Acho que tivemos um sinal importante nos últimos dias dentro de toda a narrativa de “SaaSpocalypse” que não está sendo tão falada, mas parece relevante. Os dois casos mais emblemáticos vieram de Twilio e Atlassian.
No dia 1º de maio, Twilio e Atlassian entregaram resultados muito acima do esperado e mostraram algo que talvez o mercado estivesse subestimando: a capacidade de empresas tradicionais de software B2B se reinventarem e capturarem valor relevante na era da IA.
E o mercado reagiu forte. A Atlassian chegou a subir cerca de 30% logo após os resultados, em um dos maiores movimentos da história recente da companhia.
Já a Twilio disparou mais de 20% após earnings extremamente fortes, impulsionados principalmente pela aceleração do negócio e pela demanda crescente por produtos ligados a IA Voice e infraestrutura para agentes.
Empresas que muita gente já colocava quase na categoria de “legacy SaaS” mostraram aceleração de crescimento, monetização relevante de IA, expansão de uso, retenção forte, ganho de eficiência e relevância crescente dentro dos novos workflows agênticos.
Isso obviamente não muda a tese principal: o software está passando por uma transformação brutal.
Estamos migrando de um mundo baseado em seats, systems of record, dashboards e workflows passivos para um ambiente agentic, “in the work”, com IA executando tarefas reais, software capturando pedaços de serviço e produtos muito mais orientados à execução do que apenas à organização da informação.
E sim, muitos softwares tradicionais vão sofrer. Principalmente produtos commodities, ferramentas superficiais e soluções sem profundidade operacional. Mas talvez o mercado tenha exagerado ao assumir que os incumbentes seriam automaticamente destruídos.
Porque empresas como Atlassian, Twilio, Datadog e outras possuem ativos extremamente difíceis de replicar: distribuição, dados, contexto, workflows críticos, integrações profundas, infraestrutura, engenharia de altíssimo nível e anos operando sistemas extremamente complexos.
A IA muda profundamente a interface do software. Mas ela não elimina automaticamente infraestrutura, embedding operacional e domínio específico.
Talvez o “SaaSpocalypse” esteja evoluindo para algo mais sofisticado. Não uma destruição completa do software tradicional, mas um grande rebalanceamento de valor.
Onde softwares frágeis sofrem, mas plataformas com profundidade operacional podem emergir ainda mais fortes na era dos agentes.
*Geraldo Melzer é cofundador da ABSeed