A cinematográfica operação militar dos Estados Unidos na Venezuela na madrugada de sábado, 3 de janeiro, que terminou com a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores – retirados de um bunker militar onde estavam escondidos e levados para os EUA -, já causou ao menos dois efeitos na geopolítica global.
Um deles foi confirmar o fim da ordem mundial que vigorava desde o fim da Segunda Guerra, que estabeleceu como princípios centrais o respeito à soberania dos Estados e a solução pacífica de conflitos.
Desde a posse, em abril, o presidente Donald Trump vinha sinalizando sua intenção de implodir essa ordem. A imposição de tarifas protecionistas de importação contra vários países foi seu primeiro ato neste sentido, um movimento que desarticulou o comércio global, relegando de vez ao ostracismo a Organização Mundial do Comércio (OMC), um dos símbolos do respeito às regras entre as nações.
Em outra frente, Trump ameaçou anexar o Canadá como 51º estado americano, retomar o controle do Canal do Panamá e invadir a Groenlândia para explorar seus minerais críticos, entre outras bravatas, num claro desprezo à autonomia das nações assegurada após a criação da ONU, em 1948.
O segundo efeito da ofensiva militar na Venezuela foi o de Trump inaugurar oficialmente uma nova era, que começou a vir à tona no mês passado, com o anúncio da nova estratégia de segurança nacional dos EUA pelo presidente americano.
Entre outros tópicos, o documento reforça a hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental. Na prática, a nova estratégia retoma elementos da Doutrina Monroe – elaborada em 1823 pelo então presidente James Monroe, segundo a qual o Hemisfério Ocidental é a esfera de influência dos EUA –, ao defender a primazia americana na região e a contenção da influência de potências externas, especialmente China e Rússia.
Ao explicar a ação dos EUA contra Maduro, durante a coletiva de imprensa no sábado, 3, Trump deu mais detalhes dessa nova era. Em nenhum momento prometeu restabelecer a democracia na Venezuela, dizendo que os EUA iriam “administrar” o país até uma suposta transição – mas descartou a entrega ao poder do grupo político opositor, comandado por María Corina Machado.
Mas citou repetidamente a expropriação passada de ativos petrolíferos americanos pela Venezuela e seus planos para recuperá-los: “Temos uma energia tremenda naquele país”, disse ele. “Precisamos disso para nós mesmos.”
O presidente americano ainda descreveu o que chamou de "corolário Trump à Doutrina Monroe", que imediatamente se transformou na expressão “Doutrina Donroe". “Os Estados Unidos jamais permitirão que potências estrangeiras roubem nosso povo ou nos expulsem do nosso próprio hemisfério”, disse Trump. “O futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos que são essenciais para a segurança nacional.”
Visão mercantilista
A julgar por suas ações desde a posse, a "Doutrina Donroe" de Trump não se encaixa em nenhuma estratégia geopolítica, econômica ou de segurança que se tem conhecimento na história moderna dos EUA.
A imposição de tarifas, por exemplo, expôs a visão mercantilista de Trump. Suas negociações comerciais visam a extrair o máximo de receita tarifária e compromissos de investimento, com ameaças de tarifas extorsivas em caso de recusa até de países aliados.
Trump também recorreu a estratégias nada ortodoxas para interferir no setor privado dos EUA. Como se fosse uma espécie de CEO da Casa Branca, ordenou ao governo dos EUA a adquirir 10% das ações da Intel, pelas quais pagou US$ 8,9 bilhões, sob a justificativa de “fortalecer a liderança dos EUA em semicondutores”.
Também anunciou que o governo dos EUA se tornaria o maior acionista da MP Materials, única mineradora de terras raras em operação no país, para garantir controle estratégico sobre minerais essenciais usados em tecnologia, chips e defesa.
Mais ousada foi sua ação para atravessar a compra da US Steel pela Nippon Steel. Trump só autorizou a fusão após impor “condições de segurança nacional”, incluindo investimentos adicionais bilionários da Nippon Steel nos EUA; manutenção de empregos e operações por pelo menos 10 anos e exigência de que os EUA tivessem uma golden share na empresa resultante.
Na ação na Venezuela, Trump deixou claro o seu lado CEO de governar, ao fazer planos para que as gigantes de petróleo americano controlem a infraestrutura petrolífera do país, que detém as maiores reservas mundiais.
Victoria Murillo, diretora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia, afirma que a ação de Trump na Venezuela só faz sentido se for entendida como uma oportunidade para que as empresas americanas tenham acesso ao petróleo venezuelano. “Não há outra justificativa para essa intervenção, é imperialismo à moda antiga no sentido econômico", diz ela.
A suspeita soa estranha dado o estoque de petróleo dos EUA – que há alguns anos se tornaram o maior produtor mundial, com 14 milhões de barris diários, enquanto a Venezuela, no auge, não produzia mais do que 3 milhões de barris diários.
