O local e o momento foram perfeitos para o presidente americano Donald Trump anunciar, na quarta-feira, 21 de janeiro, as diretrizes do que seria, na prática, uma nova ordem mundial – exposta de forma picotada, em meio a idas e vindas, à imagem e semelhança de seu criador.

Num discurso de 71 minutos no 56º Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, para uma plateia lotada de empresários, investidores e dezenas de chefes de Estado, Trump usou o palco para fazer um balanço de um ano de governo, completado na véspera, e reforçar as ameaças que já vinha fazendo aos europeus: os Estados Unidos precisam anexar a Groenlândia por questões de segurança nacional.

O presidente americano também defendeu sua política tarifária, disse que o mundo depende da economia americana, tentou diminuir a importância da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e distribuiu ameaças aos líderes europeus. Entre uma frase e outra, deixou claro que daqui para frente usará o poder militar ou o porrete tarifário para reforçar a supremacia americana.

Até para esfriar as expectativas, descartou de cara uma intervenção militar na Groenlândia, “algo que nos tornaria, francamente, imparáveis”, como pontuou. “Não quero usar a força. Não vou usar a força. Tudo o que os EUA estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia”, emendou, medindo as palavras, diante de uma plateia visivelmente incomodada.

“Vocês podem dizer sim e nós ficaremos muito agradecidos. Ou podem dizer não e nós nos lembraremos disso”, acrescentou, passando o recado.

O presidente americano se esforçou em alinhar argumentos para justificar a necessidade de tomar a Groenlândia, uma ilha do Ártico controlada pela Dinamarca. Mas a cada tentativa achou uma forma de menosprezar os países europeus, que se opõem à anexação e devem decidir na quinta, 22, como vão reagir.

Primeiro, Trump invocou o histórico dos EUA na Segunda Guerra como justificativa para sua exigência, lembrando a invasão nazista da Dinamarca e o posterior apoio americano. "Sem nós, vocês estariam todos falando alemão, ou talvez um pouco de japonês”, disse.

Ao se estender no assunto, com uma ponta de irritação, o presidente americano chegou a confundir a Groenlândia com a Islândia, afirmando que a "Islândia" havia provocado uma queda nos preços das ações no mercado financeiro americano na terça-feira, 20, “o que nos custou muito dinheiro”.

Dirigindo-se aos líderes europeus, Trump alternou palavras de respeito ao Velho Continente com frases agressivas, que deixaram a plateia atônita. Primeiro, invocou sua própria herança europeia dizendo que sua mãe era da Escócia e seu pai da Alemanha.

“Eu amo a Europa e quero ver a Europa prosperar, mas ela não está indo na direção certa”, afirmou, citando problemas impulsionados pelo que definiu como maior onda de migração em massa da história da humanidade. "Certos lugares na Europa já nem são mais reconhecíveis”, lamentou.

Trump ironizou o presidente francês Emmanuel Macron, que na véspera discursou em Davos com óculos escuros de aviador, em virtude de um problema ocular, e destratou os anfitriões suíços, confirmando que impôs tarifas mais altas à Suíça, no ano passado, devido a um telefonema da então presidente do país, Karin Keller-Sutter, que considerou agressivo.

"Ela disse: 'Não, não, não, por favor, você não pode fazer isso', repetindo a mesma coisa várias vezes: 'Somos um país pequeno'”, contou Trump, sobre a tarifa de 30% que havia decretado. “E consegui 39%", disse ele.

O presidente americano reiterou que “tarifas são parte da segurança nacional”, justificando retaliações econômicas contra países que, segundo ele, “prejudicam” os EUA.

Trump fez menções à Venezuela, afirmando que o novo governo venezuelano dividirá a receita do petróleo com os EUA. “A Venezuela vai gerar mais dinheiro em seis meses do que nos últimos 20 anos”, disse, acrescentando que países que cedem às exigências dos EUA prosperam, reforçando sua narrativa de força e influência mundial.

E foi claro que não vai aceitar resistência à sua liderança global, ao reagir ao discurso em Davos, na véspera, do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que havia criticado, de forma indireta, o uso de tarifas e coerção econômica por grandes potências — uma referência clara aos EUA —, afirmando que "estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição".

“O Canadá vive por causa dos Estados Unidos”, disse Trump. “Lembre-se disso, Mark, da próxima vez que fizer suas declarações.”

Nova ordem

Parte do discurso de Trump em Davos foi endereçado ao público americano, para quem fez um balanço de seu primeiro ano de governo.

Com frases de efeito, disse que o tarifaço reduziu o déficit comercial dos EUA em 77% e, graças aos cortes no funcionalismo e a políticas fiscais agressivas, diminuiu em 27% o déficit orçamentário federal. E comemorou a "inflação praticamente nula”.

“Acabamos com a estagflação do governo Biden”, exagerou. “Antes, éramos um país morto, agora somos o país mais badalado do mundo.”

