Por décadas, o private equity foi tratado como necessário para retornos acima da média em investimentos de longo prazo. Agora, as referências desse modelo, os endowments americanos, estão revendo essa estratégia e colocando na mesa se a era de ouro da classe de ativo já acabou, e revisando o seu percentual no portfólio.

Agora em fevereiro, o endowment de Princeton publicou em sua carta anual que reduziu sua expectativa de retorno de longo prazo de 10,2% para 8%. O motivo foi atribuído justamente ao desempenho mais fraco do private equity.

O gesto de Princeton pesa mais porque não vem isolado. Yale, a universidade que ajudou a transformar o private equity em referência global, também começou a reduzir sua alocação, com a venda parcial de cerca de US$ 3 bilhões, o equivalente a 15% da exposição à classe, em 2025.

Para entender quanto o private equity está trazendo de retorno, o family office Longview Capital analisou os resultados de Yale, que ainda tem a maior alocação com algo entre 35% e 40%, com Norges, fundo soberano da Noruega, que decidiu ter exposição zero, e o Maple Model, modelo do fundo de pensão canadense, que tem 20% de alocação.

Yale tinha retorno anualizado de 11,1% no último ano e de 9,4% em dez anos. O Norges, da Noruega, aparecia com 15,1% no último ano e 8,5% em dez anos. Enquanto o Maple Model, do Canadá, teve retorno de 7,1% no último ano e de 6,9% anualizado nos últimos dez anos. Resultado que mostra que a classe não tem dado o melhor retorno - ainda mais considerando o risco que agrega.

“O fato de Yale e outros endowments terem diminuído sua alocação em PE no ano passado talvez seja o melhor indício da sua visão sobre os retornos prospectivos para a classe de investimentos como um todo, em linha com a decisão do Norges de não alocar em PE, mas sim em ações listadas”, afirma Enio Shinohara, sócio-fundador e diretor de gestão da Longview Capital.

A análise do estudo também mostra trabalhos de Ludovic Phalippou, de Oxford, para sustentar que os retornos efetivos obtidos por Yale e outros endowments em private equity, especialmente em buyout, ficaram apenas ligeiramente acima dos índices de ações listadas. E mostra que a classe consome de 5% a 6% ao ano em taxas.

Exatamente por isso, o Norges, maior fundo soberano do mundo, aposta hoje em beta, liquidez e custo baixo. Depois de discutir o tema, concluiu que o retorno adicional prometido pelo private equity não compensava os riscos, e manteve alocação zero na classe.

Para Shinohara, outra diferença entre eles é em termos de transparência. Yale deixou de divulgar o asset allocation e detalhes da performance por classe de ativos desde 2021, quando David Swensen morreu. Já o Norges tem por outro lado uma política de transparência quase total.

E essa diferença causa curiosidade, dado que Yale gere US$ 44 bilhões e o Norges, mais de US$ 2 trilhões, sendo esperado exatamente o contrário - a não ser que se queira esconder de onde vêm os resultados.

Trazendo esses resultados para family offices e qual deve ser a alocação em private equity, a Longview ressalta que não ter nenhuma exposição a private equity pode ser um erro, especialmente num mercado em que a distância entre os melhores e os piores gestores é enorme.

Mas faz um alerta igualmente importante: family offices não são endowments. Sem entradas recorrentes, tendem a precisar de mais liquidez, mais controle de custos e menos fetiche com a terceirização do patrimônio.

Então não deveriam ter uma exposição tão grande em ativos ilíquidos como Yale, e a parte que têm pode estar distribuída em outras classes que têm dado mais retorno, como Special Situations.

“Certamente parece que é o momento de avaliar o quanto ter da classe no portfólio, em um cenário em que o seu período de ouro passou”, afirma o sócio-fundador e diretor de gestão da Longview.