O setor elétrico brasileiro enfrenta uma crise que se desdobra em múltiplas frentes e tem origem comum. Trata-se da expansão acelerada e desordenada, alimentada por subsídios, da Geração Distribuída (GD) - modelo de produção de energia elétrica renovável (principalmente solar) feito perto ou no próprio local de consumo, como no telhado de residências ou em empresas.

Depois de provocar o curtailment — cortes forçados na produção de usinas renováveis centralizadas —, a GD agora está no centro de um novo desequilíbrio: o colapso financeiro das fazendas solares, um subproduto criado pela própria explosão do modelo, após mudança regulatória que entrou em vigor este ano.

A deterioração desse mercado abriu espaço para um fenômeno inédito no setor: o surgimento de uma startup especializada em intermediar fusões e aquisições de fazendas solares endividadas, tentando salvar ativos que até pouco tempo eram considerados “ouro solar”.

Esse roteiro ajuda a explicar por que o sistema elétrico vive hoje os efeitos de uma sobreoferta de energia renovável que derruba receitas, paralisa investimentos, distorce preços no mercado livre, provoca quebras entre comercializadoras e pressiona a conta de luz dos consumidores.

Nesse ambiente turbulento, a GD ocupa papel central. O modelo — famoso por estimular instalação de painéis solares no telhado das casas — cresceu de forma explosiva nos últimos anos, impulsionado por subsídios generosos e por uma governança setorial que demorou a reagir aos sinais de desequilíbrio.

O resultado é um paradoxo: o Brasil tem energia renovável de sobra, demanda insuficiente em horários críticos do dia e, para completar o quadro, tarifas elevadas. A GD ajudou a criar esse cenário ao injetar na rede volumes crescentes de energia sem qualquer coordenação com o Operador Nacional do Sistema Elétrico(ONS), responsável por equilibrar geração e transmissão.

Esse descompasso levou ao curtailment — com cortes médios de 20% na produção de usinas solares e eólicas centralizadas — porque, sem poder controlar a GD, sob supervisão das distribuidoras estaduais, o ONS é obrigado a desligar as usinas que consegue controlar. Em 2025, o prejuízo acumulado por 1.500 usinas chegou a R$ 6,5 bilhões.

Agora, um segundo choque provocado pela GD começa a se materializar. A mudança regulatória de 2022 determinou que, a partir de 2023, os projetos de GD2 — conectados após janeiro daquele ano — perderiam parte dos benefícios.

Agora, em 2026, passaram a pagar 60% do Fio B, a tarifa pelo uso da rede de distribuição. A medida reduziu margens, elevou custos e tornou menos atrativo o modelo das fazendas solares - muitas chegaram a obter taxa de retorno de dois dígitos -, que prosperaram justamente graças aos incentivos que agora estão sendo retirados.

Contradição

Especialistas ouvidos pelo NeoFeed destacam a grande contradição envolvendo hoje a MMGD (micro e minigeração distribuída), classificação técnica criada pela Aneel (agência reguladora do setor) que divide os projetos de GD por tamanho e potência.

De um lado, a tendência é de cada vez mais pessoas instalarem painéis no telhado de casa – chamados de projetos de microgeração (até 75 quilowatt ou kW) –, pois mesmo com a redução dos benefícios, a tarifa no mercado regulado cresce acima da inflação. Ou seja, de quebra, a continuidade da expansão deve elevar o índice de curtailment.

De outro, as fazendas solares, cuja faixa de capacidade se enquadra na “minigeração” (entre 75 kW e 5 megawatts), se tornaram menos atrativas em um cenário de transição para o fim dos descontos nas tarifas de uso da rede elétrica.

Além da redução do desconto dado ao segmento, o cenário de inversão de fluxo – quando o excedente de energia gerado é devolvido à rede da concessionária – também tem dificultado a aprovação de novas usinas por parte das distribuidoras, para não comprometer a rede. E as fazendas solares existentes, com excesso de geração, não têm conseguido clientes para equilibrar os custos do investimento, que aumentaram nos últimos anos com juros na faixa de 15%.

“Lá atrás, em 2012, quando foi criada a norma regulatória que permitiu a explosão da GD no Brasil, viabilizou-se uma política de incentivo que foi bárbara – tanto que a solar já é a segunda fonte de energia elétrica do País”, afirma João Carlos de Oliveira Mello, CEO da Thymos Energia, consultoria do setor. “Só que essa história da GD é uma morte anunciada: sabíamos que a política pública ia dar certo e ninguém se deu conta disso?”

O especialista da Thymos lembra que no recente Dia dos Pais o ONS admitiu que quase ocorreu um blecaute por causa do excesso de energia de GD injetada na rede. “Ou seja, nem o ONS nem as distribuidoras têm controle da segunda maior fonte de energia elétrica do Brasil”, diz. “Isso não pode continuar, falta iniciativa.”

Mello defende a implementação de sistemas de controle da MMGD. E cita duas possibilidades. Uma delas é abrir um processo competitivo, pelo qual o ONS pode oferecer pagar à usina de GD, que autorizaria o corte - um curtailment voluntário remunerado, sem corte compulsório.

Outra opção é implementar uma solução adotada em outros países com o mesmo problema de excesso de geração de GD, chamada DSO (Distribution System Operator), espécie de gerenciador da MMGD.

“O DSO ficaria encarregado de fazer gestão de mercado da distribuidora”, diz. “Para não ter conflito de interesse, teria uma governança separada da distribuidora, que é o dono do ativo”, acrescenta, enfatizando que o ONS e distribuidoras devem investir em tecnologia, pois soluções já existem internacionalmente.

