Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), sempre foi visto como um defensor da estabilidade institucional. Durante anos, evitou confrontos diretos com Donald Trump, mesmo sob intensa pressão para reduzir os juros da maior economia do mundo. Essa postura mudou no último domingo, quando uma investigação criminal contra Powell, revelada pelo The New York Times, levou o chefe do banco central a reagir publicamente - e com firmeza.
A investigação do Departamento de Justiça apura se Powell mentiu ao Congresso em depoimento sobre reformas na sede do Fed, em Washington. O projeto, iniciado em 2022, tem custo estimado de US$ 2,5 bilhões, cerca de US$ 700 milhões acima do orçamento original. Trump tem usado esse aumento para acusar Powell de má gestão, chegando a visitar pessoalmente o canteiro de obras — um gesto incomum para um presidente.
Mais do que uma disputa sobre obras, o episódio expõe uma tentativa de Trump de ampliar sua influência sobre a política monetária. Segundo especialistas jurídicos, essa movimentação pode ser um passo para destituir Powell por “justa causa”, algo sem precedentes na história do Fed.
Em uma rara mensagem em vídeo (confira a íntegra abaixo), Powell classificou a ação como uma ameaça à independência do banco central. “A acusação criminal é consequência do Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que serve ao público, e não nas preferências do presidente”, afirmou.
Desde setembro, o Fed reduziu os juros em apenas 0,75 ponto percentual, para a faixa de 3,5% a 3,75%. Trump, por outro lado, exige cortes mais agressivos - até 1% - e chegou a chamar Powell de “imbecil” e “teimoso”.
A ofensiva contra Powell provocou reação imediata. Todos os ex-presidentes do Fed ainda vivos e vários ex-secretários do Tesouro divulgaram uma declaração conjunta denunciando “ataques processuais para minar essa independência”. Janet Yellen, que comandou o Fed entre 2014 e 2018, classificou a investigação como “o ataque mais significativo já sofrido pela instituição”.
“Se você pode apresentar acusações sem motivo algum contra seus inimigos, não estamos mais vivendo em uma sociedade governada pelo Estado de Direito”, alertou Yellen. Para ela, o episódio sinaliza “o fim da independência do Fed” caso Trump avance.
A independência do Fed é um pilar da economia americana. Criadas pelo Congresso, as salvaguardas impedem que um presidente interfira diretamente em decisões sobre juros — que têm impacto profundo na inflação, no emprego e na trajetória da economia. Os sete membros do Conselho de Governadores, por exemplo, cumprem mandatos de 14 anos e não podem ser demitidos à vontade.
Essa blindagem, porém, está sob teste. Trump já iniciou a seleção para substituir Powell na presidência do conselho. Kevin Hassett, ex-diretor do Conselho Econômico Nacional, é um dos nomes cotados. Em entrevista à CNBC, Hassett negou envolvimento na investigação, mas deixou no ar uma frase reveladora: “Com o tempo, descobriremos se isso parece um pretexto”.
Para analistas, o episódio marca uma escalada sem precedentes na relação entre política e política monetária nos EUA. Se Trump conseguir moldar a liderança do Fed, o impacto pode ir além das taxas de juros: abre espaço para decisões guiadas por interesses políticos, com efeitos duradouros sobre credibilidade, inflação e estabilidade global.
No fim, muitos acreditam que o próximo presidente do Fed será o próprio Donald Trump — uma hipótese que, até pouco tempo atrás, parecia impensável.
Confira a íntegra do pronunciamento de Powell:
“Boa noite,
Na sexta-feira, o Departamento de Justiça entregou ao Federal Reserve intimações do grande júri, ameaçando com uma acusação criminal relacionada ao meu depoimento perante o Comitê Bancário do Senado em junho passado. Esse depoimento dizia respeito, em parte, a um projeto plurianual de reforma dos prédios históricos do Federal Reserve.
Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilidade em nossa democracia. Ninguém — certamente não o presidente do Federal Reserve — está acima da lei. Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo.
Essa nova ameaça não se refere ao meu depoimento em junho passado nem à reforma dos prédios do Federal Reserve. Não se refere ao papel de supervisão do Congresso. O Fed, por meio de depoimentos e outras divulgações públicas, fez todo o possível para manter o Congresso informado sobre o projeto de reforma. Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é uma consequência do Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que servirá ao público, em vez de seguir as preferências do Presidente.
Trata-se de saber se o Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas — ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação.
Servi no Federal Reserve sob quatro administrações, tanto republicanas quanto democratas. Em todos os casos, desempenhei minhas funções sem medo ou favorecimento político, concentrando-me exclusivamente em nosso mandato de estabilidade de preços e pleno emprego. O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças. Continuarei a fazer o trabalho para o qual o Senado me confirmou, com integridade e compromisso em servir ao povo americano.
Obrigado.”