Em um ano que deve ser marcado por incertezas por parte do mercado financeiro, principalmente pelo cenário eleitoral brasileiro, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a autoridade monetária precisa ser, neste momento, mais parecida a um navio transatlântico, que se move lentamente e de forma mais segura, do que a um jet-ski, que se movimenta com velocidade.
A afirmação, dada na manhã desta quarta-feira, 11 de fevereiro, durante painel do CEO Conference Brasil 2026, promovido pelo BTG Pactual, indica que o BC deve iniciar o novo ciclo de corte de juros, previsto para março, de uma forma bem gradativa, a partir de análise mais ampla dos indicadores macroeconômicos, sem causar grande impacto no ambiente da Faria Lima.
“Precisamos analisar as variáveis e interpretar os dados econômicos com serenidade. O Banco Central precisa se mover de maneira mais comedida e segura. Faz parte do nosso mandato suavizar esses ciclos. Por isso, precisamos separar o que é ruído do que é sinal”, disse Galípolo.
Na avaliação dele, é necessário que haja “mais confiança” para que definição para a redução da Selic, hoje a 15% ao ano, tenha mais base de sustentação. Por isso, segundo Galípolo, é importante que o movimento seja mais prudente.
“Especialmente em anos como este, quando o Banco Central puder colaborar para ser uma fonte que reduza as incertezas do mercado, isso é saudável. Quando há qualquer surpresa e a necessidade de reverter os sinais, isso traz mais incerteza. O custo fica maior. E não queremos isso”, afirmou.
No painel, mediado por Roberto Sallouti, CEO do BTG, o presidente do Banco Central falou que é inevitável que haja impacto na economia a partir da proximidade da disputa presidencial no Brasil, em outubro.
“Há fonte de incerteza própria de um ano de eleição. Ainda que a política monetária tenha conseguido trazer a inflação para um patamar mais baixo, ainda há correlação entre as variáveis que dificultam que se extraia uma tendência mais clara de futuro.”
Segundo o presidente da autoridade monetária, o movimento do Banco Central também leva em conta a equação mercado de trabalho e produtividade. “Isso não vai acontecer do dia para a noite, mas é um tema central.”
“São problemas de ordem estrutural. Nossa economia vê poucos ganhos de produtividade e isso é um tema central do País. Temos que colaborar para um ambienta mais amigável, para que o investimento ocorra e produza de maneira mais sustentável”, disse. “Isso não vai acontecer do dia para a noite, mas é um tema central.”
De qualquer forma, a exemplo do que fez na segunda-feira, em evento da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Galípolo elogiou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na condução de políticas estruturais do ponto de vista econômica.
“O Brasil tem vantagens competitivas para se apresentar ao mundo como um polo de atração de investimentos para oferecer ganhos de produtividade. Isso depende de nós. E o ministro vem defendendo isso desde o início de sua gestão”, afirmou.
Além do impacto da política local, o presidente da autoridade monetária explicou que as turbulências na economia dos Estados Unidos, provocada principalmente pelo tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump, também é uma variável importante na conta da queda de juros.
Na avaliação dele, no entanto, o Brasil acabou sendo favorecido por justamente ter uma dependência menor da economia americana. “Ser menos ligado aos Estados Unidos passou a ser uma linha defesa e ser exportador de commodities se tornou algo bem-visto. Isso acabou beneficiando o Brasil.”
No evento do BTG, Galípolo também falou sobre o caso do banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro, a partir da descoberta de fraudes em operações financeiras. E falou que mudanças estão sendo estudadas no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), para blindar o sistema financeiro de novos episódios como este.
Além de falar do apoio recebido por Haddad, Galípolo também reconheceu a atuação da Polícia Federal no caso, que realizou operações para coibir e investigar as ilegalidades cometidas pelo banco de Daniel Vorcaro.
“O mercado financeiro fica com uma grande dívida com a Polícia Federal, que está fazendo um grande trabalho. E temos recebido muito apoio do mercado financeiro neste episódio. Estamos fazendo mudanças regulatórias, que dependem de um trabalho conjunto.”