Responsável pela gestão do maior terminal portuário da América Latina e uma das poucas estatais superavitárias no País, a Autoridade Portuária de Santos (APS) iniciou o planejamento para abertura de capital, transformando a companhia, que hoje é pública, em empresa listada, nos moldes de Petrobras e Banco do Brasil.
O NeoFeed apurou que o assunto foi levado aos técnicos em Brasília pelo presidente da APS, Anderson Pomini, defensor da proposta. No comando do Porto de Santos desde abril de 2023, sua gestão tem sido marcada pelo crescimento financeiro da estatal, que fechou com R$ 4 bilhões em caixa e receita líquida de R$ 1,4 bilhão em 2025.
Oficialmente, no entanto, o assunto é tratado com cautela, já que, no núcleo duro do governo federal, a tendência é que, pelo menos por enquanto, a iniciativa não prospere, ainda mais por se tratar de um ano eleitoral.
Ainda há etapas que precisam ser cumpridas para isso. A partir do aval de Brasília, uma consultoria seria contratada para realizar o estudo de viabilidade. A chance é de que os recursos para isso saiam do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Pelo desenho inicial das conversas sobre o IPO, o governo federal seguiria como acionista majoritário, com pelo menos 51% das ações da companhia. Com isso, garantiria o direito de indicar o presidente e de ter a maioria dos assentos no conselho de administração.
Na prática, o Porto de Santos já reúne algumas das principais condições para iniciar o processo de listagem na Bolsa de Valores. Entre as regras estão práticas mais detalhadas de governança e de transparência. A empresa também reporta os resultados financeiros trimestrais na área de informações financeiras do portal.
O Estatuto Social da empresa, publicado no site da companhia em abril de 2025, já deixa claro, de certa forma, que o Porto já caminha na direção de se preparar para virar uma empresa listada na Bolsa. Os números são auditados, de forma independente, pela Russell Bedford.
No documento, a empresa estabelece que, ao fim de cada exercício, as demonstrações financeiras sejam elaboradas nos moldes aplicados às companhias de capital aberto, discriminando com clareza a situação do patrimônio da empresa.
Em dezembro, Pomini disse ao NeoFeed que o resultado positivo da companhia tem relação direta com a adoção de uma política de gestão mais próxima das companhias privadas, principalmente das que estão listadas.
“Tratamos o porto como uma empresa privada. Mantivemos a eficiência, integramos com o mercado privado e projetamos o porto para o futuro”, afirmou, na ocasião.
Em 2022, quando o governo federal avançou na proposta de desestatização da companhia, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) chegou a avaliar o Porto de Santos em R$ 3 bilhões.
Especialistas do setor portuário e do mercado de capitais ouvidos pelo NeoFeed avaliam, no entanto, que a Autoridade Portuária de Santos atualmente não seria avaliada por menos de R$ 10 bilhões.
A possível entrada de acionistas na empresa, e de um volume expressivo de papéis disponíveis no mercado, poderia representar uma maior blindagem política sobre a gestão do terminal santista.
Ainda que as últimas gestões no Porto de Santos tenham sido consideradas técnicas, historicamente o comando da estatal sempre esteve nas discussões sobre as composições políticas.
É necessário ainda que a janela de ofertas públicas iniciais (IPOs) seja reaberta no País. Já são quatro anos sem aberturas de capital na B3. O último IPO foi o do Nubank, que fez dupla listagem em Nova York e em São Paulo, em dezembro de 2021.
Um caminho cheio de percalços
Foi no início da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva que o projeto que previa a privatização do Porto, e que já estava em estágio avançado durante o governo de Jair Bolsonaro, foi interrompido. Na época, Tarcísio de Freitas (atual governador de São Paulo) era ministro da Infraestrutura e defendia abertamente a privatização da gestão portuária em Santos.
A defesa da atual gestão federal sempre foi a de valorizar estatais e não vender ativos públicos. Um possível início da operação de abertura de capital significaria uma mudança de postura da alta cúpula do governo federal, já que a iniciativa representaria, ainda que de forma indireta, uma espécie de privatização.
