A Natura registrou no primeiro trimestre um resultado que gerou frustração entre os investidores, com os custos da reestruturação ainda pesando e o mercado consumidor se mostrando desafiador no Brasil e na Argentina.

A companhia fechou os primeiros três meses do ano com um prejuízo líquido de R$ 445 milhões, quase nove vezes maior em relação à perda de R$ 50 milhões das operações continuadas no mesmo período do ano anterior. A receita caiu 7,7%, para R$ 4,7 bilhões, enquanto o Ebitda somou R$ 346 milhões, queda de 47%, com a margem recuando 5,3 pontos percentuais, a 7,3%.

Por volta das 13h21, as ações da Natura caíam 4,67%, a R$ 10,01. No ano, os papéis sobem 39%, levando o valor de mercado a R$ 13,7 bilhões.

Apesar do resultado fraco, a direção da Natura se mostra confiante em relação ao ano. Sem poder contar com uma retomada do consumo nos principais mercados, os executivos dizem que os resultados devem se beneficiar dos ajustes feitos na operação, com o grosso das medidas ficando para trás.

“Nós praticamente concluímos mais de 75% da reorganização [redução dos cargos previstos no novo modelo operacional], então os custos associados à reorganização vão cair bastante a partir de agora”, disse João Paulo Ferreira, CEO da Natura, em entrevista coletiva na terça-feira, 12 de maio. “Igualmente, a captura dos benefícios deve se acelerar a partir do segundo trimestre.”

No balanço, a Natura aponta que a companhia registrou uma pressão de R$ 221 milhões relacionada às rescisões e outras despesas extraordinárias da reestruturação.

Segundo Silvia Vilas Boas, CFO da Natura, com boa parte das rescisões ocorrendo no primeiro trimestre, a companhia deve demonstrar retomada da rentabilidade, ficando os 25% restantes para serem concluídos nos próximos trimestres.

Ela afirmou que, não fosse por esses custos, a situação no primeiro trimestre teria sido melhor, num sinal de que o turnaround já está tendo efeitos positivos na companhia.

“Nós fechamos o trimestre com uma rentabilidade de 7,3%, muito impactada por essas despesas extraordinárias não recorrentes”, disse. “Se excluíssemos este efeito, que não vai continuar se repetindo, a nossa rentabilidade teria sido de 12%.”

Ferreira destacou ainda que, se desconsiderados os custos de reestruturação e os pagamentos relativos ao fechamento da holding e do caso Chapman – a companhia firmou, em fevereiro, um acordo de US$ 67 milhões nos Estados Unidos para encerrar um processo relacionado ao talco da Avon –, a geração de caixa teria sido neutra, num trimestre em que normalmente ocorre consumo.

No primeiro trimestre, o fluxo de caixa livre das operações continuadas foi negativo em R$ 430 milhões, aumento em relação ao consumo de R$ 168 milhões apurado no primeiro trimestre de 2025.

Esses fatores também pesaram na alavancagem financeira da Natura, que subiu 0,54 vez em relação ao trimestre anterior, a 2,11 vezes. Para Vilas Boas, a expectativa é de redução, trazendo para dentro do que a companhia avalia como ótimo: uma alavancagem entre 1 vez e 1,5 vez ao fim do ano.

Com uma estrutura mais leve, mas ainda com controle rígido de despesas, a Natura entende que pode atravessar o ano, o que deve ajudar a contornar um mercado consumidor mais fraco.

Na frente comercial, Ferreira disse que a Natura vai focar em retomar as vendas no Nordeste e apostar em categorias mais prósperas, como body splash. “As nossas estratégias estão sendo de identificar áreas de maior interesse dos consumidores e onde podemos ser mais competitivos”, disse.

Apesar de destacarem que os ajustes ficaram para trás, os executivos da Natura alertaram para a possibilidade de uma migração de sistemas prevista para o segundo trimestre prejudicar os resultados, caso dê errado. A substituição ocorrerá nas atividades da fábrica e no centro de abastecimento.

“Faremos a implantação de um sistema SAP na parte industrial aqui no Brasil e isso pode trazer alguma turbulência. Estamos muito bem preparados tecnicamente, a prontidão é alta, mas sempre pode trazer alguma turbulência”, disse. “Espero ver nenhuma interrupção.”