O boom do fracking - o óleo de xisto dos EUA, que mudou o mercado mundial de petróleo - tornou a oferta mais sensível aos preços. Os produtores podem aumentar ou diminuir a produção muito mais rapidamente do que durante crises ou recessões anteriores, o que explica o baixo impacto da intervenção americana no mercado de petróleo.
A Faixa do Orinoco, rica em petróleo pesado e viscoso, por exemplo, vai exigir bilhões de dólares de investimento americano. A única virtude que possui, da perspectiva dos EUA, é que o complexo de refinarias da costa do Golfo, construído quando os EUA ainda eram um importador líquido de petróleo, está voltado para o petróleo bruto, não para a variedade leve e doce que jorra dos poços de óleo de xisto do Texas.
“Se a produção de petróleo dos EUA na Bacia Permiana se estabilizar e a demanda por petróleo aumentar, haverá poucos lugares capazes de fornecer esses barris", afirma Francisco Monaldi, especialista na indústria petrolífera venezuelana da Universidade Rice, referindo-se à região sudoeste dos EUA, a mais produtiva de petróleo do país.
Alvo é a China
As ameaças feitas pelo presidente americano à Colômbia, Groenlândia e ao Irã – onde o governo local enfrenta manifestações da oposição – deixaram no ar um suposto apetite do presidente dos EUA em retomar o caráter imperialista da "Doutrina Monroe", que ganhou tração durante os governos dos presidentes William McKinley e Theodore Roosevelt, por volta dos anos 1900.
Inspirados por outros impérios cujas colônias forneciam matérias-primas, mercados e bases navais, eles anexaram o Havaí e tomaram Porto Rico, as Filipinas e Guam da Espanha; além de fomentar a secessão do Panamá da Colômbia para permitir a construção do Canal do Panamá. John Coatsworth, historiador da Universidade Columbia, contabilizou pelo menos 41 intervenções bem-sucedidas dos EUA para mudar governos na América Latina entre 1898 e 1994.
Trump sabe que nem mesmo seu público ultraconservador apoia aventuras militares dos EUA no exterior. A rigor, o poderio militar americano inigualável seria uma espécie de bala de prata para os EUA conter seu maior adversário do momento: a China.
A ironia é que, pela primeira vez desde 1978, quando a China abriu sua economia, a estratégia chinesa de conquistar mercados mundo afora está sob risco por conta da "Doutrina Donroe".
Essa estratégia foi descrita na década passada pelo pensador indiano Parag Khanna como “funcional”, onde a relação entre as nações não era mais intermediada por entidades supranacionais, como a ONU, e sim por meio de cadeias de suprimentos e de infraestrutura que conectem os países.
“Ao se aproximar dos países, a China não busca impor o controle político, e sim expandir a infraestrutura para ampliar as trocas comerciais das quais é dependente, seja para importar matéria-prima, seja para exportar produtos”, escreveu Khanna.
O pensador indiano faz um paralelo da China de hoje com a Holanda do século 17, que adotou uma estratégia de domínio comercial por meio da Companhia das Índias, em contraposição à conquista de territórios usada pelas potências coloniais da época, como Portugal e Espanha.
O maior exemplo desse domínio comercial é a Iniciativa Cinturão e Rota, megaprojeto global de infraestrutura e integração econômica lançado pela China em 2013, com o objetivo de conectar a Ásia, Europa, África e partes da América Latina por meio de corredores terrestres e rotas marítimas. Dos 143 países que participam do programa, 22 são da América Latina.
Para a Casa Branca, a "Doutrina Donroe" é incompatível com o poderio econômico chinês na região – quem tem o país asiático como o maior parceiro comercial do Brasil, Chile, Venezuela e Peru. Nesse sentido, a ação militar americana que depôs Maduro foi um duro golpe para o governo de Xi Jinping.
Desde 2007, a China investiu aproximadamente US$ 67 bilhões na Venezuela, principalmente no setor energético, com cerca de 90% das exportações de petróleo venezuelanas destinadas à China até o fim de 2025. Em agosto de 2025, poucos meses antes do ataque dos EUA, uma empresa chinesa assinou um acordo de US$ 1 bilhão, com duração de 20 anos, para desenvolver campos de petróleo venezuelanos.
À medida que a China inicia seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), essa vulnerabilidade torna-se estrategicamente consequente. A América Latina ocupa um lugar de destaque na agenda chinesa, com seu Documento de Políticas de dezembro de 2025 designando explicitamente a região como central para a expansão da Iniciativa Cinturão e Rota e para a Iniciativa Global de Desenvolvimento.
Desde a retirada dos EUA do Afeganistão, o governo chinês baseava-se na premissa de que a mudança de regime não fazia mais parte da estratégia americana. O ataque dos EUA à Venezuela demoliu essa suposição e vai obrigar o país asiático a reformular sua estratégia para a América Latina, possivelmente priorizando polos industriais no Brasil e no Chile.