O mundo - e os mercados - torcem para que a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã termine o quanto antes, para colocar fim à pressão sobre o preço do petróleo. Mas o economista Nouriel Roubini avalia que a situação ainda vai piorar antes de melhorar.
Com a ameaça de Donald Trump de destruir o Irã como pano de fundo, o economista conhecido como "Dr. Doom” (Doutor Apocalipse, em tradução livre) calcula que a chance de o conflito escalar é da ordem de 75%, porque Trump e os Estados Unidos não podem sair como perdedores nessa guerra. As consequências seriam muito pesadas, tanto em termos domésticos quanto no cenário internacional.
“Agora que começaram, parar dessa forma e permitir que o Irã tenha uma vitória será um desastre econômico, financeiro e geopolítico para Trump”, disse Roubini, na terça-feira, 7 de abril, no evento Brazil Investment Forum, promovido pelo Bradesco BBI. “Se Trump vacilar ou amarelar agora, as coisas vão piorar muito.”
O primeiro efeito será conceder ao Irã a possibilidade de bloquear o Estreito de Ormuz sempre que quiser, tendo controle sobre o fluxo de petróleo, impondo para sempre um prêmio sobre o preço do barril.
O segundo será estimular o regime iraniano a se armar e ter recursos para atacar não apenas Israel, mas também os vizinhos do Oriente Médio e a Europa, além de fazer com que o país volte a buscar com mais ênfase uma bomba nuclear.
Conhecido por suas previsões pessimistas em relação à economia, a ponto de ganhar o apelido de Doutor Apocalipse, Roubini afirmou ainda que uma derrota, ainda que simbólica, enterraria a possibilidade de Trump manter o controle do Congresso nas eleições marcadas para novembro.
Em termos geopolíticos, os Estados Unidos perderiam força perante China e Rússia e colocariam dúvidas sobre a capacidade dos americanos de proteger seus aliados. “Será um desastre total para a credibilidade dos Estados Unidos”, disse Roubini.
O economista atribui uma possibilidade de 55% de os Estados Unidos escalarem e ganharem a guerra contra o Irã, avaliando que Trump deve tentar sufocar financeiramente o Irã, tomando a Ilha de Kharg, por onde passa 90% da produção de petróleo do país, e a saída do Estreito, além de se preparar para aguentar os mísseis e drones iranianos.
“Se conseguirem retomar o controle do Estreito de Ormuz, derrotar a liderança e destruir ativos estratégicos, e minimizar os danos às antigas instalações em Kharg, em dois meses, é possível que ocorra um colapso de regime de fato”, disse Roubini. “Por colapso de regime, quero dizer uma situação em que o Irã esteja tão fraco que, na prática, se renda e aceite as condições impostas pelos Estados Unidos.”
Esse prazo de dois meses não deve prejudicar a economia global, segundo Roubini, ainda que a reação inicial dos mercados deva ser negativa, com queda das ações e alta do preço do petróleo.
“Contanto que essa guerra se mantenha e não dure mais do que dois ou três meses, no máximo, haverá uma desaceleração no crescimento global, mas não uma recessão nos Estados Unidos ou no mundo. Haverá algum aumento na inflação, mas não chegaremos a uma inflação de dois dígitos ou a uma desancoragem das expectativas de inflação. Portanto, será mais como uma recessão com crescimento moderado. Uma estagflação light”, afirmou.
Roubini apontou ainda que o mundo está muito mais resiliente do que em 1970. Mesmo que a guerra tenha resultado no pior choque de petróleo da história, os países dependem cada vez menos de petróleo, há muito mais produtores no mundo e as matrizes energéticas mais limpas estão mais presentes.
Além disso, o choque da década de 1970 foi precedido por déficits fiscais maiores do que os atuais, o fim do sistema Bretton Woods e uma reação equivocada por parte das autoridades.
Este cenário, porém, depende da vitória americana. Em caso de derrota, o cenário de 1970 seria uma realidade, segundo Roubini. “Isso é um pesadelo. Você tem uma recessão global, inflação próxima de dois dígitos, expectativas inflacionárias negativas e o mercado pode cair 20%, 30%, e vimos essa triste realidade na década de 1970”, alertou.