Após sucessivos trimestres de avanço nos resultados da operação nos Estados Unidos, a gigante brasileira do aço Gerdau viu, no segundo trimestre deste ano, a divisão nacional da companhia crescer mais do que a unidade americana. Mas, pelo menos por enquanto, a empresa não vê razão para celebrar.

Entre abril e junho, a companhia registrou alta de 22% no Ebitda ajustado no Brasil sobre o trimestre anterior, com R$ 705 milhões. Nos Estados Unidos, o crescimento do Ebitda foi menor, com 15,4% sobre o primeiro trimestre, a R$ 2,6 bilhões.

Na produção de aço bruto, a operação brasileira também foi superior no trimestre. As unidades locais da Gerdau registraram alta de 6,2% sobre o primeiro trimestre, e 10% a mais do que o registrado no segundo trimestre de 2025.

No caso das fábricas dos Estados Unidos, o volume de produção caiu 1,3%, em comparação com os primeiros três meses do ano, e elevação de 0,5% sobre o segundo trimestre de 2025.

Ainda assim, o resultado na operação brasileira no período não foi suficiente para desenhar um início de recuperação de mercado. A tendência é que este cenário não deva ser mantido no terceiro e no quarto trimestre.

“Não podemos dizer que isso é o início de uma recuperação mais intensa. O Brasil tem muita volatilidade, eleições chegando. Mas seguimos na busca para sermos mais competitivos e reduzir despesas”, diz Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, ao responder pergunta do NeoFeed na coletiva de imprensa.

Ainda segundo o executivo, o cenário de avanço do aço importado no Brasil segue sendo um grande desafio para a recuperação da indústria nacional, mesmo com este desempenho um pouco melhor registrado no trimestre.

“Não vejo mudança radical de cenário. As dificuldades seguem e os desafios permanecem intensos. Se a questão do antidumping avançar, de uma competição mais leal, talvez nos permita voltar ao nível de rentabilidade. A gente segue muito preocupado”, afirma Werneck.

Entre as principais razões que explicam a alta do Ebitda estão o aumento da demanda interna, em relação ao produto que é exportado do Brasil, e uma consolidação da recomposição dos preços no período.

Mas o fato é que ainda há uma grande distância da participação dos Estados Unidos, em relação ao Brasil, sobre o resultado total da empresa. Hoje, ¾ da receita ainda vem do mercado americano.

A questão é que, segundo Werneck, o resultado do trimestre não consegue recuperar o desempenho baixo registrado ao longo do ano. “Nossos resultados no Brasil ainda seguem muito distantes do que nós precisamos para poder o criar futuro. Nosso otimismo é muito leve.”

Mesmo com o crescimento de 1,3 ponto percentual nos últimos três meses, a margem do Brasil chegou a 9,9% no semestre, número bem abaixo dos 24,9% registrados nos Estados Unidos.

“A operação brasileira, que é a nossa casa e sempre foi a nossa fortaleza, vem dando prejuízo desde o meio do ano passado. O Ebitda subiu, de fato, 22%, no Brasil, mas de um patamar muito baixo. Quando a gente faz o acúmulo do ano, o Ebitda acumulado fica abaixo de R$ 1,3 bilhão”, explica Rafael Japur, CFO da Gerdau.

De qualquer forma, a companhia segue investindo na operação local. Segundo o diretor financeiro, os investimentos no Brasil chegaram a R$ 1,7 bilhão, bem acima do que a empresa gerou no país.

“Uma margem de 10% segue muito longe do mínimo necessário para justificar um crescimento a longo prazo. A gente acredita que há espaço para melhoras graduais, mas elas não virão dissociadas de trabalho e de sacrifício”, completa Japur.

“Quando está perto de zero, qualquer resultado tende ao benefício. E, se os Estados Unidos cresceram pouco, foi a partir de uma margem muito alta. A gente segue com prejuízos acumulados no Brasil. A melhora precisa ser muito significativa para reverter o prejuízo na última linha”, analisa o CFO.

Analistas também enxergam avanço no resultado da companhia no Brasil, e, ao contrário dos executivos, adotam um tom mais otimista na receita da empresa para os próximos trimestres.

“No Brasil, o EBITDA ficou 10% acima de nossa estimativa. As margens permanecem abaixo dos níveis históricos, mas melhoraram significativamente para 10,5%, ante 9,2% no 1T26”, diz o BTG Pactual.

“Os Estados Unidos impulsionaram mais uma vez o resultado consolidado, enquanto o Brasil apresentou uma melhora sequencial encorajadora”, afirma o relatório assinado pelos analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.

O Citi também destaca o aumento do volume de produção de aço no período. “Os volumes no Brasil aumentaram 2,1% em relação ao trimestre anterior, impulsionados por uma melhor sazonalidade, embora os embarques tenham caído 4,3% em relação ao ano anterior, refletindo uma demanda ainda moderada no mercado consumidor final, com a atividade de construção permanecendo amplamente estável.”

No caso dos Estados Unidos, a Gerdau enxerga um avanço na fronteira do segmento de data centers, a partir do aumento expressivo dos investimentos das big techs no país.

“Este cenário tem crescido de forma muito relevante, em conjunto com o avanço da produção de energia. A demanda tem sido muito forte, especialmente nos últimos 12 meses. O consumo de aço para construir data center é expressivo”, explica o CEO da Gerdau.

Para ele, há espaço para, no futuro, esta avenida ser traçada também no mercado brasileiro. “A inteligência artificial é um caminho sem volta. Gostaria de ver o mesmo no Brasil. Ainda estamos atrasados em relação às oportunidades para data centers, mas vai ser inevitável o crescimento nos próximos anos. É questão de tempo.”

No consolidado do trimestre, a Gerdau reportou receita líquida de R$ 17,8 bilhões, alta de 2% sobre a mesma base do ano anterior, e 6,9% acima do primeiro trimestre. O lucro líquido ajustado, de R$ 1,46 bilhão, foi 69,7% acima do que o segundo trimestre de 2025.

O Ebitda no período chegou a R$ 3,4 bilhões, 33,9% acima do mesmo período do ano anterior. A margem no trimestre foi de 19,2%.

No acumulado de 2026, as ações GGBR4 na B3 registram alta de 27%. Em 12 meses, a valorização é de 61,1%. A Gerdau tem valor de mercado de R$ 49,4 bilhões.