Marina Silva, pré-candidata ao Senado por São Paulo pela federação PSOL-Rede, não se intimida em falar de economia e dos desafios da prosperidade do Estado e do Brasil, ainda que sua imagem seja atrelada somente ao meio ambiente, desde os tempos de seringueira no Acre.
Ela sabe que muitos executivos a enxergam como um entrave para o desenvolvimento, embora muitas vezes é ela quem desempata negociações internacionais que garantem investimentos ao Brasil e precisam do aval ambiental.
Marina se notabilizou mundo afora pelo cargo de ministra do Meio Ambiente que ocupou três vezes nos governos do presidente Lula, incluindo o atual.
Deixou a pasta para concorrer ao Senado, satisfeita com a redução do desmatamento da Amazônia e do Cerrado, que atingiu picos de degradação no governo anterior.
“O agronegócio cresceu 2% [no primeiro trimestre deste ano] e o desmatamento caiu 50% [nos últimos três anos]”, diz Marina em entrevista ao programa Eleições 2026, do NeoFeed, pontuando seu foco no debate que mais se sobressai quando o tema é desenvolvimento econômico.
“Nós não associamos ser uma potência agrícola a destruir os nossos biomas”, complementa ela, que entende a agenda do meio ambiente como “economia pura”.
Ironicamente, o governo Donald Trump adotou os dados do governo anterior como um dos argumentos para justificar o novo tarifaço de 25% a produtos brasileiros. À época, o ministro do Meio Ambiente era Ricardo Salles (Novo-SP), que disputa com Marina uma das cadeiras ao Senado.
A agora ex-ministra, com uma vasta carreira política, incluindo três vezes candidata à presidência da República, não esconde a disposição de se tornar senadora pelo Estado, onde foi eleita deputada federal em 2022 com 237,5 mil votos – chegou a tomar posse em fevereiro de 2023, mas aceitou assumir o cargo de ministra.
“Me elegi em 2022, no mesmo ano em que o Tarcísio [de Freitas] veio do Rio de Janeiro para cá e se elegeu governador”, disse ela num tom de ironia após ser criticada pelo governador pelo fato de não ter começado sua vida política no Estado.
“Eu sei o caminho das pedras para muitos investimentos importantes, estratégicos para que São Paulo não fique para trás”, diz ela que ganhou o título cidadã paulistana nos anos 1990.
Mas Marina encara uma campanha desafiadora. Em viagens ao interior, teve reuniões com lideranças que pediram foto com ela, mas não as tornaram públicas. “Numa democracia, alguém que tem um mandato de prefeito tem medo de dizer que conversou com alguém para não ser retaliado”, afirma ela, sobre o clima de disputa.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que está na íntegra no vídeo acima.
Novo tarifaço de Trump e desmatamento
"É até engraçado o presidente Trump, que saiu do Acordo de Paris, que não defende o desenvolvimento sustentável, agora estar preocupado com o desmatamento. Só que o desmatamento a que ele se refere é da época do governo Bolsonaro, que é o aliado dele de primeira ordem, e do Flávio Bolsonaro. Aliás, o pico a que ele se refere em 2021 era na época de deixar “passar a boiada”.
Nós retomamos e atualizamos as políticas, criamos novos instrumentos e o resultado é que este ano nós poderemos ter a menor taxa de desmatamento, desde que ele começou a ser medido em 1985. Isso é política pública com P maiúsculo, em que você combina instrumentos de comando e controle com instrumentos econômicos. Porque não basta dizer o que não pode. É preciso estabelecer a forma correta do como pode.
"Este ano nós poderemos ter a menor taxa de desmatamento, desde que ele começou a ser medido em 1985"
Eu estou dizendo isso desde 2003, quando eu tinha 45 anos, e fui ministra pela primeira vez e começamos a trabalhar a agenda ambiental a partir de diretrizes. A política ambiental é transversal. Tem que estar em transporte, agricultura, energia, em todos os setores que fortalecem o Sistema Nacional de Meio Ambiente. Não tem como estabelecer o certo se quem vai fazer o certo está competindo com quem vai fazer errado.
