A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que na quarta-feira, 28 de janeiro, manteve inalterada a taxa Selic em 15% ao ano - o nível mais alto em duas décadas - não chegou a surpreender o mercado.

Mas reforçou a resiliência do presidente do BC, Gabriel Galípolo, que resistiu às pressões do governo federal e de boa parte do setor produtivo para dar início agora em janeiro ao ciclo de queda de juros - o que deve ocorrer na próxima reunião do Copom, em março.

No comunicado, o Copom – que manteve a Selic em 15% pela quinta reunião consecutiva – afirma que “o cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária”. De acordo com o colegiado, a decisão de manter os juros em 15% é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante.

“O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, acrescenta o comunicado da decisão.

A cautela, por sinal, acompanhou a gestão de Galípolo à frente do Banco Central, que completou um ano neste mês de janeiro. Sua atuação foi marcada por três eixos centrais: a condução cuidadosa da política monetária, com Selic elevada, o enfrentamento das críticas políticas e de mercado sobre juros altos, e a atuação firme no caso do Banco Master.

Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com passagem pela equipe econômica do ministro Fernando Haddad, na Fazenda, Galípolo assumiu o BC em meio a expectativas de que adotaria postura mais alinhada ao governo.

Setores do governo esperavam cortes mais rápidos, mas Galípolo manteve postura conservadora, alegando necessidade de estabilidade e credibilidade. Ao longo do ano, nas redes e no debate político, surgiram críticas de que o BC estaria “travando” a economia - críticas que ele rebateu dizendo que decisões seguem critérios técnicos e que a desinformação nas redes sociais distorce o debate.

O governo também pressionou por ampliação do perímetro regulatório do BC, especialmente após escândalos envolvendo fintechs e o Banco Master, o que colocou Galípolo no centro de debates sobre supervisão financeira. Mas, da mesma forma quando rebateu críticas à política monetária conduzida pelo BC, o presidente do órgão demonstrou habilidade política para escapar da polêmica.

Especialistas ouvidos pelo NeoFeed fazem uma avaliação positiva da condução da política monetária do BC sob Galípolo e elogiam sua atuação na crise causada pela tentativa de interferência do Tribunal de Contas da União (TCU) na decisão do BC de decretar a liquidação do Banco Master, ressaltando sua habilidade política.

O economista Marcos Mendes  pesquisador do Insper, foi um dos que não tinham grande expectativa quando o presidente Lula indicou ao BC o nome de Galípolo, “um economista heterodoxo com opiniões estranhas sobre juros”.

Ao NeoFeed, ele admite ter se surpreendido com a rápida adaptação de Galípolo ao que chamou de script tradicional do BC, incluindo em situações adversas, sob críticas à gestão anterior que ele integrou antes de assumir o comando do banco.

“Houve uma boa transição com a saída do Roberto Campos Neto, com a diretoria decidindo pela subida de juros por três reuniões seguidas do Copom, dando espaço para Galípolo se ambientar sem precisar tomar decisões polêmicas”, diz.

Mendes afirma ter duas hipóteses sobre a relação do governo com a atual gestão do BC. A primeira, de acordo com ele, é de que o PT preferiria uma política monetária de juros baixos. Galípolo, ao contrariar essa expectativa, reforçou a consolidação da autonomia do BC - um amadurecimento institucional num cenário nacional em que as instituições não estão indo bem.

“Há também uma segunda hipótese: o Lula ataca o BC em público, mas no fundo concede e até acha boa a política de juros altos porque ela segura a inflação – uma vez que a inflação alta seria uma derrota para o seu governo”, afirma o economista.

“Esse equilíbrio favorece Galípolo e, ao mesmo tempo, permite a Lula fazer a política típica do PT, que é distribuir crédito subsidiado e criar programas com impacto eleitoral, conduzindo uma política populista com baixa inflação”, complementa.

Seriedade

Para o economista José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA-USP, apesar da desconfiança inicial do mercado financeiro devido à indicação do presidente Lula, Galípolo demonstrou seriedade e competência, segundo ele, “agindo by the book”, conforme as regras, o que não surpreendeu o economista.

“Galípolo possui um perfil político adequado ao cargo, ele sabe modular o discurso, ouvir, entender argumentos e delimitar a conversa”, afirma Gonçalves, com longa trajetória no mercado financeiro. “Sua estabilidade no trato e honestidade intelectual são pontos fortes”, emenda, destacando que ele “conversa” em vez de apenas fazer declarações.

Gonçalves também destaca a firmeza de Galípolo contra as pressões do governo para reduzir os juros, o que para ele era esperado. “A discussão sobre juros é inerentemente política e distributiva. O desafio é compatibilizar essa pressão com o regime de metas, algo que Galípolo conseguiu sem ceder”, ressalta.

