Falar de Oscar Schmidt sempre mexe comigo. Ele não foi só um grande jogador de basquete, foi alguém que influenciou diretamente a forma como eu enxerguei o esporte e a dedicação desde cedo.

Cresci acompanhando a carreira dele. Eu o vi jogar no E.C. Sírio, depois na Itália, na Espanha e, principalmente, na Seleção Brasileira. Mas o que mais me marcava não era só o talento; era a intensidade, a disciplina e a forma como ele levava o basquete a sério.

Naturalmente, isso virou referência para mim. A camisa 14 deixou de ser só um número e passou a ter um significado. Joguei com o número 14 em todos os lugares onde passei, clubes, seleção paulista… E tive a felicidade de ser campeão brasileiro usando esse número, sempre como uma homenagem a ele.

Tem uma lembrança específica que acabou mudando a minha forma de treinar. Eu tinha uns 12 anos quando fui jogar contra o Sírio. Antes do jogo, vi o treino do time profissional. Quando terminou, todos os jogadores saíram da quadra, menos o Oscar.

Ele ficou. Sozinho, arremessando lance livre sem parar. Em um momento, colocou uma venda nos olhos e continuou arremessando. Era repetição pura, tentando deixar o movimento automático, sem depender de nada além da mecânica. E o mais impressionante: ele acertava quase todos.

Aquilo me marcou muito. Foi quando eu entendi, de verdade, o que era dedicação. A partir dali, comecei a treinar sozinho também, fora dos horários normais. Passei a buscar evolução por conta própria.

Com o tempo, também ouvi muita gente dizer que ele era exigente demais, que cobrava muito dos outros. Mas hoje isso faz total sentido. Em qualquer ambiente competitivo não existe evolução sem cobrança, sem disciplina e sem consistência. Essa lógica não vale só para o esporte.

No mundo dos negócios é parecido. Tem muita gente participando, mas poucos realmente se destacam. Poucos assumem protagonismo de verdade. E, assim como no basquete, isso não vem só de talento, vem de trabalho, preparo e consistência um dia após o outro.

No meu dia a dia na BMP, essa mentalidade de disciplina e repetição está presente. Assim como no esporte, não existe consistência sem processo, sabemos que arremessos forçados e erros acontecem, derrotas acontecem e fazem parte do aprendizado de quem se dedica, de quem cria, de quem desbrava mercados.

Em um ambiente financeiro regulado e competitivo, isso significa atenção aos detalhes, responsabilidade nas decisões e compromisso com padrões elevados, algumas vezes as falhas que não deveriam existir são importantes para o aprendizado, e é aí que o resultado positivo aparece.

Carlos Benitez basquete arquivo pessoal
Carlos Benitez com a camisa 14 da Seleção Paulista de Basquete (Foto: arquivo pessoal)

Essa forma de trabalhar também está ligada à minha formação. Venho de uma família que sempre viveu o basquete de perto, jogando, acompanhando e valorizando o esporte como escola de disciplina e caráter. Isso influenciou diretamente meu jeito de liderar: presença, exemplo e exigência.

Liderar, para mim, é estar junto, participar e mostrar na prática o nível de dedicação esperado do time, criando um ambiente onde cada um entende seu papel e busca evoluir constantemente. E o Oscar sempre representou isso.

Talvez seja difícil aparecer outro igual. Não só pelo que jogava, mas pelo nível de compromisso, pelo amor ao que fazia e pela entrega.

Mesmo sem ter tido a chance de conhecer meu ídolo pessoalmente, ele deixou uma marca muito forte na minha vida.

E tem um outro ponto curioso. Após a sua aposentadoria ele foi morar em Alphaville. Passou a jogar futebol no clube da região. Mesmo fora do basquete, mantinha o mesmo comportamento: era líder até no sorteio dos times do rachão e, pelo que contam, sempre o primeiro a chegar.

Lembro também de ler no blog dele, por volta de 2010, um relato em que dizia ter feito um gol driblando o goleiro. O mais curioso é que esse goleiro era o meu diretor de auditoria.

Ele me contava várias histórias dessas partidas, e eu sempre repetia: “Pipo, eu preciso conhecer esse cara, ele é meu ídolo”. Infelizmente, esse encontro nunca aconteceu.

Mas, de certa forma, nunca fez tanta falta assim. Porque o impacto dele já tinha acontecido. O principal aprendizado que ficou é a dedicação no máximo, o treino constante e nunca desistir do que você quer alcançar.

*Carlos Benitez é CEO e sócio-fundador da BMP, instituição financeira pioneira na oferta de infraestrutura para Banking-as-a-Service (BaaS), e um apaixonado pelo basquete