Uma pessoa que vai fazer manejo florestal sustentável, que faz uma exploração em que a floresta pode se regenerar, vai competir com quem está roubando madeira dentro da terra indígena, da unidade de conservação ou até mesmo na fazenda do vizinho?"
Transição energética, bioeconomia
"A principal marca desta gestão foi criar os instrumentos econômicos para fazer a transformação ecológica do Brasil. Investir em agricultura de baixo carbono, na reindustrialização verde do Brasil, sobretudo na parte de transição energética para poder fazer o enfrentamento da mudança do clima. Novos investimentos na área de bioeconomia, economia circular e infraestrutura resiliente. Fazer o enfrentamento da mudança do clima. Acho que a gente está no caminho certo, de integrar a economia e ecologia numa mesma equação."
Terras raras, IA e meio ambiente
"Como ministra, ajudei muito o governo a pensar quais seriam as regras adequadas para explorar esse potencial que o Brasil tem. As pessoas falam que nós somos o segundo [mercado global de terras], temos possibilidades de exploração que a gente não tem o conhecimento na profundidade que gostaríamos. As terras raras são muito complexas de serem exploradas.
Como ministra, estive ajudando a pensar como seriam esses regramentos. Nós precisamos agregar valor aos nossos produtos, usar para desenvolver a tecnologia interna, produtos materiais que tenham a ver com a nossa própria economia e os regramentos ambientais.
Na área ambiental, a gente já tem uma legislação consolidada, que lida com exploração de petróleo, de minério a madeira. O problema foi essa mudança que foi feita no Congresso Nacional, na Lei de Licenciamento, que estabeleceu que cada estado agora pode fazer uma regra. Imagine como é que vai ser isso? Isso vai levar a judicialização.
"No caso das terras raras, como todo empreendimento, você tem que ter viabilidade econômica, social e ambiental"
No caso das terras raras, como todo empreendimento, você tem que ter viabilidade econômica, social e ambiental. Quando fecha essa equação, o Ibama concede a licença.
E num governo republicano ninguém funciona por pressão política. Você tem regras que são cumpridas pelos técnicos. Nós temos que estabelecer a forma correta de fazer. É uma grande oportunidade para o Brasil. “Ah, mas se estiver em terra indígena?“. Na terra indígena não pode, é a Constituição que diz que não. Agora, nem todas as terras raras vão estar dentro dessas áreas indígenas."
Interesse dos Estados Unidos e China
"Não temos preconceitos contra investidores. Nós temos regras para combater os maus investidores, aqueles que querem dar o calote no Brasil. Acho que a sociedade brasileira deve criar mecanismos para barrar os entreguistas, porque esse debate de terras raras tem a ver com uma visão que acha que os países em desenvolvimento, no caso América Latina e Caribe, são o quintal dos Estados Unidos e nós não somos.
Nós temos que ter o sentido de patriotismo. Não é de quem entrega, é de quem maneja com sabedoria e cria oportunidade de emprego, de renda, de riqueza, de avanço tecnológico para o seu próprio país. E, nesse sentido, eu acho que a gente tem que fazer uma separação. Agronegócio, indústria, independente de ideologia, tem que defender o interesse, os empregos, os investimentos do Brasil e não ficar refém de quem tem uma visão subserviente.
Nós não vamos falsear as críticas que temos. Vamos fazer, mas não vamos nos aproveitar para prejudicar uma oportunidade de investimento e de negócio que estava posta ali para o Brasil. Eu aprendi isso com a minha avó. Uma mulher simples, analfabeta, dizia que roupa suja se lava em casa. E aprendi isso com a diplomacia.
A agenda do meio ambiente é economia pura. Quando teve a reunião do G7 em 2024, quem é que foi convidado para ir falar de biocombustível na reunião do G7 lá na Itália? Fui eu. Porque uma parte das restrições ao nosso biocombustível é o argumento de que vai prejudicar a segurança alimentar e de que vai destruir os biomas brasileiros."
