A crescente instabilidade da ordem internacional, intensificada pela política comercial agressiva do presidente americano Donald Trump e por seus esforços para enfraquecer instituições multilaterais como a ONU e a Organização Mundial do Comércio (OMC), recolocou os riscos geopolíticos no centro das decisões de investimento.
É nesse contexto que dois executivos do banco suíço Lombard Odier - Michael Strobaek, diretor global de investimentos, e Clément Dumur, gestor de portfólio - escreveram um artigo, do qual o NeoFeed teve acesso em primeira mão, propondo uma reflexão sobre como a geoeconomia passou a moldar a construção de portfólios.
Com mais de 200 anos de história, o Lombard Odier é globalmente focado em gestão de fortunas, com presença no Brasil, onde passou a operar no ano passado. Terceira maior instituição financeira suíça em ativos, o banco suíço gere o equivalente a mais de R$ 2 trilhões.
No artigo, intitulado O medo geopolítico se espalha mais rápido que o capital, os autores afirmam que o modelo internacional da era da globalização, baseado em regras, evoluiu para uma nova ordem mundial de "geoeconomia" e autonomia estratégica.
A menos que os mercados de energia ou as cadeias de suprimentos sejam interrompidos, o estresse geopolítico tende a ser de curta duração nos preços dos ativos. Com isso, os investidores devem analisar se os eventos geopolíticos criam restrições econômicas ou de recursos significativas e se prejudicam a capacidade das empresas de gerar lucros.
A definição de uma nova ordem mundial baseada em geoeconomia é um dos pontos fortes do artigo. A expressão geoeconomia surgiu no início dos anos 1990, quando passou a ser usada para descrever o uso de instrumentos econômicos como ferramentas de poder geopolítico - como países empregam comércio, tarifas, tecnologia, energia, cadeias de suprimentos, sanções e investimentos estratégicos para alcançar objetivos políticos.
A interdependência entre geopolítica e macroeconomia é central para os autores. A primeira define para onde fluxos de bens, capital e energia podem ir; a segunda depende do funcionamento desses fluxos. Por isso, choques geopolíticos só afetam os mercados de forma duradoura quando atingem canais econômicos essenciais — energia, commodities, tecnologia crítica ou gargalos logísticos, como o Estreito de Ormuz.
De acordo com os autores, historicamente, a volatilidade causada por tensões internacionais é episódica. O índice VIX, o chamado “medidor do medo”, costuma reagir de forma curta e limitada. Com isso, recessões provocadas diretamente por eventos geopolíticos são raras - a Guerra do Yom Kippur, em 1973, que elevou o preço do petróleo, é a exceção clássica. Na maioria das vezes, crises políticas apenas amplificam fragilidades já existentes.
Após traçarem um histórico da evolução da economia no século 20 até a globalização, os autores lembram que as instituições multilaterais enfraqueceram em meio à ascensão do populismo nacional. O choque da Covid-19, segundo eles, cristalizou essas tendências.
“Os governos foram lembrados de quão interconectado o mundo havia se tornado; essa interdependência significava vulnerabilidade”, escreveram Strobaek e Dumur. Portanto, as prioridades políticas mudaram decisivamente da eficiência da cadeia de suprimentos para a resiliência da cadeia de suprimentos.
Nesse contexto, eles afirmam que a “nova ordem mundial da era Trump” parece menos uma ruptura do que uma aceleração. Segurança, soberania e autonomia estratégica passaram a ocupar um lugar de destaque em relação à eficiência de custos, com a economia servindo mais uma vez à geopolítica em vez de ao bem comum.
“A política comercial, os subsídios industriais e as tarifas são novamente ferramentas da diplomacia”, afirmam. “A geoeconomia deixou de ser uma construção teórica e tornou-se a realidade operacional das principais potências mundiais.”
“Ruídos de mercado”
Pesquisas do FMI citadas pelos autores mostram que riscos geopolíticos são precificados de forma imperfeita: são raros, difíceis de medir e frequentemente subestimados até se materializarem.
“Tensões prolongadas, como entre EUA e China, tendem a perder impacto psicológico sobre investidores quando não geram rupturas econômicas imediatas”, afirmam. “Os mercados ignoram o ruído”.
Ainda assim, Strobaek e Dumur alertam que isso não deve ser confundido com complacência. Em um mundo mais fragmentado, o investidor disciplinado precisa focar nas “restrições materiais” — conceito do estrategista Marko Papic que descreve os limites físicos, fiscais e industriais que moldam as decisões dos governos. Energia disponível, capacidade produtiva, demografia e cadeias de suprimentos definem o que é possível, não a retórica política.
Outro ponto central é que os mercados continuam ancorados nos lucros corporativos. Se demanda e custos permanecem estáveis, choques geopolíticos raramente deixam cicatrizes permanentes. Fora de recessões, empresas tendem a preservar o crescimento dos lucros, sustentando avaliações, emprego e consumo.
Por isso, afirmam os autores, a geopolítica deve ser tratada como elemento da alocação estratégica de longo prazo, não como gatilho para reações táticas imediatas. O mundo está mudando, mas também se adaptando — de forma desigual e ruidosa. "A tarefa do investidor, portanto, não é prever o próximo choque geopolítico, mas garantir que os portfólios sejam construídos com resiliência suficiente para suportá-los", sugerem Strobaek e Dumur.
Para eles, a pergunta-chave para qualquer investidor hoje é direta: “Este evento geopolítico prejudica a capacidade das empresas de gerar lucros?”. Se a resposta for não, o ruído geopolítico permanece apenas isso — ruído.