Uma hora antes de se sentar para falar sobre liderança, André Farber estava dentro de uma piscina de ondas. O CEO da Riachuelo havia nadado 3 mil metros, surfado e ainda planejava voltar para a água à noite. Tudo isso em jejum. A entrevista para o Bravamente, programa de Carlos Burle em parceria com o NeoFeed, aconteceu em uma loja pop-up da varejista em Pinheiros, em São Paulo, mas começou, na verdade, sobre uma prancha.

Farber aprendeu a surfar há três anos. Na semana anterior à sua chegada à Riachuelo, viajou para El Salvador sem saber ficar em pé sobre a prancha. Depois de sete dias de aulas, voltou surfando. Desde então, descobriu no esporte uma forma de interromper, ainda que temporariamente, a mente acelerada de quem comanda uma das maiores varejistas do País.

“O surfe coloca você totalmente no presente. Não tem como ficar pensando em outra coisa. Você tem que entender quando a onda está vindo e como ela está vindo”, afirmou a Burle. “É um exercício de presença, algo muito difícil hoje, porque estamos sempre conectados, falando com várias pessoas e olhando o celular.”

Essa relação com o esporte ajuda a explicar sua maneira de liderar. Farber, que gosta de velocidade, adotou o hábito de escrever durante as conversas para se forçar a prestar atenção e evitar interromper o interlocutor. “Não basta escutar o outro. Ele tem que perceber que você escutou”, afirmou.

O executivo também diz entender a importância de tomar tempo para escolher quem trabalhará ao seu lado. Em processos seletivos, propõe estudos de caso sobre assuntos aleatórios para entender como o candidato organiza o pensamento diante de um problema desconhecido e dificilmente contrata alguém depois de uma única conversa.

“Já me perguntaram se o recrutamento não estava demorando demais. Mas você está tomando uma decisão na vida daquela pessoa e na vida de várias outras que serão impactadas por ela”, afirmou.

A resiliência que Farber leva hoje para os negócios começou a ser construída ainda na infância. Filho e neto de imigrantes europeus, ele tinha sete anos quando a loja de roupas femininas dos avós, no Bom Retiro, foi destruída por um incêndio. Aos 14, viu o pai quebrar e a rotina da família mudar de uma hora para outra. “Essas dificuldades criaram casca e formaram uma pessoa bastante resiliente.”

Farber assumiu o comando da Riachuelo em maio de 2023. Desde então, a companhia promoveu uma transformação que envolveu redução de estoques, geração de caixa, diminuição da alavancagem e mudanças nas áreas de moda, marketing, comércio eletrônico e cadeia de suprimentos.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou o 12º trimestre consecutivo de crescimento das vendas de vestuário nas mesmas lojas, com alta de 7,8%. A margem bruta do segmento chegou a 59,2%, recorde para um segundo trimestre, enquanto o Ebitda consolidado avançou 12,7%, para R$ 461 milhões. O lucro líquido cresceu 36,2%, para R$ 168 milhões, também o maior já registrado pela empresa no período.

Pai de quatro filhos, o executivo trabalha entre nove e dez horas por dia e tenta preservar as manhãs para a prática esportiva. Família, sono e contato com a natureza completam sua fórmula para manter o equilíbrio e permanecer presente, mesmo quando os negócios exigem velocidade.