Em menos de seis meses, a Rhodia, divisão brasileira da empresa química belga Solvay, está repensando seu plano de investimentos de R$ 100 milhões em melhorias no parque fabril de Santo André, no Grande ABC.
A companhia já investiu R$ 30 milhões, em um planejamento que deveria durar até 2028. No entanto, no terceiro trimestre deste ano, a empresa vai fazer uma reavaliação concreta. E a tendência é de que o resto dos recursos fique congelado.
A razão está no avanço significativo da presença dos produtos químicos importados da Ásia a um custo muito mais baixo da produção nacional. E sem que o governo federal apresente ações para barrar esta que é chamada de "avenida desleal" de concorrência, segundo Daniela Manique, CEO da Solvay-Rhodia para a América Latina..
“Nosso setor está desprotegido, sem o apoio do governo federal. Falta uma política industrial mais clara no Brasil e o que foi feito até aqui é muito pouco", diz Manique, ao NeoFeed. "Por isso que vamos avaliar, sim, a possibilidade de paralisar os investimentos. Não dá para competir sem ter as mesmas condições.”.
A Rhodia é um exemplo de algo que impacta todo o setor químico brasileiro. Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) mostram que, entre 2022 e 2024, as importações cresceram 75%. No caso de itens vindos da China, o acréscimo no mesmo período foi de 153%.
Segundo a associação, entidade da qual a CEO da Rhodia é presidente do conselho, o setor químico brasileiro movimenta US$ 167,8 bilhões ano e gera cerca de dois milhões de empregos diretos e indiretos. Atualmente, 47% da demanda nacional de produtos químicos é atendida por importações. O déficit comercial do setor chega a US$ 55 bilhões ao ano.
Em 2024, a Rhodia já havia anunciado o fechamento de uma unidade no parque fabril de Paulínia, no interior de São Paulo, e que era a única na América Latina que produzia bisfenol, usado na fabricação de policarbonato e em vidros de carros blindados, por exemplo.
O motivo foi exatamente o mesmo de agora: o acesso desenfreado dos produtos químicos importados. Atualmente, só há a opção do produto estrangeiro.
“São taxas de dumping absurdas”, afirma Manique. “Tivemos que fechar porque o ataque chinês foi muito grande e não conseguimos resistir. Tem clientes que ligam perguntando se não é possível retomar a produção e dizemos que não."
A empresa produzia cerca de 20 mil toneladas de bisfenol por ano, que representavam cerca de 1% do faturamento anual. Na avaliação da executiva, existe hoje um volume muito alto de exportação "predatória vinda da China".
Segundo Manique, os produtos chineses contam com um incentivo do governo chinês que, em alguns casos, chega a 36% nos produtos para exportação.
No primeiro trimestre deste ano, a Solvay reportou receita líquida de € 997 milhões globalmente (R$ 5,8 bilhões). Deste volume, cerca de 15%, o equivalente a cerca de € 150 milhões (R$ 880 milhões), vem do mercado brasileiro. A América Latina responde a 22% da receita global.
Mas, por conta desta competição considerada desleal pela CEO, a Rhodia hoje opera com uma ociosidade de cerca de 30%, o que, segundo Manique, é muito alto para o setor. O saudável seria ter algo em torno de 10%.
O setor químico não é o único que sofre pela "invasão" de produtos importados, principalmente os chineses, em uma situação de competição considerada desleal por empresas brasileiras. O aço é um dos exemplos mais representativos.
Nos últimos trimestres, desde 2025, o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, tem sido uma voz ativa e crítica contra a ausência de uma atuação mais efetiva por parte do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
Na visão do executivo da Gerdau, o segmento que ele atua também precisa de “defesa” e não de “proteção” simplesmente. “Todos os dias pensamos em competitividade. O que quero é condição isonômica”, chegou a afirmar o CEO, em fevereiro do ano passado.
A CEO da Rhodia tem o mesmo raciocínio de Werneck. Para ela, em igualdade de condições, o setor químico não enxerga problema em competir com o produto importado. A questão, segundo ela, é que as regras não são as mesmas, já que os chineses chegam ao mercado brasileiro com larga vantagem competitiva.