"A agenda do meio ambiente é economia pura"
Agronegócio, combustíveis e desmatamento
O PIB no primeiro trimestre de 2026 cresceu 1%. O agronegócio cresceu 2% e o desmatamento caiu 50% [nos últimos três anos]. Nós não associamos ser uma potência agrícola a destruir os nossos biomas. Quando a gente faz a discussão dentro do G20, é uma discussão complexa para que os biocombustíveis sejam tratados como combustível de transição, como solução baseada na natureza.
Não é fácil fazer essa discussão porque o debate não é se era ou não um combustível de transição. É claro que é. As pessoas dizem que não é porque não querem que o fluxo do dinheiro venha na nossa direção. Mas aí você vai esgotando os argumentos.
Eu estive numa reunião com o Mercosul e mostrei que quem é contra o cumprimento da legislação ambiental é algo em torno de 1%. Só que é 1% barulhento, 99% dos agricultores têm produção por ganho de produtividade, de tecnologia e inovação.
Mas eles não são vocais. E o 1% vocal tisna a imagem do Brasil e do agronegócio. E a gente vai lá e mostra os dados. Eu criei um sistema de controle do desmatamento em 2004, em tempo real. Nós abrimos mais de 500 mercados para o agronegócio brasileiro. Eu sempre digo que a agenda com a qual eu trabalho é uma agenda econômica."
"Abrimos mais de 500 mercados para o agronegócio brasileiro. Eu sempre digo que a agenda com a qual eu trabalho é uma agenda econômica"
Percepção sobre entraves ambientais
"Geralmente o que é vocalizado é a ação de comando e controle. Você sabia que nós conseguimos viabilizar R$ 350 bilhões para investir em restauração para agricultura, transição energética, manejo sustentável de floresta, gerando emprego, renda lá nas regiões da Amazônia, que antes era tudo exploração ilegal? Ninguém sabe disso.
E eu falo disso o tempo todo, mas acaba que ganha ênfase só um lado. A percepção é ruim quando você está fazendo algo que é positivo e a percepção nem sempre é acompanhada.
Eu e o [ex-ministro da Fazenda Fernando] Haddad fomos fazer o lançamento de uma plataforma na Bolsa de Valores lá em Nova York. A gente ia captar algo em torno de US$ 2 bilhões com os títulos verdes. Olha, minha avó tinha um ditado: Foi o mesmo que manteiga em venta de gato.
A partir daí nós criamos uma série de possibilidades. Eu acho que foi algo em torno de US$ 350 bilhões. [R$ 370 bilhões desde 2023 de diversos fundos]. Não é dinheiro fictício voando. Tem algumas modalidades desses investimentos que o governo põe R$ 1 e captar R$ 3, da iniciativa privada e do setor financeiro.
Criamos um fundo global para proteger a floresta tropical, usando a própria lógica do mercado. Em vez de derrubar a floresta e depois virar um problema para você – de água, onda de calor, de seca – você vai ganhar pela tua floresta."
Michelle Bolsonaro e as eleitoras evangélicas
"Desde 2010 as mulheres e os homens evangélicos, foram cada vez mais colocando seu papel de participação política, que é legítimo. São milhões de seres humanos com direitos legítimos de votar, de ser votado.
Sou evangélica da Assembleia de Deus e acho que havia uma demanda reprimida de participação no espaço da política. Nas vezes em que fui candidata à Presidência, tanto em 2010, quanto em 2014, tive uma votação muito significativa de pessoas evangélicas. Em 2018, foi algo fora da curva. Ali começou essa instrumentalização da fé e por dois vieses que eu considero muito perigoso para uma democracia: o fundamentalismo político com fundamentalismo religioso.
Você não pode nem instrumentalizar a política para a fé e nem a fé para a política, porque o Estado é laico. E é preciso saber separar essas coisas.
