O bloqueio petrolífero a Cuba, imposto pelo governo dos Estados Unidos desde a intervenção americana na Venezuela, no início deste ano, atingiu em cheio o maior setor exportador da ilha, juntamente com a extração de níquel: os tradicionais charutos cubanos, símbolo do regime comunista e imortalizados por décadas pelo ditador Fidel Castro (1926-2016).
Em um comunicado que expôs a maior crise econômica da ilha desde o colapso da União Soviética, em 1991, a Habanos S.A. – entidade estatal que detém o monopólio das vendas globais de charutos cubanos – anunciou a suspensão do festival anual do tradicional produto tabagista na capital cubana, Havana, que deveria ocorrer durante cinco dias no fim de fevereiro.
A suspensão do evento, por tempo indeterminado, foi justificada pela direção do festival “para preservar os mais altos padrões de qualidade, excelência e experiência que caracterizam este evento internacional”.
O festival costuma atrair mais de 1.000 visitantes de cerca de 80 países, oferecendo a turistas estrangeiros a possibilidade de participar de leilões e visitar plantações de tabaco. A Habanos S.A. registrou vendas recordes de US$ 827 milhões em 2024, último ano com dados disponíveis, com aumento de 16% em comparação com o ano anterior.
A empresa opera com 27 marcas premium, todas feitas à mão e protegidas por Denominações de Origem. Em 2024, foram lançados 33 novos produtos. A rede global inclui 159 lojas Casas del Habano e 17 lounges Cohiba Atmosphere.
O adiamento do evento reflete o isolamento de Cuba, cuja economia ficou estrangulada com o bloqueio de petróleo decretado pelo governo de Donald Trump no fim de janeiro.
Com mais de 4 mil turistas russos em Cuba – tradicional destino durante o rigoroso inverno na Rússia –, a companhia aérea estatal Aeroflot, apoiada por Moscou, disse que estava restringindo seus serviços e utilizando um avião vazio para buscar os turistas.
A Air Canada, que afirmou ter 3 mil clientes em Cuba, disse que estava suspendendo o serviço para o país devido à escassez de combustível. Os dois países, juntamente com a visita de cubanos que vivem no exterior, lideram o ranking de turismo de fora na ilha. Outras companhias aéreas disseram que reabasteceriam em países vizinhos por enquanto.
A crise, porém, está indo além do setor turístico – essencial para a sobrevivência dos cubanos. As autoridades comunistas estão racionando os suprimentos de combustível, causando apagões cada vez mais longos da ilha caribenha. Outros efeitos em cascata gerados pela escassez de gasolina e óleo diesel estão paralisando a rotina.
O transporte público também foi reduzido e, por isso, o governo suspendeu contratos de trabalho. Crianças estão sendo liberadas da escola mais cedo e os cubanos mal conseguem comprar alimentos básicos como leite e frango, além de enfrentar longas filas que se formaram nos postos de gasolina.
"Ameaça incomum"
Numa manobra com objetivo de forçar a queda do regime comunista, Trump decretou o bloqueio naval de petroleiros com destino à ilha logo após a intervenção na Venezuela, classificando o governo cubano como “uma ameaça incomum e extraordinária”. Para desestimular o envio, que antes vinha sendo feito pelo regime chavista venezuelano, Trump ameaçou impor tarifas a qualquer país que forneça petróleo aos cubanos.
Até mesmo o México, que no ano passado chegou a ultrapassar a Venezuela como o maior fornecedor da ilha, deixou de enviar navios-tanque, embora sua presidente, Claudia Sheinbaum, tenha enviado 800 toneladas de ajuda humanitária. "Ninguém pode ignorar a situação que o povo cubano está vivenciando atualmente por causa das sanções que os Estados Unidos estão impondo de maneira muito injusta", disse ela, na semana passada.
A diminuição das reservas de petróleo de Cuba levou as Nações Unidas a alertarem, no início deste mês, para um possível colapso humanitário. “O secretário-geral António Guterres está extremamente preocupado com a situação humanitária em Cuba, que irá piorar, se as suas necessidades de petróleo não forem satisfeitas”, disse o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric.
Já abalado por uma recessão econômica que se arrasta desde a pandemia, agravada pela hiperinflação e pela emigração de quase 20% da população, o governo comunista, no poder há 67 anos, promete resistir.
“A rendição não é uma opção”, disse o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. Ele já declarou que o governo está preparado para dialogar com a Casa Branca, embora “sem pressão ou pré-condições”.
Diplomatas em Havana esperam que as especuladas discussões de alto nível no México entre o governo cubano – representado pelo general Alejandro Castro Espín, filho do ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos – e autoridades americanas possam resultar em um acordo, mas até o momento não há sinais de progresso.
Comentários feitos no fim de semana em Munique por Marco Rubio, secretário de Estado americano, indicam que os EUA não desejam capitanear uma mudança de regime. Rubio – filho de pais cubanos e um dos integrantes do governo Trump mais empenhados na queda do regime da ilha – afirmou que dar ao povo cubano “mais liberdade, não apenas liberdade política, mas também liberdade econômica” seria um “caminho possível a seguir”.
Para diplomatas de outros países na ilha, porém, a estratégia de Trump é deixar Cuba sem recursos até que a população vá às ruas e os EUA possam intervir. A rapidez com que as condições na ilha se deterioraram surpreendeu analistas.
Jorge Piñón, especialista em energia cubana da Universidade do Texas, que monitora os embarques de petróleo para a ilha, acredita que um colapso é iminente, pois o petróleo se esgotará completamente até abril, no máximo. “Em Cuba, o maior apagão acontecerá mais cedo do que se imagina”, disse ele.
Aposta contra Trump
Para diplomatas e analistas, o governo cubano deve apostar numa eventual derrota de Trump, nas eleições de meio mandato, em outubro, para que um Congresso renovado neutralize o bloqueio de combustíveis da Casa Branca.
A maior dificuldade é evitar um colapso total da economia cubana até lá. Para isso, a velha resiliência do regime comunista da ilha é considerada o maior trunfo. Desde o fim da União Soviética, em 1991 – que, segundo a CIA, o serviço secreto americano, fornecia anualmente US$ 3,5 bilhões em ajuda a Cuba, cerca de US$ 8,6 bilhões em valores atualizados -, o país caribenho vive sob sucessivas ondas de escassez, mas poucas foram tão profundas quanto a que se desenha agora
Nessas últimas três décadas, Cuba atravessou ao menos três grandes crises nacionais de energia — nos anos 1990, em 2021 e novamente entre 2024 e 2025 — todas marcadas por falhas sistêmicas em termelétricas antigas, falta de combustível e incapacidade de importar peças.
A atual, porém, combina fatores inéditos: colapso financeiro, inflação anual elevada (12,52% em janeiro), fuga populacional e isolamento diplomático crescente. O PIB cubano, estimado hoje em cerca de US$ 110 bilhões, equivale ao de um estado brasileiro como a Bahia, mas com uma estrutura produtiva muito mais frágil e dependente de importações básicas.
A escassez de alimentos e medicamentos, já crônica, se agrava com a interrupção de cadeias logísticas e a incapacidade do governo de estabilizar a moeda. Apesar do cenário sombrio, especialistas advertem que os EUA não devem desprezar a capacidade de resistência do regime.
“A situação atual em Cuba é tão grave quanto tem sido desde a década de 1990”, disse Par Kumaraswami, professor de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. “É claro que há frustração com as dificuldades da vida diária, mas muitos cubanos estão determinados a resistir às ameaças à sua soberania nacional e é possível detectar o surgimento de uma nova onda de patriotismo.”