Outro aspecto da gestão do presidente do BC considerada bem-sucedida se dá ao analisar a trajetória dos juros e do câmbio. “Embora fatores externos, como as políticas do presidente americano Donald Trump, tenham ajudado na queda do dólar, a calibragem da política monetária foi crucial”, observa Gonçalves. “O foco não deve ser apenas na Selic, mas na curva inteira, pois os juros longos influenciam decisões de investimento e emprego.”

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, também elogia o trabalho de Galípolo à frente do BC, que segundo ele é eminentemente técnico e, por isso, deve ser louvado.

“O Banco Central, sob a gestão do Galípolo, está operando de modo autônomo e com vistas ao alcance das metas de inflação, que são extremamente duras, é verdade”, diz Salto, ex-secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo. “Os juros estão elevados, mas isso também reflete uma opção do governo por uma política fiscal deficitária, que implica dívida crescente.”

Mendes, do Insper, destaca a coerência da política monetária do BC na atual gestão, com juros elevados, iniciativa necessária em meio a uma política fiscal expansiva do governo federal, com déficit primário crescente e forte aumento de crédito subsidiado via bancos públicos.

“Os aportes orçamentários para crédito cresceram de R$ 76 bilhões em 2022, último ano do governo anterior, para R$ 179 bilhões em 2025, pressionando a demanda e exigindo freio monetário”, ressalta o economista. “Apesar do juro real acima de 10%, a inflação ficou dentro da banda por conta da ajuda externa – entre elas a desvalorização do dólar, barateando as importações.”

Galípolo, porém, tem de ficar atento a algumas armadilhas à frente. Mendes observa que saíram dois diretores do BC tecnicamente fortes e conservadores, que funcionavam como contrapeso no Copom. “As novas indicações serão um teste do modelo de autonomia, no contexto atual de ataques ao BC pelo TCU e pelo STF, ligados ao caso Banco Master”, adverte.

Gonçalves, da FEA-USP, porém, acredita que a nomeação de dois novos diretores não preocupa. “Espera-se que um indicado seja funcionário de carreira do BC, mitigando temores de alinhamento político”, afirma. “A presença de perfil diferente, possivelmente mais acadêmico e menos focado no mercado, não é problema, mas uma diversidade com a qual o mercado precisa conviver”, acrescenta.

Habilidade política

O caso Master, por sinal, é visto como o maior teste para Galípolo. Em sua gestão, o BC proibiu a venda do banco ao BRB e posteriormente decretou a liquidação extrajudicial, alegando fraude bilionária e risco sistêmico. A decisão gerou forte reação política e questionamentos no TCU, que chegou a restringir o acesso do BC a documentos do processo.

Mendes reconhece que Galípolo demonstrou alta capacidade de articulação política junto ao TCU, utilizando-a para conduzir bem a presidência do Banco Central em meio ao maior escândalo financeiro recente.

Gonçalves qualifica a atuação do Congresso e do TCU no caso Master como “irresponsável e perigosa”. “O Banco Central conseguiu evitar a contaminação do papel da instituição, nesse ponto, a habilidade política de Galípolo ao negociar com o TCU foi decisiva para contornar a crise”, acrescenta.

Felipe Salto afirma que a liquidação do Master era necessária. “A ausência de contágio para outras instituições ou para o mercado, em geral, não reflete apenas o fato de o Master ser relativamente pequeno, mas, adicionalmente, o fato de o BC ter agido com firmeza, apesar das conhecidas pressões políticas", destaca.

O ano eleitoral é um dos desafios que Galípolo deve enfrentar em 2026. Gonçalves cita as incertezas políticas inerentes à eleição presidencial – como CPIs do Master, que podem respingar na atuação do BC e, sobretudo, a questão fiscal. “O tema do superávit primário não será resolvido na campanha e seguirá como restrição após as eleições, exigindo cautela contínua do BC”, diz o acadêmico da USP.

Salto adverte que o prosseguimento da política monetária vai depender do comportamento da política fiscal do governo. “A mudança do atual patamar de juros deve começar a ocorrer, com segurança, ao longo dos próximos meses, mas só conseguiremos vivenciar uma taxa real de juros civilizada, com inflação sob controle, quando a política fiscal der uma contribuição efetiva, isto é, quando voltarmos a gerar superávits nas contas públicas.", diz.

No cenário de piora extrema do quadro fiscal, Mendes adverte para o surgimento da dominância fiscal - quando sobem os juros, piora expectativas e o BC abandona o combate à inflação.

“Ainda estamos longe disso, mas as projeções de dívida pública do Tesouro Nacional não convergem, vão para acima de 100% do PIB”, alerta Mendes. “Uma hora essa coisa estoura.”