Responsável pela movimentação de um terço da balança comercial brasileira, o porto de Santos vai investir R$ 800 milhões para aumentar de 15 metros para 16 metros o calado (profundidade) do canal.

A ampliação de apenas um metro vai garantir para o porto um aumento de até 20% da capacidade de movimentação de todas as cargas. O contrato com a empresa vencedora da licitação, a belga Jan De Nul, será assinado no próximo mês.

O assunto foi tratado durante painel no Fórum Esfera Brasil, realizado no Hotel Jequitimar, no Guarujá, litoral de São Paulo, neste sábado, 23 de maio.

“Os navios de 366 metros dependem de maré alta e carga de 80%. Com o calado aprofundado, esta embarcação terá acesso o tempo todo, pouco importando a maré, e com a capacidade total. Isso muda o patamar”, diz Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), gestora do terminal, em entrevista ao NeoFeed, após o painel.

Normalmente, navios de 366 metros, que são os maiores hoje em operação, têm capacidade para até 20 mil contêineres, o que equivale a 10 mil caminhões enfileirados. E, com a nova profundidade, será possível trazer de uma vez só todo este volume.

“Na prática, este um metro a mais vai significar mais eficiência, acessibilidade e garantia na entrada e saída destes grandes navios. O impacto econômico disto será muito grande”, explica.

Concluída esta etapa, em 2028, o plano da APS é ainda avançar para 17 metros que, segundo Pomini, é a capacidade máxima permitida para o canal santista. “Quando a gente aprofunda, pode gerar impacto nas bordas. Originalmente, o porto de Santos tinha oito metros de calado. E já estamos em 15 metros”, afirma.

Segundo o presidente da APS, a obra começa no início de 2027, e deve durar dois anos, com prazo de conclusão até o fim de 2028. Isso significa que parte do período do trabalho no canal será feito em conjunto com as obras do túnel Santos-Guarujá, que foi licitado no ano passado.

Mas, para Pomini, não há conflito, em termos de engenharia, para que os dois projetos avancem de forma conjunta.

“Quando começar a escavação do túnel, o cronograma da dragagem do canal do porto levará isto em consideração. O teto do túnel fica a 21 metros abaixo do espelho da água, e terá 860 metros de comprimento, ligando as duas cidades”, explica.

Isso significa que, os veículos que irão passar pelo túnel, quando ele estiver pronto, em 2030, estarão a uma distância de cinco metros de altura do “fundo do canal do porto”, levando em conta o calado de 16 metros.

Megaleilão sai ainda neste ano

No evento promovido pela Esfera Brasil, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, também falou de um tema que tem relação direta com o crescimento do porto de Santos, que é a realização do leilão do megaterminal de contêineres, chamado Tecon Santos 10.

Havia um impasse grande em torno da modelagem e se os terminais estrangeiros, que hoje já operam em Santos, poderiam participar do certame. Dentro do governo, havia quem defendia que eles não poderiam disputar, para não gerar um super player do setor. Mas o que prevaleceu no governo é justamente o contrário.

“O que o Ministério de Portos e Aeroportos defende hoje é o que diz a Casa Civil, que decidiu abrir o leilão para todas as empresas. Era esperado que houvesse uma ampla discussão sobre isso”, afirma o ministro.

O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a barrar o andamento da licitação, por entender que seria necessário restringir o acesso para quem pudesse disputar a área em Santos.

O Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou, recentemente, esta nova avaliação de abertura total à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), que também dará seu parecer.

No mercado, a avaliação é de que prevaleceu a pressão das grandes empresas, como Maersk e MSC, que comandam hoje o Brasil Terminal Portuário (BTP), por meio de uma joint-venture, e que atua no porto de Santos.

Entre os maiores terminais no porto santista estão a Santos Brasil, hoje controlada pela francesa CMA CGM, e a DP World, da Dubai World.

A tendência, segundo o ministro, é que o edital seja publicado no início do segundo semestre, entre julho e agosto, ainda que perto do período eleitoral. Com isso, na visão dele, daria tempo de realizar o pregão na B3 até dezembro.

“Esse é o maior empreendimento no setor portuário no Brasil, que vai fazer com que o porto de Santos saia da 48ª para 15ª posição mundial em movimentação de contêineres, aumentando em 50% da capacidade operacional”, afirma o ministro.

“Nosso foco é realizar o leilão ainda em 2026. E por isso que temos que publicar o edital até agosto. Caso o projeto seja mantido do jeito que está, vamos conseguir. Nosso foco é entregar. A infraestrutura do Brasil tem pressa”, completa Franca.