No dia anterior, para comemorar um ano de governo, Trump já havia feito na Casa Branca o maior discurso desde a posse, no qual expôs antigas queixas, atacou inimigos imaginários e ameaçou aliados ao longo de 1h45 de pronunciamento. “Acho que Deus está muito orgulhoso do trabalho que fiz”, chegou a afirmar.

Como resumiu o jornal The New York Times, a grande verdade do segundo mandato de Trump até agora é que ninguém tem ideia do que o amanhã reserva.

Por enquanto, no âmbito interno, Trump minou o Estado de Direito, a estabilidade fiscal, a independência do Federal Reserve (e, portanto, a estabilidade monetária e financeira) e o compromisso com a ciência. Perseguiu imigrantes, mandou tropas para policiar cidades democratas e transformou o Congresso num poder submisso.

Internacionalmente, os EUA estão travando uma guerra contra quase todas as instituições multilaterais, notadamente a União Europeia. A Organização Mundial do Comércio (OMC) tornou-se irrelevante. A cooperação em questões climáticas e de saúde foi revogada. Ao todo, o governo anunciou sua decisão de se retirar de 66 organizações internacionais, incluindo 31 entidades da ONU.

Nenhum código ideológico consegue abarcar completamente as ações do presidente americano. Seus impulsos autocráticos derivam mais da vaidade e da insegurança do que de um sistema de crenças coerente. O trumpismo, na prática, é o que ele quiser que seja, mesmo quando se contradiz.

Trump interpretou as leis existentes de forma a conceder a si mesmo uma discricionariedade praticamente ilimitada em relação às tarifas. Seriam necessários dois terços dos votos tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes para alterar essas leis, e não há republicanos suficientes, que controlam ambas as casas, dispostos a apoiar a proposta para atingir esse quórum.

Inovações na economia

Na área econômica, por sinal, Trump lançou mão de duas estratégias nunca vistas antes na Casa Branca. Sua recente ameaça de impor tarifas de 10%, podendo chegar a 25%, a vários países europeus caso se oponham à anexação da Groenlândia pelos EUA representa um passo além de sua política tarifária.

Na prática, seria a consolidação do uso de tarifas contra um aliado para um objetivo estratégico, e não comercial - de certa forma, como fez com o Brasil por ocasião da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O segundo movimento, consolidado ao longo dos 12 meses de mandato, surpreendeu analistas pela sofisticação. Ele diz respeito a uma união entre a Casa Branca e Wall Street, marcada pela adoção, pelo governo Trump, de uma política econômica fortemente intervencionista, que inclui acordos diretos com empresas, participação acionária estatal e incentivos direcionados a setores considerados estratégicos.

Essa postura contrasta com a expectativa tradicional de que um governo republicano priorizaria desregulação ampla, redução do papel do Estado e estímulo ao livre mercado. Em vez disso, Trump consolidou um modelo de capitalismo orientado pelo governo, no qual a Casa Branca define prioridades industriais e as empresas se alinham a elas para garantir acesso a benefícios, contratos e alívio regulatório.

A surpresa dos analistas decorre justamente da intensidade dessa intervenção: o governo negociou com Taiwan a redução de tarifas em troca de cerca de US$ 250 bilhões em investimentos, sobretudo na expansão da TSMC no Arizona; assumiu participações acionárias em companhias como Intel, Trilogy Metals e US Steel; e passou a controlar as vendas de petróleo venezuelano, transformando instrumentos de política externa em mecanismos de política industrial.

Paralelamente, grandes instituições financeiras, como o J.P. Morgan, passaram a orientar seus clientes a investirem em setores favorecidos pela Casa Branca — indústria, materiais, energia e tecnologia — que se tornaram os principais vencedores do mercado nos últimos meses.

O desempenho dessas áreas, impulsionado tanto por gastos públicos quanto por investimentos corporativos alinhados às prioridades de Trump, reforça a percepção de que o governo está moldando diretamente a alocação de capital privado.

Para alguns estrategistas, trata-se de um “estímulo sem emissão de títulos”, já que o financiamento da agenda presidencial ocorre via empresas, não via Tesouro, o que desafia princípios clássicos do livre mercado. Ainda assim, investidores parecem ter aderido ao modelo, apostando que seguir as diretrizes da Casa Branca continuará sendo lucrativo.

No conjunto, a política econômica de Trump surpreendeu por combinar nacionalismo econômico, intervenção direta e coordenação com o setor privado, produzindo um ambiente em que Wall Street não apenas reage às decisões da Casa Branca, mas as toma como bússola para suas estratégias.

A dúvida é se os resultados para o setor industrial e o mercado financeiro podem estimular Trump a assumir de vez o modelo de autocrata, desafiando a Justiça, deixando permanentemente de lado o Congresso e buscando algo que significaria a ruína da democracia americana: um terceiro mandato, o que é expressamente vedado pela Constituição dos EUA.