"Você não pode nem instrumentalizar a política para a fé e nem a fé para a política, porque o Estado é laico"
As mulheres, em qualquer que seja o espectro, estão sub representadas. Das 513 vagas na Câmara e 81 senadores, só 18% somos mulheres. Por isso que eu e a Simone [Tebet, PSB-SP] resolvemos ajudar a tirar a diferença, num contexto em que a violência contra a mulher chega ao absurdo do absurdo.
E tem uma série de explicações de porquê aumenta, inclusive pelo discurso misógino de pessoas da extrema direita que questionam até o nosso voto. Existe uma diferença entre ser conservador e ser reacionário.
As que estão se insurgindo, estão corretas. Inclusive fazendo uma denúncia de que essa visão machista em relação às mulheres, essa visão de ódio, não se sustenta em lugar nenhum."
Sociedade próspera e elite estratégica
"Não interessa uma sociedade que seja apenas rica. Um país tem que ser próspero, porque rico você pode ter meia dúzia. Agora, um país próspero, você vai ter ricos, mas vai ser parecido com o Japão. Mais de 90% das pessoas lá são classe média.
É isso que nós queremos para o nosso país, um novo ciclo de prosperidade. E São Paulo é a alavanca desse novo ciclo de prosperidade."
Cansaço do PT, anti-Lula e sociedade dividida
"Essa é uma realidade do mundo inteiro. Temos uma crise das democracias. Nós temos que dar respostas para a vida das pessoas, mostrando que a democracia é a melhor forma de dar essa resposta.
Agora, você diz que tem o cansaço em relação ao presidente Lula, mas foi no presidente que a sociedade identificou uma forma de não repetir mais quatro anos de Bolsonaro, porque senão seria o fim."
Elite e pensamento estratégico
"Estamos falando para um público que é altamente informado e que sabe todas as consequências do que é ter um país como o Brasil, a potência que nós somos, na mão de quem não tem visão estratégica.
Nenhum país tem problema por causa da elite. Um país tem problema por falta dela. Elite não é quem tem dinheiro. Elite é quem tem pensamento estratégico.
"Nenhum país tem problema por causa da elite. Elite não é quem tem dinheiro. Elite é quem tem pensamento estratégico"
Olha as contradições do mundo. No que se transformou a meca do liberalismo e da liberdade de expressão, hoje intervindo de forma injusta. Vamos ter que rechaçar qualquer possibilidade do Brasil caminhar para trás. As pessoas que têm pensamento estratégico devem trabalhar nessa direção."
Petróleo na Margem Equatorial
"Quem decide não é o Ministério do Meio Ambiente, é o Conselho de Política Energética, que tem vários ministérios, representantes da academia e assim por diante.
"O mundo está mudando muito rapidamente. A corrida pelos combustíveis de terceira e quarta geração está a pleno vapor. Muita coisa pode acontecer"
O Ministério do Meio Ambiente, através do Ibama, que é o braço que faz o licenciamento, não o faz por influência política. Quando os regramentos estão todos atendidos, ele dá a licença. A decisão técnica prevalece. E foi assim com a Margem Equatorial.
Se a Bacia de Campos é talvez a mais conhecida, a foz do Amazonas é a mais desconhecida e não pode explorar petróleo sem conhecer a bacia. É só para fazer a prospecção. É pelo menos de três a cinco anos. Sugeri que se faça a avaliação ambiental para a área sedimentar durante esse período.
Mas tem uma questão. O mundo está mudando muito rapidamente. A corrida pelos combustíveis de terceira e quarta geração está a pleno vapor. Muita coisa pode acontecer. Por isso que o presidente Lula, estrategicamente na COP, propôs um mapa do caminho para sair da dependência do uso de combustível fóssil.
Em seguida vem a guerra [no Irã]. E agora o Estreito de Ormuz criou todo esse problema para todos nós. Nós temos que pensar estrategicamente. Os países ricos já têm seus mapas para sair da dependência. O Brasil está concluindo as diretrizes para fazer o nosso mapa do caminho, fazer todo um planejamento de médio e longo prazo para novas trajetórias tecnológicas. E se as coisas mudam? O planeta está aquecendo. E se tiver que parar abruptamente, quais são as rotas que nós temos?"