O sócio e chairman do BTG Pactual, André Esteves, não tem dúvida. A eleição presidencial desde ano vai ser acirrada. Mas, em sua visão, isso não é exatamente um problema. A prova é que o Brasil entrou no radar financeiro e geopolítico mesmo com essa indefinição.

“As eleições se tornaram menos relevantes para a crença de médio e longo prazo no País. A percepção geral é de que o risco político no Brasil diminuiu. Isso é uma conquista formidável para nós e deve ser celebrada. Mostra que o Brasil é institucionalmente confiável”, diz Esteves, em sua participação no CEO Conference, evento realizado pelo BTG Pactual.

Para o chairman do banco, no entanto, a sociedade está mais a direita do ponto de vista de valores, e que quem reunir esse pleito virá com competitividade. E aparentemente Flávio Bolsonaro está conseguindo isso, pelo que as pesquisas mostram.

“Será uma eleição basicamente 50/50. Com uma pequena vantagem para o Lula por estar na cadeira, mas que será difícil para os dois lados”, afirma Esteves.

Ao ser questionado se a pauta da oposição não está muito centrada na anistia ao 8 de janeiro e a Jair Bolsonaro, Esteves se esquivou do tema, dizendo que isso cabe aos julgadores e que idas e vindas das decisões fazem parte do processo político.

"Talvez caiba algum tipo de alívio naquilo que está se considerando como punição para esse enredo inteiro. Mas eu não acho que as instituições estejam fora do esquadro. E uma boa resposta para isso é a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, que está aí, competitiva, muito perto do presidente, nas simulações. Eu acho que isso é um statement da sociedade".

Mundo bipolar

Esteves também fez uma análise de como enxerga o novo tabuleiro geopolítico do mundo, em que o multilateralismo que dominou os últimos 70 anos com instituições fortes como Nações Unidas e Organização Mundial do Comércio perdem força. “Lamento, mas como dizemos aqui no banco, não tem o que resmungar. É o mundo como ele é agora”, afirma.

A mudança que ele vê como “muito interessante” é a consolidação de um mundo mais bipolar com EUA e China como grandes potências econômicas. E nesse contexto, o Brasil teria espaço para se mover com pragmatismo e neutralidade.

 “Temos a capacidade geopolítica de se posicionar com neutralidade. Não há uma demanda para escolher um lado ou outro, podemos comercializar com os dois e isso já nos dá vantagem no cenário atual”, diz Esteves.

Outro ponto positivo para o Brasil é que os EUA passaram a ter mais interesse na América Latina. Quando questionado sobre Donald Trump, ele separou a agenda do presidente dos Estados Unidos em duas camadas: uma que considera construtiva e outra que vê como distorção.

Do lado positivo, citou desregulação, redução de impostos corporativos, incentivo à inovação e energia mais barata. Do lado que o incomoda, colocou o seu viés “mercantilista”, que, segundo ele, “não espelha o sucesso americano”.

Em todos esses contextos, para Esteves, o Brasil tem um “poder” pouco explorado, que fica ainda mais forte num mundo mais polarizado, em que segurança energética, alimentar e de matérias-primas voltaram a ser tema de Estado.

A vantagem brasileira, em sua visão, seria ser o “low-cost producer” de basicamente todas as commodities, de agricultura e proteína a minerais e energia.

Em outras palavras: o Brasil tem escala, custo e base produtiva para jogar como player central. E o País teima em não aproveitar essa vantagem competitiva.

 “Não adianta tentar fazer o que nós não somos competitivos. Virar fábrica de chips e voltar a ter estaleiro naval, não vai dar certo. Nós somos muito competitivos em commodities. E não tem nada de errado em a gente explorar essa nossa competitividade”, afirmou, lembrando que a Austrália é um exemplo de país que aproveita isso.