Para Casemiro Tércio Carvalho, que foi presidente da APS entre fevereiro de 2019 e abril de 2020, e que estava à frente do Porto de Santos no período do processo de desestatização, na gestão de Jair Bolsonaro, faz sentido avançar na proposta de levar a empresa para a B3.
“Eu iniciei este debate na minha gestão e sempre defendi a abertura de capital do Porto de Santos, justamente para garantir a entrada de recursos privados. Entendia que era a melhor modelagem, mas na época o BNDES defendeu o formato tradicional de concessão”, afirma Carvalho.
Na visão do consultor portuário, a abertura de capital não colocaria em risco a função estratégica do Porto de Santos. "Preparamos a empresa para entrar no Novo Mercado da B3. E isso deveria ser seguido em todos os portos. Mas é importante que o mercado possa ter confiança na administração da companhia para apostar nas ações”, diz Carvalho.
Mas as resistências devem ser grandes. Ex-secretário nacional de Portos e Transportes Aquaviários, Fabrizio Pierdomenico acredita que não há razão para este tema ser discutido agora. Segundo ele, que atuou em Brasília entre março e setembro de 2023, é estratégico para a economia nacional que o comando do terminal em Santos esteja nas mãos do governo federal.
“Uma empresa listada foca basicamente nos resultados e nos lucros. Essa iniciativa funcionaria se o Porto de Santos precisasse captar recursos. E esse não é o caso. Caixa hoje não é problema”, afirma Pierdomenico.
Há exemplos no mundo de autoridades portuárias estatais que passaram a ser listadas. A Ningbo Zhoushan Port Company Limited, que opera o Porto de Ningbo-Zhoushan, o terceiro mais movimentado do mundo, na província de Zhejiang, na China, está na Bolsa de Xangai desde 2010.
Responsável pela gestão do maior porto da Nova Zelândia, a Porto of Tauranga Limited é uma empresa de capital aberto desde maio de 1992, quando passou a ser listada na Bolsa do país.
No Brasil, a única gestão portuária totalmente privatizada é a Companhia Docas do Espírito Santo, responsável pelos portos de Vitória e Vila Velha. Em março de 2022, o fundo de investimentos Shelf 119 Multiestratégia, da gestora Quadra Capital, venceu o leilão que garantiu uma concessão por 35 anos, e criou a Vports.
Ao contrário das administrações das autoridades portuárias, sob controle estatal, a maior parte das empresas de terminais portuárias é listada na Bolsa, seja no Brasil ou no exterior.
A Santos Brasil, por exemplo, que administra o maior terminal de contêineres da América do Sul e estava listada na B3, foi comprada pela francesa CMA CGM, que fechou o capital da empresa no ano passado.
Em fevereiro, a APS realizará um evento para celebração da assinatura do contrato para a construção do túnel Santos-Guarujá. A expectativa é que estejam presentes o presidente Lula e o governador Tarcísio.
Dos R$ 5,1 bilhões que serão aportados em recursos públicos para construir o túnel, tanto o governo federal quanto o estadual arcarão com metade cada. Ao todo, a obra custará R$ 6,8 bilhões.
A companhia portuguesa Mota-Engil foi declarada vencedora do leilão, realizado em setembro de 2025, na B3. A empresa terá que construir um túnel de 1,5 quilômetro ligando as duas margens do porto, dos quais 850 metros serão abaixo do canal do porto. A conclusão está prevista para 2030.
Procurada pelo NeoFeed para comentar sobre o avanço da proposta de abertura de capital, a APS informou que “trata-se de uma ideia, um tema que só seria discutido se houvesse uma decisão nesse sentido por parte do governo federal, que tem o poder de levar isso adiante, o que não ocorreu”.
Também questionado, o Ministério de Portos e Aeroportos não respondeu aos pedidos de esclarecimentos feitos pelo NeoFeed.