Depois de um aumento dos spreads neste começo de ano, por conta dos eventos de crédito que desaceleraram as emissões de dívida, o mercado brasileiro de renda fixa começa a ver uma normalização da situação.
A avaliação é de Felipe Thut, head de renda fixa e produtos estruturados do Bradesco BBI, para quem nem mesmo a eleição, com sua capacidade de levar empresas e investidores a uma postura mais cautelosa, será capaz de prejudicar o que ele prevê ser mais um bom ano para o mercado de crédito privado.
“Apesar da impressão de que o mercado de crédito de renda fixa está mais difícil, ele é muito mais positivo do que foi na última eleição, em 2022”, disse ele na terça-feira, 19 de maio, em encontro com jornalistas. “E se olharmos para 2018, ele registra muito mais volume.”
Segundo ele, do fim de abril até a primeira quinzena de maio houve um fechamento significativo dos spreads, principalmente em títulos de CDI, apesar de ainda não estarem no nível anterior aos eventos de crédito.
Ainda assim, mesmo com a guerra no Oriente Médio, os spreads estão em patamar menor do que o visto em 2022. No mercado secundário, o spread de crédito em CDI para companhias com rating "AAA", em títulos com vencimento em três anos e meio, era em média 1,33%, enquanto atualmente está em torno de 0,75%, depois de atingir 1% no começo do ano.
“Acredito que o spread do mercado de CDI vai fechar mais do que está hoje”, afirmou Thut. “Mesmo com essa abertura no começo do ano e agora com esse fechamento, as companhias estão captando mais barato do que no ciclo eleitoral anterior.”
Para o executivo do Bradesco BBI, o mercado de renda fixa está reagindo muito menos à eleição, olhando mais para novos eventos de crédito e, principalmente, para a trajetória da taxa de juros.
“Independentemente de quem seja o candidato, o que interessa são os planos desse candidato e como isso vai impactar a inflação e a taxa de juros futura”, disse ele.
“O que me preocuparia na trajetória de fechamento dos spreads do CDI seria surgir algum outro evento de crédito que não estamos vendo. Não temos no radar uma empresa caminhando nesse sentido”, complementou.
Thut destacou ainda que as companhias podem ter postergado operações neste começo de ano, recorrendo ao mercado bancário, mas nenhuma deixou de ter acesso a recursos.
Para ele, a queda dos spreads está fazendo com que os emissores voltem a olhar para o mercado. “Estamos aquecendo os motores; vemos nesse mercado de CDI, num curto espaço de tempo, o volume voltar bastante”, disse.
No caso das debêntures incentivadas, pelo fato de os fundos terem prazos de resgate maiores, esses veículos “sofrem” por mais tempo, desanimando os investimentos nesse tipo de título.
Apesar da projeção de retomada, Thut afirmou que a expectativa é de uma queda de 10% a 20% em relação ao ano anterior, quando a renda fixa captou R$ 737,7 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Segundo ele, entre 2024 e 2025, quando os spreads estavam muito baixos, as companhias foram ao mercado para emitir títulos e alongar o perfil das dívidas – cerca de 46% das empresas usaram os recursos levantados para esse propósito.
Neste ano, as projeções do Bradesco BBI indicam que R$ 29 bilhões em debêntures estão para vencer, sendo que, no ano passado, a captação em títulos de dívida totalizou R$ 544,8 bilhões. No ano que vem, serão R$ 51 bilhões a vencer.
“Todas as companhias aproveitaram os spreads baixos e jogaram as dívidas para frente. Não há problema de pressão de liquidez, com companhias precisando renovar várias linhas que vão vencer”, disse.
A expectativa é de que empresas com necessidade de investimentos, como utilities ou operadores de infraestrutura, e aquelas com planos de M&A, acessem o mercado.
Para emissões no mercado internacional, a expectativa de Thut é que fiquem em torno de US$ 30 bilhões, depois do recorde de US$ 35 bilhões em 2025, com o mercado ainda aberto, mesmo diante da turbulência local causada pelos eventos de crédito.
O sucesso e o custo final dependem do conhecimento que os investidores internacionais têm da companhia. Nomes como Rede D’Or e JBS conseguiram spreads muito baixos em relação às Treasuries nas operações realizadas neste ano, segundo Thut.
“Os eventos de crédito nunca são positivos para o mercado; os investidores olham isso com cuidado e passam a ser mais criteriosos nas próximas emissões. E o cuidado é saber se o risco de crédito está sendo remunerado pelo preço”, disse.