“A nossa queixa é semelhante. O recolhimento de impostos da indústria em geral é muito maior do que o agro, por exemplo. E eu não acredito em mudanças neste ano, ainda mais no período eleitoral. O governo precisa entender a importância disso. Além disso, nossos custos de produção são muito acima do que de outros países”, afirma Manique.

Segundo ela, no caso do gás natural, por exemplo, a Rhodia paga hoje US$ 14 por milhão de BTU, que é uma medida térmica mundial. “Os Estados Unidos pagam US$ 2, a Europa, em guerra, paga US$ 7, e China paga entre US$ 2 e US$ 3. Ou seja, eu pago um valor que é sete vezes maior que o americano”, diz ela.
A executiva da Rhodia diz que a carga tributária no Brasil é a maior entre todas as unidades da Solvay no mundo. “A carga é muito alta. E o produto importante paga muito menos do que nós pagamos e que geramos empregos no país. Não dá para competir sem ter as mesmas condições.”
O que a executiva afirma com isso é que, além da falta de defesa sobre o concorrente estrangeiro, o governo brasileiro também não enxerga o impacto do custo-Brasil para o segmento, e o reflexo disso na própria economia brasileira.
O curioso é que, com o início da guerra do Irã, e o fechamento do Estreito de Ormuz, ficou evidente, segundo a CEO da Rhodia, a importância da indústria local, já que a empresa passou a ganhar um pouco de terreno em termos de mercado, ainda que de uma forma superficial.
“Não ter produção no país é muito alarmante. E a demanda aumentou justamente porque a China segurou um pouco a exportação, para não faltar por lá. Vamos ter falta de enxofre e fertilizantes, porque não há produção por aqui. Isso é muito preocupante”, afirma Manique.
Taxa das blusinhas no radar
De qualquer forma, a Rhodia pretende seguir com um investimento de € 40 milhões, com recursos da matriz, para reduzir justamente a dependência do produto da Petrobras e aumentar a produtividade da companhia, a partir do uso de biomassa nas caldeiras das fábricas. O ciclo termina em 2027.
“A partir de 2028, minha demanda de gás natural vai cair muito. E hoje somos o segundo maior consumidor do estado de São Paulo. Mas eu preciso melhorar minha competitividade”, afirma. Até por isso que, mesmo com a falta de apoio do governo, estes investimentos não param.
Na fábrica de Paulínia, a segunda maior da Solvay no mundo, a produção anual hoje é de cerca de 1,2 milhão de toneladas, levando em conta todos os produtos químicos que saem do parque fabril para as diversas indústrias, incluindo fenol (usado como resinas em compensados de madeira) e solventes.
A fábrica de Santo André, que responde por cerca de 3% da receita da companhia no Brasil, atua basicamente na indústria têxtil, com a produção de poliamida, usada para a confecção de camisetas e outras peças do vestuário.
E é justamente por isso que a Rhodia imagina no horizonte o impacto de um outro problema que hoje está entre as principais preocupações das indústrias varejistas de moda, que é o fim da taxa das blusinhas, que isentou as plataformas asiáticas do imposto de importação sobre os itens adquiridos de até US$ 50.
Como, de forma indireta, este tema afeta os principais clientes da área têxtil da Rhodia, a preocupação está justamente em uma possível redução na demanda a partir da decisão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
“O produto importado chega com 97% de dumping. E a competição realmente é muito desigual. Se o meu cliente não conseguir produzir, ele não compra a minha poliamida.”
A Rhodia, que é originária da França, começou a operar no Brasil em 1919, e em 2011 foi comprada pela Solvay, por US$ 4,8 bilhões. O grupo belga foi criado em 1863.
No acumulado de 2026, as ações da Solvay na Bolsa de Bruxelas registram queda de 4,75%. A companhia, dona da Rhodia, tem valor de mercado de € 2,76 bilhões.