Victor Hugo Iocca, diretor de Energia Elétrica na Abrace Energia - associação que representa os grandes consumidores de energia elétrica e gás natural –, aumenta a lista de sugestões para atenuar os problemas causados pela GD. Uma solução a médio prazo, sugere, é a substituição dos medidores atuais por medidores inteligentes, que permitiriam às distribuidoras controlar remotamente a geração dos telhados.

“Outra medida crucial é a alteração da lógica de compensação de energia, passando de ‘um para um’ para um sistema financeiro, no qual a energia injetada ao meio-dia, que é excedente, vale menos do que a consumida à noite”, afirma.

Iocca também adverte sobre a falta de fiscalização da geração irregular, que segundo ele já é da ordem de gigawatts (GW). “Muitos consumidores instalaram mais painéis do que o projeto homologado junto à distribuidora, especialmente para se beneficiarem de regras antigas, uma fiscalização mais rigorosa poderia limitar essa fraude e ajudar a equilibrar o sistema.”

Outra iniciativa viável inclui o armazenamento de energia, especialmente por baterias. No entanto, o especialista aponta que o principal obstáculo atual não é o custo, mas a falta de clareza regulatória. “A Aneel ainda não definiu como as baterias serão tarifadas pelo uso da rede - como gerador, consumidor ou ambos -, o que inviabiliza muitos projetos”, lamenta.

Iocca também cita o hidrogênio renovável como alternativa emergente. “Projetos-piloto de hidrogênio verde estão a começar a sair do papel, como uma planta da White Martins e outra de 5 MW de um associado”, afirma, lembrando que, inicialmente focados no autoconsumo, esses projetos são modulares e podem escalar para venda. “A futura regulamentação da lei do hidrogênio, com incentivos fiscais significativos, deve impulsionar ainda mais essa tecnologia.”

Venda de ativos

Para Clayton Souza, sócio responsável pela indústria e infraestrutura na LEK Consulting, agrega dois caminhos para amenizar os gargalos causados pela GD. Um deles e a ampliação dos leilões de transmissão. O outro é o que chama de agenda de eficiência, voltada principalmente para as fazendas solares.

“Os projetos originalmente concebidos com uma determinada perspectiva de taxa de retorno ficaram problemáticos, então essa agenda de eficiência busca fechar um pouco desse gap”, afirma, sugerindo que as fazendas solares possam oferecer soluções para usar melhor essa capacidade instalada.

“O posicionamento do Brasil, por exemplo, fornecendo energia limpa para data centers, é uma discussão recorrente em alguns clientes de fazendas solares”, emenda Souza, acrescentando que grandes empresas que atuam no segmento também consideram a consolidação de ativos de GD de fazendas solares como uma opção interessante de investimentos.

Esse, por sinal, foi o caminho escolhido por André Figueiredo, CEO da Draives - uma startup fundada há pouco mais de um ano que oferece um sistema operacional que agiliza todas as etapas de duo diligence de empresas de energia e também é voltado para operações de M&A exclusivamente no segmento GD.

Figueiredo criou modelo de negócio a partir de sua experiência com projetos da Elis Energia, investida do grupo Pátria em GD. Em 2022, com a mudança regulatória, o Pátria se interessou em fazer M&As, mas Figueiredo percebeu que tinha muito aventureiro no mercado das fazendas solares.

“Os vendedores dessas fazendas solares eram muitas vezes investidores de pessoa física, com ativos pouco estruturados, sem governança documental e com passivos regulatórios, ambientais ou fundiários mal mapeados”, conta.

Hoje, a startup atua com um time de sete pessoas, sendo seis dedicadas à tecnologia – além de Figueiredo. A plataforma organiza dados, estrutura data rooms, automatizando etapas de diligência ou venda do ativo, geralmente fazendas solares de porte médio ou pequeno – as grandes costumam recorrer a serviços de butiques de M&As.

“Conectamos essas usinas ou com investidores que querem comprar esses ativos ou com as comercializadoras de GD que pretendem comercializar essa energia”, revela Figueiredo. “No nosso portfólio, 95% das usinas são GD, quase 150 projetos, totalizando 420 MW de potência.”

O negócio de M&As de fazendas solares, segundo ele, é promissor, principalmente em estados onde há sobreoferta de geração e pouco consumo, como em Mato Grosso. “O mercado está super vendedor de ativo, se esse ativo não estiver preparado para ser vendido, com documentação em ordem, o vendedor vai perder com o preço”, adverte.

Figueiredo afirma ter fechado no ano passado quatro processos de M&A, envolvendo quatro usinas. Este ano, já são sete processos em andamento, alguns em fase final de assinatura de contrato, outros em abertura.

O mais surpreendente, avisa ele, são os novos clientes que estão surgindo – todos fora do escopo do setor. “São empresas que buscam reduzir custos de energia: concessionárias de rodovias e de saneamento, que consomem grande carga de energia na baixa tensão”, revela. “Tem também o pessoal do agro, que não teve oportunidade de fazer GD e, agora, com as usinas mais baratas, estão começando a analisar”, acrescenta.

Outro negócio encaminhado é uma operação para uma rede de varejo de eletrodomésticos em Goiás. “Esse tipo de cliente, que tem só unidades na baixa tensão e, portanto, não pode ir para o mercado livre, por enquanto, é o que nos interessa.”