 2 para 1 em 2030. Mas a perspectiva é que a diferença de crescimento se acelere com a entrada dos grandes bancos neste mercado de wealth service, puxando para o crescimento das consultorias e fazendo os consultores já serem maioria nesta data.
Como o NeoFeed mostrou em primeira mão em novembro passado, os grandes bancos estão em vias de entrar no mercado B2B pelo modelo de consultorias. O Safra já tem a sua plataforma e está integrando aos poucos ao mercado e o Itaú estaria prestes a lançar, assim como outros bancos, que também tem projetos similares.