Em meio à queda da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alguns dos principais gestores do País alertaram para os sinais contraditórios que o governo emite quanto à condução da política econômica e as consequências que pode ter no trabalho do Banco Central (BC) e no peso da dívida.
Por um lado, existe a percepção de que a inflação virou de fato uma questão no governo, após a desancoragem das expectativas vistas no ano passado. Isso abre caminho para o BC subir os juros de forma relativamente tranquila e re-ancorar essas expectativas - o caminho preferido do mercado.
Por outro, anúncios como os do programa Pé-de-Meia e a possibilidade da edição de uma Medida Provisória (MP) para liberar o FGTS de quem tem saque-aniversário elevam os riscos de a autoridade monetária ter que apertar ainda mais os juros para conter a inflação, pesando sobre a dívida.
Qual lado vai vencer é a grande pergunta. “O governo vai permitir a desaceleração desejada para que o macro dê uma acalmada? Essa é a grande questão”, disse Felipe Guerra, sócio-fundador e CIO da Legacy Capital, na terça-feira, 25 de fevereiro, durante participação em painel no evento CEO Conference 2025, promovido pelo BTG Pactual.
Segundo ele, o governo parece estar “apertando todos os botões” para tentar recuperar a economia e sua imagem antes das eleições de 2026, cobrando que o governo pise no freio e deixe o BC fazer o seu trabalho. “O que Brasil precisa é que as variáveis macro deem uma acalmada, que o fiscal desacelere, para re-ancorar as expectativas de inflação”, disse.
Para Rodrigo Carvalho, sócio-fundador da Clave Capital, porém, o governo não demonstra sinais claros de que será comedido, forçando uma reação da autoridade monetária. “O governo parece preocupado e acho que vai reagir e, com isso, não tenho certeza que o plano do BC de parar a Selic 15% se realiza”, afirmou.
A eleição pode até ser um fator que ajuda a evitar uma deterioração maior da economia e das condições do mercado, mas Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo Investimentos afirmou que, por si só, não impede uma piora. “Em dois anos, pode acontecer muita coisa”, disse.
Para ele, o rally visto no começo do ano não é fruto de uma melhora interna, mas de fatores externos, destacando que o juro de equilíbrio subiu consideravelmente. “O Brasil continua tão ruim quanto em dezembro e como estava em agosto, antes da situação piorar”, afirmou.
Se os gestores foram unânimes nas críticas ao Brasil, o mesmo não foi visto quando o assunto foi Estados Unidos. Houve elogios à postura mais liberal do governo do presidente Donald Trump e para sua equipe econômica, mas pontuações sobre a postura errática do mandatário na parte de tarifas e dúvidas sobre política fiscal - a direção neste segundo tema agrada.
Woelz disse que está com dificuldade de construir cenários para os Estados Unidos, inclusive quando o assunto é o fiscal e as eventuais economias produzidas pelo DOGE, o departamento criado para reduzir gastos governamentais liderado por Elon Musk. “Acho que durante o caminho terá pressão por todos os lados”, afirmou.
No caso das tarifas, ele destacou que o tema não deve sair da pauta tão cedo, com efeitos sobre planos de investimentos. “É uma forma de pressão gigantesca que gera incerteza de onde investir, onde construir cadeia de suprimentos”, disse.
Para Fabiano Rios, CIO da Absolute Investimentos, o governo Trump deve conseguir entregar resultados na frente fiscal, a meta de um déficit de 3% até 2028 deve significar uma desaceleração da economia americana, aumentando o risco de uma recessão técnica.
Ele disse que a gestora ganhou dinheiro no mandato do ex-presidente Joe Biden por conta da injeção de recursos que fez na economia. Num momento em que as ações estavam com preços baixos, isso resultou numa “margem de segurança” para investir no mercado local. “Agora, vejo preços muito diferentes, com o S&P com múltiplos muito alto, margem de segurança menor, o dólar se valorizou absurdamente”, afirmou.
Para Guerra, da Legacy, a perspectiva de uma desaceleração da economia afasta a possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ter que cogitar aumentar os juros. A situação seria positiva não apenas para ativos americanos, quanto também para mercados emergentes, uma fresta de oportunidade para o Brasil.
“Se o governo brasileiro permitir a desaceleração desejada, o Brasil pode surfar a melhora do cenário externo”, disse.